Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
197 pág.

Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


DisciplinaPsiquiatria I1.971 materiais11.358 seguidores
Pré-visualização50 páginas
é desempenhado pela moral e pelo direito, 
que são especializados \u201cem conter os conflitos abertos de maneira que o 
fundamento do agir orientado pelo entendimento e, com ele, a integração 
social do mundo da vida não desmoronem\u201d. Eles garantem um consenso 
ao qual \u201cse pode recorrer quando os mecanismos de entendimento no 
contexto da comunicação cotidiana regrada por normas fracassam [...] e 
se torna atual a alternativa de uma confrontação violenta\u201d (TKH II 259). 
Aqui, Habermas retoma a teoria kohlbergiana da passagem da moral con-
vencional à pós-convencional, para mostrar que a diferenciação sistêmica 
coincide com a racionalização do mundo da vida. A renúncia à orientação 
por valores tradicionais pode ser vista como um processo de racionalização 
por meio do qual o agir comunicativo se distancia de padrões de com-
portamento transmitidos, fazendo com que a integração social aconteça 
já não por meio de um consenso com base religiosa, mas por intermédio 
de processos linguísticos de formação de consenso. Tal processo faz com 
109 Habermas
que \u201capareçam de forma cada vez mais pura as estruturas gerais do agir 
orientado pelo entendimento\u201d; por outro lado, porém, essa emancipação 
do agir comunicativo significa, ao mesmo tempo, a cisão de agir orientado 
pelo entendimento e de agir teleológico. \u201cNessa polarização se reflete a 
disjunção entre sistema e integração social\u201d (TKH II 268 s.). O resultado 
não é simplesmente a independência dos subsistemas sociais do mundo 
da vida, mas uma tecnificação deste último (esta expressão deriva de 
Luhmann). Meios como dinheiro e poder, por meio dos quais esses subsis-
temas se diferenciam, substituem a comunicação como meio de controle, 
fazendo com que o próprio mundo da vida \u201cnão seja mais necessário para 
a coordenação de ações\u201d (TKH II 273; cf. também 455).10 Os subsistemas 
da economia e da administração empreendem assim, por meio dos seus 
respectivos meios dinheiro e poder, uma \u201ccolonização\u201d do mundo da vida: 
\u201cos imperativos dos subsistemas tornado-se independentes [...], penetram 
de fora no mundo da vida \u2013 como senhores coloniais em uma sociedade 
tribal \u2013 e impõem a assimilação\u201d (TKH II 522).
Habermas recorre, mais uma vez, a Weber, Lukács, Adorno e Horkhei-
mer: Se, com Weber, \u201cse vê os subsistemas do agir racional teleológico 
coagularem-se irresistivelmente em uma caixa de aço, só há um passo da 
teoria lukacsiana da reificação à crítica da razão instrumental, isto é, à 
visão de um mundo administrado, totalmente reificado, no qual racionali-
dade teleológica e dominação se fundem\u201d (TKH II 490). O fato de Adorno 
e Horkheimer confundirem a razão teleológica e a razão instrumental, a 
racionalidade do agir e a do sistema, lhes impede de reconhecer a raciona-
lidade comunicativa de um mundo da vida que se formou em consequência 
do processo de racionalização. Somente essa racionalidade comunicativa 
permite, porém, uma resistência eficaz contra a colonização do mundo da 
vida por parte dos subsistemas.
Essa colonização se mostra também na difícil relação entre capitalismo 
e democracia. Entre eles há \u201cuma relação de tensão insolúvel\u201d, já que os dois 
se baseiam em princípios opostos de integração social (a saber: integração 
sistêmica ou social). A tensão entre os dois padrões de integração se torna 
clara também na esfera pública política, \u201cna qual a autonomia do mundo 
da vida deve afirmar-se frente ao sistema de ação administrativa\u201d (TKH II 
507 ss.). Por isso, Habermas pensa que \u201ca substituição da integração social 
pela sistêmica toma a forma de processos de juridificação\u201d. Com esse termo 
ele indica o processo pelo qual o direito se estende sobre âmbitos sociais 
cada vez mais novos, que até o momento eram regulados de maneira infor-
mal, e penetra neles sempre mais profundamente. Como exemplos, nosso 
autor cita o direito familiar ou escolar e reconstrói, servindo-se deles, a 
passagem do Estado burguês ao Estado social, distinguindo quatro estágios 
de juridificação: Estado burguês, Estado de direito, Estado democrático de 
direito e Estado social e democrático de direito (TKH II 524 ss.).
