Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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teoria sistêmica da sociedade.4 Habermas se ocupa amplamente de vários 
aspectos do pensamento de Parsons (sua teoria dos meios, sua teoria da 
modernidade, etc.). Contudo, embora essa reconstrução chegue a ser um 
elemento irrenunciável para Habermas no seu caminho rumo a uma teoria 
da sociedade própria, fica a impressão de que essa espécie de \u201cprestação de 
contas\u201d com Parsons é útil menos ao leitor e mais ao próprio Habermas. De 
qualquer maneira, ela lhe permite chegar a um conceito de sociedade em 
dois estágios, que reúne os dois aspectos do sistema e do mundo da vida.
sistEmA E mUNDO DA viDA
Habermas aponta para o fato de que é diferente considerar a sociedade 
a partir da perspectiva interna (isto é, da perspectiva de um participante) 
de sujeitos agentes (como faz Mead) e vê-la como o mundo da vida de um 
grupo social ou considerá-la da perspectiva de um observador imparcial 
(como faz Parsons) e vê-la como um sistema de ações. Nosso autor gostaria 
de tomar ambas as perspectivas conjuntamente, e conceber a sociedade 
seja como mundo da vida, seja como sistema (TKH II 179 s.; essa ideia 
corresponde, grosso modo, àquela já expressa em A crise de legitimação do 
capitalismo tardio, segundo a qual se poderia considerar a sociedade do 
ponto de vista da integração social ou daquele da integração sistêmica). 
O agir social é sempre o agir de sujeitos e, portanto, agir intencional, que 
o próprio agente vincula a um sentido subjetivo, como já tinha observado 
Max Weber.5 Isso exclui a possibilidade de uma análise meramente empírica, 
já que o agir social se orienta pelo sentido que os atores lhe atribuem. Tal 
sentido, contudo, não é subjetivo a ponto de ser redefinido cada vez por cada 
sujeito particular. Ele é antes, \u201cem primeiro lugar, um sentido intersubjetivo 
constitutivo para o tecido social no qual os indivíduos se encontram e no 
qual eles agem: ele possui a forma de valores e cosmovisões transmitidos, 
de papéis institucionalizados, de normas sociais, etc.\u201d.6 O agir social recebe 
seu sentido, então, do mundo da vida, no qual se encontram os atores assim 
como o observador, isto é, o cientista social. As ciências sociais enquanto 
ciências interpretativas estão presas em um círculo hermenêutico: elas não 
podem fugir do mundo da vida na qual o próprio observador se encontra. 
O mundo da vida constitui o horizonte no qual não somente se dá o objeto 
de tais ciências, a saber, o agir social, mas também acontecem as análises 
delas. Uma pesquisa empírica no sentido das tradicionais ciências natu-
rais, isto é, uma observação objetiva e distanciada, é impossível no caso 
da análise do agir social.7
O mundo da vida é constituído, como já foi observado (III.2), por 
determinados valores e determinadas convicções básicas que formam o 
horizonte de cada ação (inclusive dos atos de fala). Portanto, o saber nele 
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contido (Habermas fala de um \u201cacervo de saber\u201d: TKH II 191) não pode 
ser criticado ou falsificado enquanto tal: \u201cos agentes comunicativos se mo-
vimentam sempre dentro do horizonte do seu mundo da vida; não podem 
sair dele. Como intérpretes pertencem com seus atos de fala ao mundo 
da vida, mas não podem referir-se \u2018a algo no mundo da vida\u2019 da mesma 
maneira em que se referem a fatos, normas ou vivências. [...] O mundo 
da vida é como que o lugar transcendental no qual falante e ouvinte se 
encontram; no qual eles podem levantar reciprocamente a pretensão de 
que suas expressões linguísticas estão de acordo com o mundo (o mundo 
objetivo, o social ou o subjetivo);8 e no qual eles criticam ou fundamen-
tam essas pretensões de validade\u201d (TKH II 192, itálico meu \u2013 A. P.). Ele é 
um lugar transcendental na medida em que há uma relação interna entre 
estruturas do mundo da vida e estruturas da cosmovisão linguística de um 
grupo social; seus elementos constitutivos são a linguagem e a cultura, 
