Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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(ou uma norma de ação) não é 
reconhecida como sendo obviamente válida, ela se torna objeto de um discurso.
 7. BRANDOM, Robert. Making it Explicit. Cambridge (MA): Harvard University Press, 
1994.
 8. Sobre Verdade e justificação ver os dois escritos de Christine Lafont e Charles Lar-
more (LAFONT, Christine. Ist Objektivität perspektivistisch? Ein Vergleich zwischen 
Brandoms und Habermas\u2019 Konzeption der Objektivität e LARMORE, Charles. Der 
Zwang des besseren Arguments), ambos in: WINGERT, L. e GÜNTHER K. (Hg.). Die 
Öffentlichkeit der Vernunft und die Vernunft der Öffentlichkeit. Festschrift für Jürgen 
Habermas. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 2001, 192\u2013216 e 106\u2013125.
a Teoria do agir comunicaTivo: 
summa ou Balanço ProviSório?
Em 1981 é publicado o livro talvez mais significativo de Habermas: 
a Teoria do agir comunicativo. O livro representa a tentativa de elaborar a 
\u201cnova\u201d teoria crítica da sociedade que é objeto do seu pensamento desde 
os anos de 1960. Como já se observa no escrito sobre a lógica das ciências 
sociais (cf. Cap. 3 \u2013 \u201cA polêmica sobre o positivismo e a lógica das ciências 
sociais\u201d.), Habermas não se refere simplesmente à teoria social tradicional, 
mas também à filosofia analítica da linguagem; além disso, inclui na sua 
análise uma teoria bastante complexa da racionalidade e da ação, que por 
sua vez remete às mais diversas teorias.
EstRUtURA E mOtivOs DO livRO
Em geral, essa obra-prima de Habermas pode ser considerada como 
a tentativa de entender a sociedade contemporânea por meio de uma re-
construção dos momentos mais importantes que contribuíram à autocom-
preensão da modernidade. A teoria do agir comunicativo não representa, 
destarte, uma teoria da sociedade em geral, mas da sociedade moderna.
Em algumas conversas que Habermas teve no verão de 1981 com 
Axel Honneth, Eberhard Knödler-Bunte e Arno Widmann e nas quais falou 
amplamente do seu \u201cnovo livro\u201d (NU 176 ss.), ele menciona quatro motivos 
centrais que \u201cincluiu neste monstro\u201d (NU 178):
 1. O primeiro motivo é a tentativa de uma teoria de racionalidade 
\u2013 e isto em uma época na qual \u201co relativismo em todas as suas 
variantes estava triunfando\u201d (ibid.; ver Cap. 5 \u2013 \u201cCompetência 
comunicativa e pragmática universal\u201d.);
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 2. O segundo motivo é a teoria do agir comunicativo propriamente 
dita, que se baseia em discussões (que ocorreram predominan-
temente no âmbito linguístico anglo-saxônico) sobre teorias da 
ação, da linguagem e da semântica e que procura tornar os resul-
tados de tais debates frutíferos para finalidades socioteóricas;
 3. O terceiro motivo é a dialética da racionalização social que já 
fora tema central da Dialética do Esclarecimento de Adorno e 
Horkheimer: Habermas quer mostrar \u201cque usando conceitos 
próprios de uma teoria comunicativa é possível desenvolver uma 
teoria da modernidade que possua a necessária seletividade para 
fenômenos sócio-patológicos, isto é, para o que na tradição mar-
xista [pense-se em Lukács \u2013 A. P.] foi concebido como reificação\u201d 
(NU 180);
 4. O quarto motivo é o desenvolvimento de um conceito de socie-
dade que reúna os dois paradigmas socioteóricos dominantes, a 
saber, a teoria sistêmica e a teoria da ação (ibid.).
\u201cO que resulta disso\u201d, afirma Habermas, \u201cpoderia parecer um retorno a 
posições para as quais a Teoria Crítica apontara nos anos de 1930. \u2018Retorno\u2019 
com muitas aspas, naturalmente, já que pretendo efetuá-lo sem levar em 
conta o fundo de filosofia da história da Teoria Crítica\u201d (NU 185). Isso vale 
em particular para a teoria da racionalidade, que se funda em um conceito de 
razão comunicativa que os \u201cantigos\u201d frankfurtianos nunca teriam aceitado.
