Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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geralmente como os anos do triunfo 
do neoliberalismo e do rápido declínio do comunismo, que alcançou seu mo-
mento mais dramático em 1989 com a queda do muro de Berlim. Na Alema-
nha, em 1982 a coalizão de governo formada pelo Partido Social Democrata 
e pelo Partido Liberal chega a um fim e começa a \u201cera Kohl\u201d, que durará até 
1998. Na Grã-Bretanha e nos EUA a primeira ministra Margaret Thatcher e 
o presidente Ronald Reagan inauguram uma agressiva política neoliberal ca-
racterizada pela desregulamentação, pelas privatizações e por um acentuado 
retrocesso do Estado social. A chamada reaganomics marca o início de um 
longo período de economia de mercado praticamente incontrolada, contra 
a qual o modelo alemão de uma economia social de mercado não consegue 
afirmar-se: começa a lenta demolição do Estado social alemão. Ao triunfo 
político e político-econômico do neoliberalismo correspondem o retrocesso 
das ideologias esquerdistas e a emersão de posições neoconservadoras, 
conquanto na Alemanha isso aconteça ainda de forma tímida. Habermas 
observa esses fenômenos (em particular o avanço do neoconservadorismo 
na Alemanha) com preocupação crescente. Sua reação é política e filosófica 
ao mesmo tempo: ele toma posição sobre questões importantes da política 
alemã, luta com veemência contra o surgimento de tendências revisionistas 
na historiografia (sobre estes dois aspetos, ver Cap. 10 \u2013 \u201cO debate sobre 
a nova Alemanha e o futuro da Europa\u201d.) e se confronta com os críticos do 
\u201cprojeto inacabado da modernidade\u201d, principalmente com os chamados pós-
modernos. À atitude anti-iluminista desses críticos ele contrapõe a ideia de 
que o Esclarecimento pode eliminar seus déficits somente por meio de um 
esclarecimento ainda mais radical (cf. PDM 104 s.).
7
113 Habermas
O PROJEtO iNACABADO DA mODERNiDADE
Ao receber o prêmio Adorno da cidade de Frankfurt em 11 de setem-
bro de 1989, Habermas pronunciou um discurso que em seguida confluiu 
no ensaio \u201cA modernidade \u2013 um projeto inacabado\u201d (KPS 444 ss.). Nele 
Habermas se ocupava da questão se a modernidade seria \u201ctão passé\u201d como 
afirmam os pós-modernos (KPS 444). Em primeiro lugar, diz Habermas, 
deveria ser esclarecido o que se entende exatamente por \u201cmoderno\u201d ou 
\u201cmodernidade\u201d. Esta última palavra parece expressar a consciência de uma 
época \u201cque se põe em relação ao passado da Antiguidade a fim de conceber 
a si mesma como resultado de uma passagem do antigo para o novo\u201d. Mas 
é somente com o Iluminismo francês e sua crença em um progresso infinito 
(quer do conhecimento, quer em direção ao melhoramento social e moral) 
que há uma libertação do \u201cfeitiço que as obras clássicas do mundo antigo 
tinham exercido sobre o espírito daquele que cada vez mais era chamado 
de moderno\u201d. Doravante, moderno é considerado o novo que rompe com 
a tradição (KPS 445 s.). A modernidade é caracterizada justamente por 
esse espírito de uma ruptura irreparável com a tradição, que a distingue 
das \u201cmodernidades\u201d que a precederam.
Habermas retoma a caracterização da modernidade cultural feita por 
Weber e que ele já tinha utilizado na Teoria do agir comunicativo (cf. Cap. 
