Uma história Ilustrada do Cristanismo   A Era Inconclusa   Justo L Gonzalez V 10
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Uma história Ilustrada do Cristanismo A Era Inconclusa Justo L Gonzalez V 10


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pação individual e ser membro do corpo de Cristo, a nova huma-
nidade. 
Enquanto os leitores alemães e suíços despejavam sobre A 
carta aos romanos elogios nem sempre de seu agrado, Barth 
buscava outras leituras que o convencessem de que ainda não 
fora suficientemente longe. Incomodava-o, particularmente, não 
ter ressaltado como seria necessário o caráter diferente de Deus. 
Ele falara de transcendência; agora, porém, temia não se ter 
livrado ainda da tendência romântica e liberal de ver Deus no 
melhor da natureza humana. Além disso, não havia ressaltado 
suficientemente o contraste entre o Reino de Deus e a totalidade 
dos planos humanos. Convencera-se de que o Reino é uma reali-
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dade escatológica, uma realidade que surge do Absolutamente 
Outro, e não de uma elaboração humana. Isso fez com que renun-
ciasse à teologia que o levara a filiar-se aos social-democratas. 
Embora permanecesse socialista e ainda convicto de que os cris-
tãos devem lutar por justiça e igualdade, sua ênfase agora era 
que nenhum desses projetos deveria ser confundido com o Reino 
escatológico de Deus. 
Barth havia acabado de terminar a segunda \u2014e radicalmente 
revista\u2014 edição de A carta aos romanos quando se mudou de 
Safenwil para iniciar em Gõttingen uma carreira como professor, 
que mais tarde ele continuaria em Münster, Bonn e finalmente na 
Basiléia. A influência de Kierkegaard é nitidamente perceptível 
nessa segunda edição de A carta aos romanos de Barth \u2014sobre-
tudo quando insiste na divergência insuperável entre o tempo e 
a eternidade, entre a realização humana e a ação divina. Já se 
comentou também que essa segunda edição foi a versão de Barth 
para o "ataque à cristandade" de Kierkegaard. Na época em que 
iniciou sua carreira de magistério, atribuía-se a Barth o começo de 
uma nova escola teológica, que alguns chamariam de "teologia 
dialét ica", outros de "teologia de crise" e outros ainda de "neo-
ortodoxia". Era uma teologia de um Deus que nunca é nosso, mas 
que sempre se sobrepõe a nós; cuja palavra é ao mesmo tempo 
"s im" e "não"; cuja presença não traz conforto e inspiração em 
nossos esforços, mas crise. Juntaram-se a ele diversos teólogos 
de renome: seu colega reformado Emil Brunner, o pastor luterano 
Friedrich Gogarten e o perito em Novo testamento Rudolf Bult-
mann. Em 1922, Barth, Gogarte, Thurneysen e outros fundaram 
o periódico teológico Zwischen den Zeiten [Entre os tempos], 
para o qual contribuíram também Brunner e Bultmann. Logo, 
porém, Bultmann e Gogarten deixaram o grupo, que considera-
vam tradicional demais em sua abordagem da teologia e não 
suficientemente engajado nas questões das incertezas modernas. 
Mais tarde, Brunner e Barth também discordaram quanto à rela-
ção entre natureza e graça \u2014embora Brunner achasse que deveria 
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haver nos seres humanos um "ponto de contato" para a ação da 
graça, a insistência de Barth era que isso levaria a uma reintrodu-
ção da teologia natural e que, em qualquer circunstância, é a 
graça que cria seu próprio "ponto de contato". 
Enquanto isso, Barth continuava sua peregrinação teológica. 
Em 1927, publicou o primeiro volume da planejada Dogmática 
cristã, em que declarou que o objeto da teologia não é a fé cristã, 
como Schleiermacher e outros haviam postulado, mas a Palavra 
de Deus. O tom de sua obra também mudara, pois em A carta 
aos romanos ele tinha sido um profeta, mostrando o erro de 
caminhos já transcorridos, e, agora, era um estudioso tentando 
oferecer uma teologia sistemática alternativa. A teologia de crise, 
por esse modo, tornara-se uma teologia da Palavra de Deus. 
