Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


DisciplinaConstitucional5.249 materiais6.160 seguidores
Pré-visualização50 páginas
à noção e 
ImportancIa da .Constituição, na medida em que é através da Constituição 
q~e a_quele m~VImento pretende realizar o ideal de liberdade humana com a 
cn~ç.ao de meIOS e instituições necessárias para limitar e controlar o poder 
pol~tico, opondo-se, desde sua origem, a governos arbitrários, independente 
de epoca e de lugar. 
. ~ão pr:gava o constitucionalismo, advirta-se, a elaboração de Consti-
~:lIÇO~S,. ate porque, onde havia uma sociedade politicamente organizada 
Ja e:{IstIa uma Constituição fixando-lhe os fundamentos de sua organi-
zaçao. Isso porque, em qualquer época e em qualquer lugar do mundo 
havendo Estado,. sempre. houve e sempre haverá um complexo de nor~ 
mas. f~ndamentaIs que dIzem respeito com a sua estrutura, organização 
e.atiVIdade. ?constitucionalismo se despontou no mundo como um mo-
~mento pohtico e filosófico inspirado por idéias libertárÍas que reivin-
dICOU, desde seus primeiros passos, um modelo de organização política 
lastreada no respeito dos direitos dos governados e na limitação do poder 
dos governantes. 
1. KARL LOEWENSTEIN, Teoria de la Constitución, p. 154. 
32 DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
É claro que, para o sucesso do constitucionalismo, agigantou-se a neces-
sidade de que aquelas idéias libertárias fossem absorvidas pelas Constitui-
ções, que passaram a se distanciar da feição de cartas políticas a serviço do 
detentor absoluto do poder, para se transformarem em verdadeiras mani-
festações jurídicas que regulassem o fenômeno político e o exercício do po-
der, em benefício de um regime constitucional de liberdades públicas. 
Num primeiro momento, as propostas do constitucionalismo não esta-
vam condicionadas à existência de Constituições escritas, mesmo porque, 
como alertou Loewenstein2, o surgimento de Constituições escritas não se 
identifica com a origem do constitucionalismo. As Constituições escritas são 
produto do século XVIII, enquanto o constitucionalismo tem a sua fase em-
brionária associada aos povos da antiguidade, com se noticiou acima. 
É preciso insistir, contudo, que mesmo antes do advento do chamado 
Estado de Direito, já existia um Estado, chamado Absoluto, fundado numa 
Constituição que prescrevia obediência irrestrita ao soberano. Sendo assim, 
o constitucionalismo, como movimento, não se destinou a conferir 'Consti-
tuições' aos Estados, que já as possuíam, pelo menos no sentido material, 
mas, sim, a fazer com que as Constituições ( os Estados) abrigassem precei-
tos asseguradores da separação das funções estatais e dos direitos funda-
mentais3. Nesse contexto, podemos afirmar, com o mestre baiano Edvaldo 
Brito, que o constitucionalismo Ué expressão da soberania popular que re-
presenta, em certo momento histórico, o deslocamento do eixo do poder, 
cuja titularidade ou exercício era exclusivamente do 'soberanolll\u20224 
2. DESENVOLVIMENTO 
Como visto acima, o constitucionalismo representou um importante mo-
vimento político e filosófico que se manifestou em diversas épocas e lugares. 
Por isso mesmo, há quem prefira chamá-lo de movimentos constitucionaiss 
e identificá-lo, a partir de sua fase histórica e de suas características, como 
constitucionalismo antigo, medieval, moderno e contemporâneo. 
2.1. Constitucionalismo antigo 
O constitucionalismo desenvolveu-se por toda a antiguidade clássica, 
tendo presença marcante nas cidades-Estado gregas onde se consagrou, 
2. Ibidem, mesma página. 
3. MICHEL TEMER, Elementos de Direito Constitucional, p. 21. 
4. Limites da Revisão Constitucional, p. 26. 
5. CANOTILHO,].]. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, p. 48. 
CONSTITUCIONALISMO 33 
por quase dois séculos (V a III a.C.), um regime político-constitucional de 
democracia direta com absoluta igualdade entre governantes e governados, 
cujo poder político foi isonomicamente distribuído entre todos os cidadãos 
ativos. 