Habermas pretende desenvolver sua teoria da sociedade servindo-se 
de um conceito de racionalidade comunicativa que traga à tona o conteú-
do normativo de qualquer comunicação orientada pela compreensão. Tal 
conceito aponta para três níveis nos quais processos comunicativos podem 
acontecer a partir da perspectiva dos sujeitos envolvidos neles, a saber: \u201ca 
relação do sujeito do conhecimento com um mundo de eventos ou fatos; 
a relação do sujeito prático, que age e está envolvido em interações com 
outros; e, finalmente, a relação do [...] sujeito com sua própria natureza, 
com sua subjetividade e com a subjetividade de outros\u201d (sobre esse ponto 
ver a teoria dos três mundos: cf. VI.2). Essas três dimensões apontam, por 
sua vez, para um mundo da vida que os participantes da comunicação \u201ctêm 
atrás de si e a partir do qual eles resolvem seus problemas de compreensão\u201d 
(cf. Cap. 4 \u2013 \u201cIdentidade do Eu e desenvolvimento da consciência moral\u201d.) 
(NU 185). Na sociedade atual, porém, o mundo da vida corre o risco de ser 
\u201ccolonizado\u201d pelos sistemas da economia e da administração \u2013 e isso leva a 
uma corrosão dos âmbitos de ação estruturados em termos comunicativos. 
Tal fenômeno, contudo, é inevitável na sociedade moderna, já que se trata 
de uma consequência de processos de racionalização ligados à modernização 
capitalista. Habermas visa o que ele chama de \u201creconciliação da modernidade 
dilacerada consigo mesma\u201d (uma ideia que ele põe em relação com a mística 
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judaica e com Schelling: cf. Cap. 3 \u2013 \u201cTeoria e práxis\u201d.). Na sua opinião, é 
possível, \u201csem renunciar às diferenciações que tornaram possível a moderni-
dade quer no âmbito cultural, quer no social e econômico\u201d, encontrar formas 
de convivência nas quais a autonomia dos indivíduos e sua dependência da 
dimensão social sejam \u201creconciliadas\u201d, sem cair novamente em concepções 
pré-modernas da relação de indivíduo e comunidade. Isso pressupõe a pos-
sibilidade de uma intersubjetividade intacta: \u201cuma rede sempre mais densa, 
sempre mais finamente tecida de relações intersubjetivas que possibilita, ao 
mesmo tempo, uma relação entre liberdade e dependência\u201d (isso relembra 
Jakob Böhme, o Schelling das Idades do mundo, o jovem Hegel e, em parte, 
Adorno). \u201cTrata-se sempre de concepções de interação bem-sucedida, de 
reciprocidade e de indiferença, de distância e de proximidade que não fa-
lha, de vulnerabilidade e de cuidado complementar \u2013 todas estas imagens 
de proteção, exposição e compaixão, de dedicação e de resistência surgem 
de um horizonte de experiência de uma convivência cordial, para usar um 
termo de Brecht\u201d (NU 202 s.).
O fato de Habermas desenvolver sua teoria predominantemente na 
confrontação com outras teorias da sociedade não significa que ele queira 
oferecer uma espécie de metateoria, isto é, uma teoria sobre tais teorias 
(ainda que no livro apareçam frequentemente considerações metateóricas): 
ele vê, antes, nessas teorias tentativas diversas de compreender a moderni-
dade como processo \u2013 tentativas que por várias razões não tiveram sucesso 
completo, mas que apresentam elementos que cabe resgatar. Nesse sentido, 
um papel central é tomado por Max Weber, Émile Durkheim, Herbert G. 
Mead e Talcott Parsons, mas se recorre também a Marx, Lukács, Horkhei-
mer, Adorno, Piaget e Kohlberg, à fenomenologia, à filosofia analítica da 
linguagem e à etnometodologia. A confrontação com essas perspectivas é 
interrompida por capítulos teórico-sistemáticos que Habermas chama de 
\u201cInterlúdios\u201d, mas que representam o núcleo teórico da obra: o primeiro 
deles é dedicado à pragmática universal e à confrontação com as discus-
sões, supracitadas sobre as teorias da linguagem e da ação; o segundo se 
ocupa da questão da difícil relação entre sistema e mundo da vida. Já que a 
pragmática universal foi tratada anteriormente (cf. Cap. 5 \u2013 \u201cCompetência 
comunicativa e pragmática universal\u201d.), nossa atenção se concentrará no 
segundo \u201cinterlúdio\u201d (cf. Cap. 6 \u2013 \u201cSistema e mundo da vida\u201d.).
QUAtRO mODElOs DE AGiR
O primeiro capítulo representa uma introdução que pretende explicar 
o conceito de racionalidade utilizado na teoria em questão. Conquanto 
Habermas queira