Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


DisciplinaPsiquiatria I1.975 materiais11.368 seguidores
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pois, são 
interpretadas \u201cà luz de valores culturais\u201d e estes são \u201cparte integrante de 
uma tradição partilhada intersubjetivamente\u201d; portanto, a revisão desses 
valores não pode ser algo que os indivíduos levam a cabo monologicamente 
(CMAC 88 [MBKH 77 s.]). A introdução do conceito de interesse é pro-
blemática, uma vez que não se trata de um conceito neutro, isto é, não se 
trata de um conceito cujo sentido e estatuto normativo sejam inequívocos. 
Se Habermas não quer defender uma concepção contratualista da ética 
(como David Gauthier, p. ex.) e não quer tornar a legitimidade de normas 
dependente do egoísmo dos indivíduos, em última análise, ele é obrigado 
a recorrer à ideia de um interesse bem-entendido ou reflexivo. Nem todo 
interesse vale, portanto, mas somente interesses que superem um exame 
mais acurado: daí a importância do confronto concreto com os outros e 
com a crítica que estes outros podem levantar contra nossas preferências 
ou nossa visão do interesse geral. Isso está no centro, também, da ideia 
de que as necessidades e cosmovisões individuais (que se expressam nos 
interesses) devem ser interpretadas à luz de valores culturais que possam, 
por sua vez, ser revistos. Desta maneira, a ética do discurso se abre para 
a dimensão de uma interpretação hermenêutica de contextos culturais 
que deveria permitir aos indivíduos lidar melhor com a interpretação dos 
próprios interesses e com eventuais conflitos de interesses. Surge assim 
a questão ulterior da medida em que uma situação concreta de discurso 
possa corresponder ao modelo do discurso ideal (ver Cap. 8 \u2013 \u201cDiscurso 
de fundamentação e discurso de aplicação\u201d.).
De qualquer maneira, Habermas resume sua argumentação da seguinte 
forma: \u201cUma ética do discurso sustenta-se ou cai por terra, portanto, com 
as duas suposições seguintes:
a) que as pretensões de validade normativas tenham um sentido 
cognitivo e possam ser tratadas como [no sentido de: \u201cem analogia 
com\u201d, não: \u201cna qualidade de\u201d! \u2013 A. P.] pretensões de verdade;
b) que a fundamentação de normas e mandamentos exija a efetuação 
de um discurso real e não seja possível monologicamente, sob a 
forma de uma argumentação hipotética desenvolvida em pensa-
mento\u201d (CMAC 88 s. [MBKH 78]).
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Contudo, (U) ainda não foi fundamentado. Habermas aponta, aqui, 
para a dificuldade de oferecer uma fundamentação última e lembra que 
os teóricos contemporâneos da moral se limitam antes à reconstrução 
do saber moral pré-teórico (CMAC 99 s. [MBKH 89 s.]). Em outras pala-
vras, eles tentam trazer à luz e teorizar os fundamentos morais sobre os 
quais se baseia nosso saber moral comum. Isso, contudo, não elimina as 
dificuldades da fundamentação de normas éticas, como salientam alguns 
céticos. Habermas menciona, a esse respeito, o trilema de Münchhausen 
de Hans Albert, segundo o qual toda tentativa de fundamentação dedutiva 
de princípios morais universalmente válidos (isto é, qualquer tentativa de 
deduzir uma norma de uma outra superior ou mais originária) tem que 
escolher entre três alternativas igualmente inaceitáveis, a saber: \u201cou admitir 
um regresso infinito [porque não pode ser encontrada nenhuma norma da 
qual todas as outras se deixem deduzir \u2013 A. P.], ou romper arbitrariamente 
a cadeia da derivação ou, finalmente, proceder em círculos\u201d (CMAC 101 
[MBKH 90]).3 De fato, o trilema se dá se entendermos a fundamentação 
em sentido estritamente semântico, isto é, se ela se orientar \u201cpela relação 
dedutiva entre proposições\u201d e se apoiar \u201cunicamente no conceito da infe-
rência lógica\u201d (ibid.). Mas Karl-Otto Apel introduz contra Albert a ideia 
de uma fundamentação não dedutiva e transcendental das normas éticas 
fundamentais que se serve de meios pragmático-linguísticos e utiliza o 
conceito da contradição performativa.
