Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)
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Habermas Pinzani, Alessandro (2009, Artmed)


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a mencionada 
alternativa entre quebra da comunicação e agir estratégico. Uma saída 
desse dilema é oferecida justamente pelo direito.
Segundo Habermas, ao direito cabe, portanto, uma tríplice função. 
Ele é, em primeiro lugar, um espaço de mediação entre facticidade e vali-
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dade, assim como foram definidas anteriormente. Em segundo lugar, ele 
é o meio da integração social que é ameaçada pelo processo de moderni-
zação e que pode acontecer somente pela mediação entre mundo da vida 
e sistemas parciais. Finalmente, ele é o meio de uma integração social que 
já não pode ser alcançada por forças morais. Deste último ponto de vista, 
o direito complementa ou até substitui a moral. Um papel central é desem-
penhado nisso pela solidariedade. Não se trata, contudo, da solidariedade 
analisada precedentemente e que resulta da fragilidade humana (Cap. 
8 \u2013 \u201cMoralidade e eticidade\u201d.), mas de um conceito sócio-teórico que não 
possui um conteúdo normativo imediato e que, por simplicidade, chamarei 
de solidariedade 2. Habermas não a define diretamente, mas é possível 
elaborar uma definição a partir de vários passos do texto.
A solidariedade 2 é um consenso de fundo prévio relativo a valores 
compartilhados intersubjetivamente pelos quais os atores se orientam. Ela 
nasce em um contexto ético de hábitos, lealdades e confiança recíproca, com 
base no qual podem ser solucionados os conflitos que surgem em contextos 
de interação. Habermas fala em \u201cestruturas pretensiosas de reconhecimento 
recíproco, as quais descobrimos nas condições de vida concreta\u201d (DD I 107 
[FG 103]). Como força de integração social, a solidariedade 2 é um dos 
três recursos a partir dos quais \u201cas sociedades modernas satisfazem suas 
necessidades de integração e de regulação\u201d (DD II 22 [FG 363]). Os outros 
dois recursos são \u2013 como já vimos \u2013 o dinheiro e o poder administrativo 
(cf. Cap. 6 \u2013 \u201cSistema e mundo da vida\u201d.). A oposição entre mundo da 
vida e sistema emerge aqui novamente, desta vez como a oposição entre 
solidariedade, por um lado, e dinheiro e poder administrativo, por outro. 
Das três forças de integração social, a solidariedade parece ser a mais fraca. 
Com efeito, por um lado, os dois sistemas da economia e da administração 
tendem a colonizar o mundo da vida pelos meios do dinheiro e do poder 
administrativo. Por outro lado, a crescente complexidade da sociedade e 
dos processos de racionalização tornam impossível dispor de um potencial 
solidário sócio-integrativo suficiente. Abre-se uma \u201clacuna de solidariedade\u201d 
que pode ser preenchida somente pelo direito. Em reação ao processo de 
racionalização característico da modernidade o direito recebe uma dupla 
função.
Ele serve, por um lado, a assegurar solidariedade social (solidariedade 
2) em sociedades modernas nas quais se exige demais dos ordenamentos 
sociais em termos de integração social (DD I 65 [FG 61]). Os contextos de 
interação nos quais \u201cos conflitos antes eram resolvidos eticamente, na base 
do costume, da lealdade ou da confiança\u201d são agora juridificados (DD I 105 
[FG 101]). Visto que já não há valores comuns, o consenso não é alcançado 
por meio deles, mas por meio de procedimentos regulados juridicamente. 
A solidariedade é formalizada em uma espécie de lealdade procedimental 
que supera a fraqueza motivacional dominante nas modernas sociedades 
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secularizadas, já que \u201csem a retaguarda de cosmovisões metafísicas ou 
religiosas imunes à crítica, as orientações práticas só podem ser obtidas, 
em última instância, por meio de argumentações\u201d, e estas últimas precisam 
de regras rígidas (DD I 132 [FG 127]). Mas, diferentemente de cosmovi-
sões metafísicas ou religiosas imunes à crítica, as argumentações possuem 
uma força motivacional muito fraca. A segunda tarefa do direito consiste 
em opor-se ao processo de colonização do mundo da vida: \u201cos meios de 
regulação \u2013 dinheiro e poder administrativo \u2013 são ancorados no mundo 
da vida pela institucionalização jurídica dos mercados e das organizações 
burocráticas\u201d (DD I 104 s. [FG 101]). Sob tais premissas, o direito \u201cdetém 
uma função de charneira entre sistema e mundo da vida\u201d (DD I 82 [FG 77]) 
e se torna \u201cuma correia de transmissão abstrata e obrigatória pela qual é 
possível passar solidariedade para as condições anônimas e sistematica-
mente mediadas de uma sociedade complexa\u201d (DD I 107 [FG 102 s.]).
