Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


DisciplinaPsiquiatria I1.975 materiais11.368 seguidores
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mas um princípio 
que exige a promoção do bem-estar dos outros enquanto companheiros 
\u201cem uma forma de vida intersubjetivamente compartilhada\u201d, isto é, a pro-
moção do bem-estar da própria forma de vida e a proteção das relações 
intersubjetivas; tal princípio não exige, porém, a promoção (nem mesmo 
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a consideração) do bem-estar dos outros enquanto tais. A proteção da 
integridade da forma de vida leva, então, à proteção da integridade de 
sujeitos morais; nesse sentido, solidariedade 1 tem a ver com a moralidade 
e não somente com a eticidade; por outro lado, trata-se de um interesse 
indireto pelo bem-estar dos outros: o que conta é, sobretudo, a manutenção 
de uma rede social íntegra.
DisCURsOs DE FUNDAmENtAçãO E DisCURsOs DE APliCAçãO
Discursos práticos reais possuem limitações de pelo menos três tipos: 
Em primeiro lugar, estão ligados a formas menos rígidas de argumentação 
do que os discursos teoréticos; em segundo lugar, não podem ser liberados 
completamente da pressão dos conflitos sociais; em terceiro lugar, são 
\u201cilhas ameaçadas de se verem submersas pelas ondas no oceano de uma 
prática em que o modelo da solução consensual dos conflitos da ação não 
é de modo algum dominante\u201d (CMAC 128 [MBKH 116]). Além disso, nos 
discursos práticos reais há uma tripla escassez e, precisamente: de saber 
(particularmente em relação ao futuro, isto é, às possíveis consequências 
da aplicação de uma norma \u2013 um elemento, este, que deveria desempenhar 
o papel decisivo em um discurso), de tempo (isso implica não somente que 
o discurso é sempre interrompido prematuramente, mas também que os 
temas são escolhidos sob a pressão da falta de tempo) e de disponibilidade 
a participar por parte dos concernidos. A isso se acrescentam outros as-
petos que o próprio Habermas enumera, mas que têm a ver antes com as 
atitudes e capacidades individuais: limitada disponibilidade de tempo indi-
vidualmente, atenção episódica para temas que têm uma história peculiar, 
limitadas capacidades cognitivas de elaboração, distribuição desigual da 
atenção, das competências e do saber, egocentrismo, fraqueza da vontade, 
irracionalidade, autoengano, atitude oportunista, paixões, preconceitos, etc. 
(DD II 53 s. [FG 395 s.]). Last but not least: A ancoragem em um entorno 
ético parece dificultar fortemente (quando não excluir) a possibilidade de 
uma fundamentação racional geral de normas. O princípio moral \u201cexclui 
do discurso moral inclinações, paixões e interesses particulares, modos de 
vida culturalmente determinados, critérios valorativos éticos e máximas da 
vida boa\u201d.7 Mas nos encontramos sempre e inevitavelmente em um deter-
minado mundo da vida do qual tais elementos éticos e culturais são parte. 
Até o princípio moral pode ser utilizado somente dentro de determinadas 
formas de vida, como vimos.
Para superar tais dificuldades, Klaus Günther propôs distinguir entre 
discursos de fundamentação de normas e discursos de aplicação de normas. 
Tarefa dos primeiros é decidir sobre a validade de normas; os segundos, 
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pelo contrário, devem decidir sobre o fato de elas serem adequadas em 
relação à situação na qual deveriam ser aplicadas e sobre outras normas 
alternativas. Ambos os tipos de discurso se orientam pelo critério da im-
parcialidade: no caso de discursos de fundamentação, trata-se de uma 
imparcialidade \u201cuniversal-recíproca\u201d; no caso de discursos de aplicação, 
de uma imparcialidade em sentido \u201caplicativo\u201d. A imparcialidade de dis-
cursos de fundamentação consiste no fato de que as normas em questão 
devem encontrar o consenso de todos os concernidos com base em uma 
argumentação. No caso dos discursos de aplicação, fala-se em imparciali-
dade quando, ao se decidir se uma norma é adequada em relação a uma 
certa situação e em relação a outras normas, foram consideradas todas as 
características relevantes da situação e todas as possíveis normas alternati-
vas. Os discursos de fundamentação são independentes dos de aplicação e, 
precisamente, por duas razões: Por um lado, os participantes do discurso 
possuem um saber limitado sobre as possíveis situações de aplicação; por 
outro lado, no curso do tempo ocorrem mudanças seja no saber, seja nos 
interesses dos concernidos. O resultado de discursos de fundamentação 
podem ser, portanto, somente normas prima facie, isto é, normas que são 
válidas somente se não mudarem as circunstâncias nas quais foram funda-
mentadas.8 Elas permanecem, portanto, sob uma cláusula \u201cceteris paribus\u201d 
(Günther) ou \u201crebus sic stantibus\u201d (Habermas). Ao mudarem as circuns-
tâncias, as normas podem perder sua validade em relação à nova situação 
que se criou (mas não sua validade em geral). Segundo Habermas, (U) 
pode servir somente para \u201cfundamentar expectativas de comportamento 
ou modos de ação generalizados, isto é, normas que fundamentam uma 
práxis geral\u201d (ED 137).