Em Atenas, por mais de dois séculos (de 501 a 338 a.C.), o poder políti-
co dos governantes foi rigorosamente limitado, não apenas pela soberania 
das leis, mas também pela instituição de um conjunto de mecanismos de 
cidadania ativa, em virtude dos quais o povo, pela primeira vez na História, 
governou-se a si mesmo. Como se sabe, a democracia ateniense consistiu, 
basicamente, na atribuição popular do poder de eleger os governantes e de 
tomar diretamente em Assembleia (a Ekklésia) as principais decisões políti-
cas, como, v. g., a adoção de novas leis, a declaração de guerra e a conclusão 
de tratados de paz ou de aliança. Ademais disso, a soberania popular ativa 
abrangia um sistema de responsabilidades, pelo qual era permitido a qual-
quer cidadão mover uma ação criminal (apagoguê) contra os dirigentes po-
líticos, devendo estes, ainda, ao deixarem os seus cargos, prestar contas de 
sua gestão perante o povo. Os cidadãos também tinham o direito de se opor, 
na reunião da Assembleia, a uma proposta de lei violadora da constituição 
(politéia) da cidade; ou, na hipótese de tal proposta já se encontrar aprovada 
e convertida em lei, de responsabilizar criminalmente o seu autor6\u2022 
A República romana (ValI a.c.) também foi palco importante para o 
amadurecimento das idéias constitucionalistas, sobretudo em razão de ha-
ver instituído um sistema de freios e contrapesos para dividir e limitar o po-
der político. Isto é, em Roma, com a instauração do governo republicano, o 
poder político passou a sofrer limitações, não propriamente pela soberania 
popular ativa nos moldes da democracia ateniense, mas em razão da elabo-
ração de um complexo sistema de freios e contrapesos entre os diferentes 
órgãos políticos. '~ssim é que o processo legislativo ordinário ( ... ) era de ini-
ciativa dos cônsules, que redigiam o projeto. O projeto passava em seguida 
ao exame do Senado, que o aprovava com ou sem emendas, para ser final-
mente submetido à votação do povo, reunido nos comícios"? 
2.2. Constitucionalismo medieval 
Mas foi na idade média, em especial com a Magna Carta inglesa de 1215, 
que o constitucionalismo logrou obter importantes vitórias com a limitação 
do poder absoluto do Rei, através do reconhecimento naquele texto escrito, 
6. COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos, 2001, p.41. 
7. COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos, 2001, p. 42. 
34 DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
que representou um pacto constitucional entre o Rei e a Nobreza e Igreja, da 
garantia da liberdade e da propriedade. 
Essa Declaração, consistente num pacto firmado em 1215 entre o Rei 
João Sem Terra e os Bispos e Barões ingleses, apesar de ter garantido tão so-
mente privilégios feudais aos nobres ingleses, é considerada como marco de 
referência para algumas liberdades clássicas, como o devido processo legal, 
a liberdade de locomoção e a garantia da propriedade. 
O importante é destacar que a Magna Carta inaugurou a pedrÇl funda-
mental para a construção da democracia moderna, pois, a partir dela, o po-
der do governante passou a ser limitado, não apenas por normas superiores, 
fundadas no costume ou na religião, mas também por direitos subjetivos 
dos governados. A Magna Carta deixa implícito pela primeira vez na história 
política medieval, que o rei acha-se naturalmente vinculado pelas próprias 
leis que editas. 
2.3. Constitucionalismo moderno 
Após a Magna Carta inglesa, o constitucionalismo deslancha em direção 
à modernidade, ganhando novos contornos. A partir daí são elaborados im-
portantes documentos constitucionais escritos (Petition of Rights, de 1628; 
Habeas Corpus Act, de 1679; Em of Rights, de 1689, etc.), todos com vistas 
a realizar o discurso do movimento constitucionalista da época. No século 
XVIII, o constitucionalismo ganha significativo reforço com as idéias ilumi-
nistas, a exemplo da doutrina do contrato social e dos direitos naturais, de 
filósofos como John Locke (1632-1704), Monstesquieu