O argumento de Apel é o seguinte: O proponente afirma a validade 
universal de (U). Seu oponente recorre ao trilema de Münchhausen e diz 
que qualquer tentativa de fundamentar a validade universal de (U) não 
faz sentido. Contudo, ao entrar nessa argumentação, o oponente tem de 
compartilhar determinadas pressuposições \u2013 p. ex., regras lógicas \u2013 que ele 
tem de reconhecer como válidas; desta maneira, ele é obrigado a renunciar 
à sua posição, se não quiser incorrer em uma contradição performativa, 
isto é, uma contradição que se cria entre a assunção de uma determinada 
posição teórica (neste caso, a do falibilismo crítico) e uma determinada 
ação linguística (neste caso, aquela ligada à participação em uma argu-
mentação). O falibilista crítico que negue a existência de princípios uni-
versalmente válidos faz isso com base em tais princípios. Quem participa 
de uma argumentação reconhece com isso determinadas regras que ficam 
imunes a qualquer crítica (falibilista) por serem os pressupostos de toda 
argumentação. A ideia de uma fundamentação transcendental-pragmática 
dos princípios morais é a de que tais princípios podem ser derivados do 
conteúdo proposicional dessas pressuposições (CMAC 104 [MBKH 93]). A 
fundamentação em questão é transcendental-pragmática porque se apoia 
em pressuposições de pragmática linguística: ela diz respeito às condições 
que possibilitam a argumentação (nisso consiste seu caráter transcenden-
tal). A estratégia de Apel consiste em mostrar que cada sujeito capaz de 
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falar e de agir que entra em uma argumentação qualquer tem de aceitar 
pressuposições com conteúdo normativo e, com isso, reconhecer implici-
tamente a validade de determinados princípios normativos (CMAC 107 
[MBKH 95]). Até o cético que não queira entrar em uma argumentação 
moral reconhece tais princípios, uma vez que a sua crítica é concebida, de 
forma geral, em termos argumentativos.
Habermas não compartilha completamente essa posição de Apel. Ele 
pensa que as normas éticas fundamentais não podem ser derivadas dire-
tamente das pressuposições da argumentação (CMAC 109 [MBKH 96]). 
Normas éticas fundamentais não estão na competência da teoria moral, mas 
se deixam fundamentar em discursos práticos influenciados pelas circuns-
tâncias históricas. Contudo, estes últimos seguem regras argumentativas 
que, por sua vez, são fundamentáveis do ponto de vista transcendental-
pragmático e, portanto, permanecem invariáveis. É preciso, então, mostrar 
que as pressuposições da argumentação implicam tão-somente o princípio 
de universalização; e isso acontece se for mostrado que todo aquele que 
entrar em uma argumentação reconhece implicitamente a validade deste 
princípio. Habermas recorre, aqui, ao catálogo de pressuposições da argu-
mentação elaborado pelo jurista Robert Alexy, o qual define tais pressupo-
sições em diferentes níveis.4 No nível lógico-semântico são pressupostas as 
seguintes regras, que não possuem conteúdo ético:
\u201c 1.1. A nenhum falante é lícito contradizer-se.
 1.2. Todo falante que aplicar um predicado F a um objeto a tem de 
estar disposto a aplicar F a qualquer outro objeto que se asse-
melhe a a sob todos os aspectos relevantes.
 1.3. Não é lícito aos diferentes falantes usar a mesma expressão em 
sentidos diferentes\u201d (CMAC 110 [MBKH 97]).
Do ponto de vista procedimental, a argumentação é concebida como 
processo de entendimento. Nesse nível vigem as seguintes regras que pos-
suem, em parte, um conteúdo ético:
 \u201c2.1. A todo falante só é lícito afirmar aquilo em que ele próprio acre-
dita.
 2.2. Quem atacar um enunciado ou uma norma que não for objeto 
da discussão tem de indicar uma razão para isso\u201d (CMAC 111 
[MBKH 98]).
No que diz respeito aos aspectos processuais, uma argumentação é 
vista como um processo comunicativo que visa um consenso racionalmente 
motivado e está imunizada contra coação e desigualdade. As regras corres-
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pondentes (relativos às determinações da situação ideal de fala) possuem 
caráter inequivocamente ético: