Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


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gerais (como a redução das desigualdades so-
ciais) e específicas (como a obrigação de o Estado prestar serviços na área 
da educação e saúde).24 
O neoconstitucionalismo, portanto, - a partir (1) da compreensão da 
Constituição como norma jurídica fundamental, dotada de supremacia, (2) 
da incorporação nos textos constitucionais contemporâneos de valores e 
opções políticas fundamentais, notadamente associados à promoção da dig-
nidade da pessoa humana, dos direitos fundamentais e do bem-estar social, 
assim como de diversos temas do direito infraconstitucional e (3) da eficácia 
expansiva dos valores constitucionais que se irradiam por todo o sistema 
jurídico, condicionando a interpretação e aplicação do direito infraconstitu-
cional à realização e concretização dos programas constitucionais necessá-
rios a garantir as condições de existência mínima e digna das pessoas - deu 
início, na Europa com a Constituição da Alemanha de 1949, e no Brasil a par-
tir da Constituição de 1988, ao fenômeno da constitucionalização do Direito 
a exigir uma leitura constitucional de todos os ramos da ciência jurídica. 
23. op. cit., p. 18. 
24. Nesse sentido, conferir BARCELLOS, Ana Paula de. "Neoconstitucionalismo, Direitos Fundamentais 
e Controle das Políticas Públicas". In: http://www.mundojuridico.adv.br/cgi-bin/upload/texto853. 
pdf, acesso em 25 de setembro de 2006. 
CONSTITUCIONALISMO 41 
Com a constitucionalização do Direito evidencia-se a posição de proemi-
nência dos textos constitucionais, que passam a transitar por todos os seto-
res da vida política e social em Estado. Na formulação conceitual de Guastini, 
a constitucionalização do Direito é um processo de transformação de um 
ordenamento jurídico ao fim do qual a ordem jurídica em questão resulta to-
talmente impregnada pelas normas constitucionais, que passam a condicio-
nar tanto a legislação como a jurisprudência, a doutrina, as ações dos atores 
políticos e as relações sociais.25 
O referido autor chega a apresentar uma lista de sete condições para a 
caracterização do fenômeno da constitucionalização do Direito, a saber: 1) a 
existência de uma Constituição rígida; 2) a garantia judicial da Constituição; 
3) a força normativa da Constituição; 4) a sobreinterpretação da Constitui-
ção; 5) a aplicação direta das normas constitucionais; 6) a interpretação das 
leis conforme a Constituição, e 7) a influência da Constituição sobre as rela-
ções políticas. 
Ademais, foi especialmente decisivo para o delineamento desse novo 
Direito Constitucional, o reconhecimento da força normativa dos princípios, 
situação que tem propiciado a reaproximação entre o Direito e a Ética, o Di-
reito e a Moral, o Direito e a Justiça e demais valores substantivos, a revelar 
a importância do homem e a sua ascendência a filtro axiológico de todo o 
sistema político e jurídico, com a consequente proteção dos direitos funda-
mentais e da dignidade da pessoa humana. 
A emergência do neoconstitucionalismo logrou propiciar o reconheci-
mento da dupla dimensão normativo-axiológico das Constituições contem-
porâneas, ensejando a consolidação de uma teoria jurídica material ou subs-
tancial assentada na dignidade da pessoa humana e nos direitos fundamen-
tais. Nesse contexto, o discurso jurídico, antes associado a uma concepção 
formal e procedimentalista, evolui para alcançar uma vertente substancialis-
ta preocupada com a realização dos valores constitucionais. 
Em síntese perfeita, Luís Roberto Barroso apresenta a contribuição do 
neoconstitucionalismo para o Direito Constitucional contemporâneo: 
"o neoconstitucionalismo ou novo direito constitucional, na acepção aqui 
desenvolvida, identifica um conjunto amplo de transformações ocorridas 
no Estado e no direito constitucional. em meio às quais podem ser assi-
nalados, (i) como marco histórico, a formação do Estado constitucional de 
direito, cuja consolidação se deu ao longo das décadas finais do século XX; 
25. GUASTINI, Riccardo. "La 'Constitucionalización' dei Ordenamiento Jurídico: el caso Italiano". In: 
CARBONELL, Miguel COrg.). Neoconstitucionalismo (s), Editorial Trotta, Madrid, p. 49, 2003. 
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(ii) como marco filosófico, o pós-positivismo, com a centralidade dos di-
reitos fundamentais e a reaproximação entre Direito e ética; e (iii) como 
marco teórico, o conjunto de mudanças que incluem a força normativa da 
Constituição, a expansão da jurisdição constitucional e o desenvolvimento 
de uma nova dogmática da interpretação constitucional. Desse conjunto de 
fenômenos resultou um processo extenso e profundo de constitucionaliza-
ção do Direito:'26 
Essa evolução de paradigma, com o reconhecimento da centralidade das 
Constituições nos sistemas jurídicos e da posição central dos direitos fun-
damentais nos sistemas constitucionais, tem propiciado o fortalecimento 
da posição, de há muito sustentada por nós, em defesa da efetividade dos 
direitos fundamentais sociais e do controle judicial das políticas públicas27\u2022 
3.1. Patriotismo Constitucional 
Essa paradigmática mudança de entender e aplicar o Direito, causada 
pelo neoconstitucionalismo, favoreceu o surgimento de um sentimento 
constitucional universal, baseado na lealdade e no respeito às Constituições. 
Tal quadro se destaca essencialmente naqueles Estados, cujos governos ar-
bitrários foram responsáveis pelas maiores violações aos direitos humanos 
da história do século XX, como é o caso da Alemanha. 
Efetivamente, na Alemanha, em razão de seu passado histórico compro-
metido pela existência de um nacionalismo exacerbado e xenófobo, que con-
duziu ao nazismo, buscou-se um novo modelo de identificação política capaz 
de superar aquele nacionalismo totalitário. 
Assim, no final da década de 70, por ocasião da comemoração dos 30 
anos da Constitufção da Alemanha de 1949 (Lei Fundamental de Bonn), o 
historiador Dolf Sternberger foi o primeiro a usar o termo patriotismo cons-
titucional '(Verfassungspatriotismus), como forma de oposição à noção tra-
dicional de nacionalismo, visando a apresentar uma identificação do Esta-
do Alemão com a ordem política e os princípios constitucionais. Todavia, 
foi com o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas, nos anos 80, que o 
26. BARROSO, Luís Roberto. 'Neoconstitucionalismo e Constitucionalização do Direito: O triunfo tardio 
do Direito Constitucional no Brasil'. In: Revista da Associação dos juízes Federais do Brasil. Ano 23, n. 
82, 4º trimestre, 2005, pp.l09-157, p. 123. 
27. Conferir. a propósito, o que escrevemos em: 'Neoconstitucionalismo e o novo paradigma do E~tado 
Constitucional de Direito: Um suporte axiológico para a efetividade dos Direitos Fundamentais So-
ciais'. In: CUNHA JÚNIOR, Dirley; PAMPLONA FILHO, Rodolfo (Orgs). Temas de Teoria da Constituição 
e Direitos Fundamentais. Salvador: Editora Juspodivm, pp. 71-112, 2007; 'A efetividade dos Direitos 
Fundamentais Sociais e a reserva do possível'. In: CAMARGO, Marcelo Novelino (Org). Leituras com-
plementares de Direito Constitucional: Direitas Fundamentais. 2ª ed., Salvador: Editora Juspodivm, 
pp. 395-441, 2007. 
CONSTITUCIONALISMO 43 
patriotismo constituCÍonal foi amplamente difundido no meio acadêmico e 
político. Segundo Habermas, o patriotismo constituCÍonal produziu de forma 
reflexiva uma identidade política coletiva conciliada com uma perspectiva 
universalista comprometida com os princípios do Estado Democrático de 
Direito. Isto é, o patriotismo constitucional foi defendido como uma maneira 
de conformação de uma identidade coletiva baseada em compromissos com 
princípios constitucionais democráticos e liberais capazes de garantir a in-
tegração e assegurar a solidariedade, com o fim de superar o conhecido pro-
blema do nacionalismo étnico, que por muito tempo opôs culturas e pOVOS28\u2022 
Nesse contexto, a Constituição passa a desempenhar relevante papel na 
vida