Contudo, todo esse projeto tornou-se, para Barth, uma "largada 
anulada". Estudando Anselmo e, em seguida, a teologia protes-
tante do século xix, Barth convenceu-se de que a Dogmática 
cristã fazia concessões demais à filosofia. Nessa obra, ele havia 
sugerido que a teologia responde às nossas questões existenciais 
mais profundas e havia usado a filosofia existencialista como a 
estrutura sobre a qual a teologia foi construída. Agora, afirmava 
que a Paiavra de Deus fornece não apenas as respostas, mas 
também as perguntas. Pecado, por exemplo, não é um conceito 
que depreendemos da natureza e ao qual o evangelho responde. 
É a palavra da graça que convence de pecado. Sem conhecer 
essa palavra, não conhecemos nem a graça, nem o pecado. Essa 
nova perspectiva levou Barth a recomeçar sua grande obra siste-
mática, dessa vez frisando o fundamento eclesiástico da teologia, 
ao dar-lhe o título de Dogmática eclesiástica. Seus 13 volumes, 
que ele nunca terminou, foram publicados entre 1932 e 1967. 
A Dogmática eclesiástica é incontestavelmente o grande mo-
numento teológico do século XX. Numa época em que muitos 
pensavam que os sistemas teológicos eram coisa do passado, e 
que a teologia poderia, no máximo, consistir em monografias, 
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Barth escreveu uma obra digna dos melhores momentos da perí-
cia teológica. Lendo-a, nota-se imediatamente seu profundo co-
nhecimento das tradições teológicas antigas, que ele constante-
mente traz à consideração. Também é evidente a coerência íntima 
da obra inteira, que, do início ao fim \u2014e ao longo de quase quatro 
décadas sendo escrita\u2014, é fiel a si mesma. Há nela mudanças de 
ênfase, mas nenhum novo início. O mais notável é a liberdade e 
a postura crítica do próprio Barth em relação a todo o empreendi-
mento da teologia, que ele nunca confunde com a Palavra de 
Deus. De fato, eie ressaltava, a teologia, independentemente de 
quão verdadeira ou correta, sempre é um esforço humano e, 
portanto, sempre deve ser vista com uma combinação de liberda-
de, alegria e até humor. 
Conflitos reavivados 
Enquanto Barth preparava o primeiro volume de sua Dogmática 
eclesiástica, ocorriam fatos sinistros na Alemanha: Hitler e o 
partido nazista ascendiam ao poder, Em 1933, o Vaticano e o 
Terceiro Reich assinaram urna concordata. Os protestantes libe-
rais não possuíam ferramentas teológicas com as quais pudessem 
reagir de maneira crítica ao novo desafio. Pior, muitos deles ha-
viam declarado que acreditavam na perfectibiiidade da raça huma-
na e era exatamente isso o que Hitler proclamava. Eles também 
se haviam inclinado a confundir o evangelho com a cultura alemã, 
e a reivindicação nazista de que a Alemanha fora chamada a 
civilizar o mundo encontrou eco em muitos púlpitos alemães e 
cátedras acadêmicas. O próprio programa de Hitler incluía a unifi-
cação de todas as igrejas protestantes na Alemanha, usando-as 
na pregação da mensagem sobre a superioridade racial alemã e 
de uma missão divinamente recebida. Surgiu assim o partido dos 
"cristãos alemães", unindo crenças cristas tradicionais, em geral 
conforme haviam sido reinterpretadas pelo liberalismo, a noções 
de superioridade racial e de nacionalismo alemão. Parte de seu 
programa era reinterpretar o cristianismo sob o aspecto da oposi-
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cão ao judaísmo, contribuindo assim para as medidas anti-semíti-
cas do Reich, Em 1933, seguindo as orientações do governo, 
formou-se a Igreja Evangélica Alemã Unida, Quando o bispo que 
a presidia se mostrou hesitante em obedecer ao Reích em todas 
as quGStões, foi deposto, sendo nomeado outro em seu lugar. Em 
1934, diversos mestres da teologia, dentre os quais Barth e Bult-
mann, assinaram um protesto contra os rumos que a Igreja Unida 
estava tomando. Alguns dias depois, então, os líderes cristãos de 
toda a Alemanha, tanto iuteranos quanto reformados, reuniram-se 
em Barmen para o que denominaram o "sínodo do testemunho" 
e publicaram a Declaração de Barmen, que se tornou o documen-
to de origem para a "Igreja da Confissão", grupo que se opôs às 
medidas de Hitíer em nome do evangelho. A Declaração de Bar-
men rejeitava "a falsa doutrina, pela qual a igreja