6 \u2013 \u201cOs capítulos de reconstrução históricos de Weber a Parsons\u201d.). Após 
o declínio das cosmovisões metafísicas e religiosas, diferenciam-se três 
esferas: ciência, moral e arte. A essa diferenciação corresponde uma insti-
tucionalização das respectivas esferas: discursos científicos, investigações 
de teoria da moral e do direito, produção e crítica artística são instituciona-
lizadas, tornando-se matérias para especialistas. \u201cA partir desse momento, 
há uma história interna das ciências, da teoria moral e do direito, da arte 
[...]. Por outro lado, cresce a distância entre as culturas dos especialistas 
e o público geral\u201d (KPS 453). Essa distância se observa principalmente na 
arte,1 mas perpassa todos os aspectos da modernidade cultural. Isso leva 
críticos conservadores da modernidade a reconduzir \u201cos fenômenos de crise 
presentes nas sociedades desenvolvidas do Ocidente a uma ruptura entre 
cultura e sociedade, entre a modernidade cultural e as exigências do siste-
ma econômico e do administrativo\u201d (KPS 449). Habermas cita com apreço 
Peter Steinfels, que se refere, é verdade, à situação norte-americana, mas 
cujas observações podem ser aplicadas também à Europa e à Alemanha (e 
são ainda extremamente atuais depois de 25 anos): \u201cA confrontação toma 
a forma seguinte: tudo que pode ser entendido como expressão de uma 
114 Alessandro Pinzani
mentalidade de oposição é apresentado de maneira a poder ser ligado nas 
suas consequências com uma ou outra forma de extremismo. Por exemplo, 
estabelece-se uma relação entre modernidade e niilismo, entre programas 
de bem-estar social e saques, entre intervenções estatais e totalitarismo, 
entre a crítica aos gastos com o armamento e a cumplicidade com o co-
munismo, entre o feminismo e a luta pelos direitos dos homossexuais, por 
um lado, e a destruição da família, por outro lado, entre a esquerda em 
geral e terrorismo, antissemitismo ou até fascismo\u201d (Steinfels apud KPS 
50). Esse tipo de conservadorismo atribui as consequências indesejáveis de 
\u201cuma modernização capitalista da economia e da sociedade mais ou menos 
bem-sucedida à modernidade cultural\u201d. Em vez de revelar as causas sócio-
estruturais dos efeitos negativos dessa modernização, ele os reconduz a um 
hedonismo, a uma falta de disponibilidade a integrar-se, a um narcisismo 
que ele atribui diretamente à cultura da modernidade (KPS 450 s.).
Habermas estabelece, portanto, uma relação direta entre uma certa 
atitude crítica perante a modernidade cultural e o conservadorismo político. 
Por isso, designa como conservadores também pensadores que são consi-
derados antes como críticos da autoridade e da tradição, como Foucault 
e Derrida (e isto, obviamente, levou a inflamadas polêmicas). Ao fazer 
isso, Habermas utiliza uma tipologia do conservadorismo que o simplifica 
bastante, como ele próprio reconhece: Ele distingue \u201co antimodernismo 
dos \u2018jovens\u2019 conservadores do pré-modernismo do \u2018velhos\u2019 conservadores 
e o pós-modernismo dos neoconservadores\u201d. Os \u2018jovens\u2019 conservadores 
fundamentam seu \u201cirreconciliável antimodernismo com uma atitude mo-
dernista\u201d, ao relegarem \u201cno que está longe e é arcaico as forças espontâneas 
da imaginação, da experiência de si e da afetividade\u201d e ao contraporem à 
razão instrumental um princípio que pode ser alcançado somente de forma 
evocativa: a vontade de potência de Nietzsche ou a soberania de Bataille, o 
Ser de Heidegger ou \u201cuma força dionisíaca do poético\u201d. Deveriam ser con-
siderados \u2018jovens\u2019 conservadores, então, aqueles pensadores que navegam 
na esteira dos filósofos anteriormente mencionados (mas principalmente 
na de Nietzsche) \u2013 entre eles também Foucault e Derrida. \u201cOs \u2018velhos\u2019 
conservadores não se deixam minimamente contagiar pela modernidade 
cultural\u201d e sugerem \u201cum retorno a posições anteriores à modernidade\u201d. 
Habermas menciona o neo-aristotelismo, Leo Strauss, Hans Jonas e Robert 
Spaemann. Os neoconservadores veem com bons olhos algumas conquistas 
da modernidade, principalmente o desenvolvimento da ciência na medida 
em que ele leva adiante \u201co progresso técnico, o crescimento capitalista e uma 
administração racional\u201d; de resto, porém, querem desativar os conteúdos 
explosivos da modernidade cultural\u201d. Portanto, eles acham que \u201ca política 
deveria ser mantida livre das exigências de uma justificação prático-moral\u201d 
e negam o potencial utópico da arte. Habermas menciona nesse contexto \u201co 
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primeiro Wittgenstein, o Carl Schmitt da sua fase intermédia e o Gottfried 
Benn tardio\u201d (KPS 463 s.). Diferentemente dos conservadores de qualquer 
tipo, Habermas pensa que nós \u201cdeveríamos aprender antes dos deslizes 
que acompanharam o projeto da modernidade, dos erros dos quiméricos 
processos de superação,