Por isso, Günther propõe uma formulação mais fraca do princípio mo-
ral, segundo a qual \u201cna fundamentação de normas devem ser consideradas 
as consequências e os efeitos colaterais que, na base das informações e das 
razões disponíveis em um certo momento, resultam previsivelmente para os 
concernidos de uma obediência geral a elas\u201d (Günther apud ED 139). Desta 
maneira, \u201cos participantes da argumentação são dispensados de considerar, 
já na fundamentação de normas, o conjunto de todas as situações futuras, 
não previsíveis\u201d (ibid.). Um conflito entre normas se dá, portanto, somente 
no nível da aplicação e, precisamente, quando duas ou mais normas, cada 
uma aplicada por si, levam a resultados incompatíveis entre si. Mas não é 
possível nem necessário considerar a eventualidade de tais conflitos já na 
fundamentação de normas (cf. DD I 271 s. [FG 267]).
A diferenciação entre fundamentação e aplicação de normas implica 
a introdução de um princípio que desempenha nos discursos de aplicação 
um papel análogo àquele de (U) nos discursos de fundamentação: trata-se 
do princípio de adequação. Ele exige que na avaliação de uma norma sejam 
consideradas todas as características relevantes da situação de aplicação 
135 Habermas
e todas as outras normas aplicáveis em tal situação. Uma norma deve ser 
adequada quer em relação à situação de aplicação, quer em relação às 
normas alternativas.9 Isso remete à dimensão histórica da nossa posição 
quando discutimos sobre a aplicação de normas. O ponto de vista moral que 
devemos assumir na fundamentação de normas permanece sempre idêntico 
(isto é o pressuposto de qualquer ética deontológica, inclusive da ética do 
discurso); mas \u201cnem nosso entendimento dessa intuição fundamental, nem 
as interpretações que oferecemos de regras moralmente válidas [aplicá-
las] em casos imprevistos\u201d são imutáveis (ED 142). Isso permite atenuar 
não somente a tensão entre fundamentação e aplicação de normas, mas 
também entre moralidade e eticidade.10
NOtAs
 1. \u201cA razão é calculadora. Ela pode avaliar verdades de fato e relações matemáticas e 
nada mais. No âmbito da prática, só pode falar de meios. Sobre os fins, ela tem de 
calar-se\u201d (MacIntyre apud CMAC 62 [MBKH 53]).
 2. Substituo nesta e em outras citações o termo \u201cvalidade\u201d por \u201cvalidade\u201d, por razões 
de homogeneidade com os capítulos anteriores.
 3. O nome do trilema se refere à história na qual o célebre e fanfarrão barão de Mün-
chhausen conta ter-se salvado das areias movediças puxando-se pelo seu próprio 
rabicho.
 4. ALEXY, Robert. Theorie der juristischen Argumentation. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 
1978 (trad. port.: Teoria da argumentação jurídica. São Paulo: Landy, 2001).
 5. Isso leva Habermas a recorrer mais uma vez ao modelo de evolução da consciência 
moral de Kohlberg (CMAC 143 ss. [MBKH 127 ss.]).
 6. BUBNER, Rüdiger. Rationalität, Lebensform und Geschichte. In: SCHNÄDELBACH, H. 
(Hg.), Rationalität. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1984, 198\u2013217