A dupla função do direito moderno possui, naturalmente, também 
consequências políticas. \u201cA universalização de um status de cidadão ins-
titucionalizado pública e juridicamente forma o complemento necessário 
para a juridificação potencial de todas as relações sociais. O núcleo dessa 
cidadania é formado pelos direitos de participação política\u201d (DD I 105 [FG 
101]) e estes, por sua vez, só são possíveis em uma democracia. O direito 
oferece provavelmente a única saída dos problemas surgidos pela coloni-
zação do mundo da vida. Visto que ele só é legítimo quando for produzido 
em processos de legislação democrática, tais processos servem, por sua 
vez, à redução da complexidade social, ainda que prima facie pareça que 
eles são impotentes em relação a esta última. A democracia não é, então, 
de maneira nenhuma, somente uma entre as possíveis formas de Estado 
e uma entre as possíveis formas que uma ordem jurídica pode tomar. Ela 
é, antes, a única forma que uma ordem jurídica legítima pode tomar. Não 
há direito democrático sem democracia. Isso fica particularmente claro se 
observarmos mais de perto o paradigma jurídico procedimental desenvol-
vido por Habermas.
Em consequência da sua concepção do direito como meio de integra-
ção social e de mediação entre mundo da vida e sistemas, entre validade e 
facticidade, Habermas defende um paradigma jurídico procedimentalista 
contra aqueles que ele chama de \u201cparadigma liberal\u201d e de \u201cparadigma do 
Estado de direito\u201d. O primeiro salienta a autonomia privada e vê no direito 
um instrumento para defendê-la; o segundo atribui grande importância 
à autonomia pública e considera o direito como o meio no qual ela pode 
desenvolver-se. Contrariamente a esses dois paradigmas, a visão proce-
dimentalista do direito parte da ideia de que os cidadãos são, ao mesmo 
tempo, os destinatários e os criadores das normas de uma ordem jurídica. 
Habermas considera os outros dois paradigmas a expressão de uma visão 
do homem e da sociedade que corresponde à sociedade da economia capi-
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talista. Contudo, enquanto na leitura liberal a sociedade capitalista \u201cpreen-
che a expectativa de justiça social por meio da defesa autônoma e privada 
de interesses próprios\u201d, no paradigma do Estado social esta expectativa é 
negada (DD II 145 [FG 491]). Para ambos os paradigmas, os indivíduos, 
então, são meramente destinatários do direito.
O paradigma procedimentalista parte de uma visão da sociedade 
segundo a qual nesta não há somente processos produtivos, mas também 
comunicativos. \u201cO jogo de gangorra entre os sujeitos de ação privados 
e estatais é substituído pelas formas de comunicação mais ou menos 
intactas das esferas privadas e públicas do mundo da vida, de um lado, 
e pelo sistema político, de outro lado\u201d (DD II 146 [FG 492]). A fim de 
poder exercer plenamente sua função sócio-integrativa, o direito deve 
ser legítimo, visto que, afinal, um direito ilegítimo não seria capaz de 
impor-se. O direito só é legítimo quando seus destinatários são, ao mesmo 
tempo, seus autores (Habermas exclui qualquer forma de paternalismo, 
na qual os destinatários do direito se limitam a ser privilegiados ou não 
prejudicados por ele). A legitimidade do direito se apoia \u201cem um arranjo 
comunicativo: enquanto participantes de discursos racionais, os parceiros 
de direito devem poder examinar se uma norma controvertida encontra 
ou poderia encontrar o assentimento de todos os possíveis atingidos\u201d (DD 
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