que não são simples \u201cobjetos\u201d no mundo, mas possuem \u201cum papel de um 
certo modo transcendental\u201d (TKH II 190), já que permitem os processos 
comunicativos em geral.9
O mundo da vida é constituído por três componentes estruturais: 
cultura, sociedade e pessoa (aqui Habermas retoma a já mencionada tripar-
tição de Parsons). A eles correspondem três processos, a saber: reprodução 
cultural, integração social e socialização. A esses processos correspondem, 
por sua vez, três funções do agir comunicativo: \u201cDo ponto de vista funcio-
nal do entendimento, o agir comunicativo serve à tradição e à renovação 
do saber cultural; do ponto de vista da coordenação do agir, ele serve à 
integração social e à criação de solidariedade; do ponto de vista da socia-
lização, finalmente, o agir comunicativo serve à formação de identidades 
pessoais. As estruturas simbólicas do mundo da vida se reproduzem por 
meio da continuação do saber válido, da estabilização da solidariedade de 
grupo e da formação de atores capazes de responder por suas ações\u201d. À luz 
dessa tripla intervenção do agir comunicativo, a cultura é definida como 
o \u201cacervo de saber do qual os participantes da comunicação se abastecem 
de interpretações\u201d, a sociedade é definida como \u201cos ordenamentos legíti-
mos por meio dos quais os participantes da comunicação regulamentam 
sua pertença a grupos sociais e, assim, asseguram solidariedade\u201d, e a 
personalidade é definida como \u201cas competências que tornam um sujeito 
capaz de agir e falar\u201d (TKH II 208 s.). Aos três componentes estruturais do 
mundo da vida correspondem diversos fenômenos de crise que resultam 
de distúrbios respectivamente nos âmbitos da reprodução cultural (perda 
de sentido), da integração social (anomia) e da socialização (psicopatolo-
gias) (TKH II 216).
Habermas admoesta a não identificar mundo da vida e sociedade. Esse 
seria o típico erro de uma \u201csociologia interpretativa\u201d nas suas variantes 
fenomenológica, linguística e etnometodológica (TKH II 223). Por outro 
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lado, o mundo da vida não pode ser entendido a partir da perspectiva do 
observador, típica de uma teoria social sistêmica, já que esta última concebe 
os componentes estruturais do mundo da vida como meros sistemas parciais 
que formam cada um o ambiente do outro (sobre a relação entre sistema 
e ambiente, ver IV.2). Habermas quer, pelo contrário, fazer justiça a ambas 
as perspectivas (a do observador neutro e a do participante) (TKH II 229) 
e chega, assim, a uma concepção na qual a sociedade é concebida como 
os \u201ccontextos de ação estabilizados sistemicamente de grupos integrados 
socialmente\u201d (TKH II 301).
Diferentemente da concepção de evolução social utilizada em Para a 
reconstrução do materialismo histórico, ele define aqui evolução social como 
\u201cum processo de diferenciação de segunda ordem: sistema e mundo da vida 
se diferenciam, ao aumentar a complexidade do primeiro e a racionalidade 
do outro, não somente respectivamente como sistema e mundo da vida 
\u2013 ao mesmo tempo, ambos se diferenciam um do outro\u201d. Nas modernas 
sociedades altamente diferenciadas a disjunção entre sistema e mundo 
da vida acontece de maneira tal que este último acaba sendo \u201cdegradado 
cada vez mais a um subsistema entre outros\u201d, enquanto ao mesmo tempo 
os mecanismos sistêmicos se desligam cada vez mais das estruturas sociais 
por meio das quais se dá a integração social. Esses mecanismos sistêmicos 
controlam subsistemas que são amplamente desligados de normas e va-
lores e são organizados segundo uma racionalidade teleológica. Trata-se 
dos subsistemas da economia e da burocracia que, já no diagnóstico de 
Weber, se tinham tornado independentes \u201cdos seus fundamentos prático-
morais\u201d (TKH II 230).
Habermas reconstrói o processo da diferenciação sistêmica nas socie-
dades tribais e nas de classe para mostrar que cada novo mecanismo dela 
está ancorado no mundo da vida e precisa ser institucionalizado. Um papel 
central neste último aspecto