Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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da mo-
derna compreensão do mundo\u201d: TKH I 255), mas não segue ulteriormente 
essa estratégia. Em vez disso, ele critica a teoria weberiana do agir por 
limitar-se ao agir teleológico e lhe contrapõe, no primeiro \u201cInterlúdio\u201d, a 
sua própria teoria do agir. Na sua opinião, é particularmente na descrição 
da racionalização do direito que se pode demonstrar como o conceito we-
beriano de agir teleológico é inadequado: O direito moderno é fundado na 
\u201cideia de que as normas jurídicas são, por princípio, criticáveis e necessitam 
uma justificação\u201d (TKH I 353), e aponta, por isso, para pretensões de vali-
dade defensáveis comunicativamente. Weber, porém, não vê este aspecto 
e desconhece, assim, uma importante característica da modernização: a 
racionalização social não significa somente a difusão do agir teleológico, 
mas o vir à tona de um potencial de racionalidade \u201cque está implícito na 
base de validade da fala\u201d. As ações não são sempre orientadas pelo fim, 
mas podem também ser orientadas pelo entendimento. A confrontação com 
Weber mostra, então, que é necessária uma \u201cmudança de paradigma do agir 
teleológico para o comunicativo\u201d \u2013 mudança que, porém, é impossível do 
ponto de vista da filosofia da consciência, na qual Weber ainda se encontra 
(TKH I 455). Por isso, no primeiro \u201cInterlúdio\u201d (o capítulo III) Habermas 
recorre à sua pragmática universal, da qual já se falou em IV.2.
No quarto capítulo, Habermas considera a recepção marxista da teoria 
weberiana da racionalização por Lukács, Horkheimer e Adorno. Ao fazer 
isso, ele analisa a teoria lukacsiana da reificação e sua elaboração por Ador-
no e Horkheimer, para mostrar que todos esses pensadores permanecem 
no horizonte teórico da filosofia da consciência (TKH I 460).
Seguindo Weber, Horkheimer vê o \u201cfundo sobre o qual se forma a 
razão instrumental como forma dominante de racionalidade\u201d naquelas 
imagens metafísico-religiosas do mundo cuja dissolução Weber tinha ca-
104 Alessandro Pinzani
racterizado como processo de desencantamento. Para Horkheimer, esse 
processo \u201cpõe em questão a unidade dos mundos da vida modernizados\u201d 
e, portanto, ameaça seriamente \u201ca identidade dos sujeitos socializados 
e sua solidariedade social\u201d (TKH I 463 s.). Surge assim uma consciência 
moderna determinada pela diferenciação das esferas de valores culturais já 
mencionados. O resultado é a subjetivização de fé e saber. À arte e à moral 
é negada qualquer pretensão de verdade; esta é garantida somente pela 
ciência, que \u201cmantém uma relação prática somente com o agir teleológico 
(e perde tal relação com a práxis comunicativa)\u201d (TKH I 467). A razão 
instrumental acaba assim, prevalecendo.
Também Lukács se confronta com a teoria da racionalização webe-
riana: racionalização e reificação representam dois aspetos do mesmo 
processo. Weber, porém, desconhece \u2013 na leitura de Lukács \u2013 sua relação 
causal e desconecta os fenômenos da reificação do fundamento econômico 
da sua existência. Retomando a análise marxiana da forma-mercadoria, 
Lukács aponta para a circunstância de que, em consequência da racionali-
zação capitalista, as orientações relevantes para a ação econômica foram 
destacadas do seu contexto de mundo da vida e conectadas ao meio do 
valor de troca (o dinheiro). Portanto, as interações já não são coordenadas 
por meio de normas e valores, mas por meio do dinheiro, ao ponto de os 
sujeitos agentes terem de tomar uma atitude objetivizante perante os outros 
e perante si mesmos. Essa reificação de contextos de mundo da vida é a 
outra face da racionalização (TKH I 478 ss.; Habermas retoma essa ideia 
na sua análise da colonização do mundo da vida: cf. VI.4).
A crítica da razão instrumental de Adorno e Horkheimer se conecta à 
interpretação de Lukács. Em vez de considerar o processo de racionalização 
como fenômeno genuinamente moderno, os dois pensadores frankfurtia-
nos deslocam, porém, o processo da reificação dos \u201cinícios capitalistas da 
modernidade para os inícios do processo de humanização\u201d. A partir dessa 
perspectiva, a razão instrumental se torna \u201cuma categoria do processo his-
tórico mundial de civilização\u201d; desta maneira, porém, segundo Habermas 
\u201cos contornos do conceito de razão ameaçam desvanecer\u201d (TKH I 489). 