110 Alessandro Pinzani
Depois de uma homenagem à Teoria Crítica de Adorno, Horkheimer e 
Marcuse, cuja importância para a própria teoria Habermas reconhece, o livro 
termina com algumas observações sobre a relação da teoria do agir comu-
nicativo com a filosofia, da qual se espera que renuncie às suas pretensões 
\u201cfundamentalistas\u201d e coopere com as ciências: \u201cEnquanto ela contribui com 
uma teoria da racionalidade, ela está em uma relação de divisão do trabalho 
com as ciências que procedem reconstrutivamente, que partem do saber 
pré-teórico de sujeitos que falam, agem e julgam com competência, e que 
partem também de sistemas de saber coletivos transmitidos pela tradição, 
a fim de entender os fundamentos da racionalidade da experiência e do 
juízo, do agir e do entendimento linguístico\u201d (TKH II 587).
Habermas aponta mais uma vez para a pluralidade dos motivos que o 
moveram a criar esse \u201cmonstro\u201d (NU 178) e salienta que sua teoria do agir 
comunicativo quer ser também uma teoria da modernidade. Essa temática 
o ocupará também nos anos sucessivos.
NOtAs
 1. Incrivelmente (se considerarmos o grande interesse despertado pelo pensamento 
de Habermas no Brasil) ainda não foi publicada uma tradução portuguesa desta 
obra-prima. As citações foram traduzidas do original alemão, mas consultei também 
a tradução espanhola em dois volumes: HABERMAS, Jürgen. Teoría de la acción 
comunicativa. Trad. de M. Jiménez Redondo. Madrid: Taurus, 1987.
 2. TOULMIN, Stephen. The Uses of Argument. Cambridge: Cambridge University Press, 
1958 (trad. port.: Os usos do argumento. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 
2006).
 3. GOFFMAN, Erving. The Presentation of Self in Everyday Life. Garden City (NY): Dou-
bleday, 1959 (trad. port.: A representação do Eu na vida cotidiana. 13ª edição. Nova 
Petrópolis: Vozes, 2006).
 4. A sociedade é vista por Parsons \u201cem primeiro lugar como um sistema em um ambiente 
circunstante, que pode alcançar e manter pela duração da sua existência autarquia ou 
independência por meio da capacidade de reger-se por si mesma\u201d. Ela é concebida, em 
segundo lugar, como um sistema de ação determinado por meio da linguagem e da 
cultura. Cada sistema de ação é entendido como \u201cuma zona de interação e compene-
tração recíproca de quatro subsistemas\u201d, a saber, cultura, sociedade, personalidade e 
organismo. Cada subsistema é \u201cespecializado numa função fundamental da reprodução 
social\u201d (respectivamente: manutenção da estrutura, integração, consecução de fins e 
adaptação). Eles possuem uma relativa independência, mas pertencem a um sistema 
de ação comum e mantêm relações de troca uns com os outros (TKH II 357 ss.).
 5. WEBER, Max. Wirtschaft und Gesellschaft. Köln: Kiepenheuer & Witsch, 1964, 1 ss.
 6. McCARTHY, Thomas. The Critical Theory of Jürgen Habermas. Cambridge (MA): MIT 
Press, 1978, 171 s.
 7. Habermas tinha constatado essa impossibilidade já na sua crítica da antropologia 
filosófica, ao afirmar que o próprio ser humano atribui à sua essência um sentido 
111 Habermas
diferente nas diferentes condições históricas (cf. II.3). Ulteriores reflexões sobre esse 
tema podem ser encontradas em CMAC 37 ss. Sobre a estreita relação de autorreflexão 
teórica e emancipação cf. as considerações feitas por Habermas acerca da psicanálise 
freudiana em Conhecimento e interesse (cf. IV.1).
 8. Habermas se refere aqui à teoria dos três mundos (cf. VI.2).
 9. A partir de Kant o termo \u201ctranscendental\u201d se refere a tudo o que tem a ver com as 
condições que tornam possível algo (p. ex., o conhecimento).
 10. Habermas estabelece uma relação entre a \u201cmediatização do mundo da vida\u201d e a 
teoria da reificação de Lukács (TKH II 278 s.).
a controvérSia com oS PóS-modernoS
Os anos de 1980 são considerados