Os dois pensadores subestimam a vitalidade da razão comunicativa, que, 
diferentemente da instrumental, \u201cnão se deixa subsumir sem resistência 
a uma autoconservação que se tornou cega\u201d. Ela se aplica \u201ca um mundo 
da vida estruturado simbolicamente que se constitui nas contribuições 
interpretativas de seus membros e se reproduz somente por meio do agir 
comunicativo\u201d (TKH I 532 s.).
Justamente o agir comunicativo está no centro da reflexão de dois 
pensadores tão diferentes como o psicólogo social norte-americano George 
Herbert Mead e o sociólogo francês Émile Durkheim, aos quais é dedicado 
o quinto capítulo.
105 Habermas
A reconstrução extremamente detalhada da teoria de Mead sobre a 
formação da identidade do Eu por meio de um processo de socialização 
mediado linguisticamente demonstra a importância desse autor para o pen-
samento do próprio Habermas. A teoria de Mead representa a tentativa de 
construir uma teoria da sociedade a partir de uma teoria da comunicação. 
Ao fazer isso, ele parte da \u201cutopia\u201d de uma comunidade ideal de comuni-
cação, cujo sentido consiste em servir à reconstrução de uma intersubjeti-
vidade intacta que \u201cpermita o entendimento recíproco dos indivíduos sem 
coação e, do mesmo modo, a [formação] da identidade de um indivíduo 
que se entende consigo mesmo sem coação\u201d. Essa teoria, porém, se revela 
insuficiente quando se trata de descrever os mecanismos por meio dos quais 
uma sociedade se reproduz, já que isso acontece não somente sob as condi-
ções de uma racionalidade comunicativa. Por outro lado, ela pode explicar 
(e, precisamente, a partir de uma perspectiva interna) com os mundos da 
vida de grupos sociais se reproduzem simbolicamente (TKH II 9 s.).
Habermas salienta que Durkheim se ocupou \u201cdurante sua vida em 
explicar a validade normativa de instituições e valores\u201d (TKH II 75). O 
ponto de partida dessas reflexões é a diferença entre regras técnicas e regras 
morais. Diversamente das regras técnicas, cuja violação leva ao fracasso da 
ação, as regras morais possuem uma forca obrigatória de tipo particular, já 
que a violação contra elas leva a uma sanção, não ao fracasso. Durkheim 
identifica a fonte dessa obrigação com a dimensão do sagrado: \u201cA partir 
das analogias estruturais do sacro e da moral, Durkheim conclui que há 
uma base sagrada da moral\u201d (TKH II 79). Portanto, põe-se a questão se e 
como uma moral secularizada possa subsistir. Servindo-se de uma análise da 
evolução social do direito, Durkheim mostra como a autoridade do sagrado 
é \u201csubstituída pela autoridade de um consenso considerado cada vez mais 
fundado\u201d (TKH II 118). Há lugar, em suma, para uma \u201clinguistificação\u201d 
[Versprachlichung], isto é, uma transformação linguística, uma \u201cfluidifi-
cação comunicativa\u201d do consenso básico religioso. Na medida em que este 
último se dissolve e a autoridade estatal perde seu respaldo sagrado, \u201ca 
unidade do coletivo pode produzir-se e manter-se somente como unidade 
de uma comunidade de comunicação e, precisamente, por meio de um con-
senso alcançado comunicativamente em uma esfera pública política\u201d (TKH 
II 126). Assim, ao apontar novamente para a dimensão comunicativa de 
formas de vida social, Habermas passa a analisar, no segundo \u201cInterlúdio\u201d 
(capítulo VI), o problema da relação entre sistema e mundo da vida (cf. 
VI.4), para depois, no sétimo capítulo, efetuar uma longa reconstrução da 
teoria sistêmica da sociedade de Talcott Parsons.
Parsons parte da questão de como seja possível a \u201csociedade como 
conjunto coordenado de ações\u201d (TKH II 301). Ele tenta, inicialmente, 
responder por meio de uma teoria da ação, para depois passar a uma