Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


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do cidadão e da sociedade, na medida em que os defensores do patrio-
tismo constitucional apontam a Constituição, em face de seu poder agluti-
nante, como um elo que aproxima os cidadãos com base nos pressupostos 
de um Estado Democrático de Direito fundado nos Direitos humanos e na 
solidariedade social, por mais que pertencentes a grupos étnicos e culturais 
diversos. Abandona-se, pois, a ideia de nacionalismo, que tradicionalmente 
esteve vinculado a questões étnicas e culturais, para se adotar um patriotis-
mo constitucional, associado aos fundamentos do republicanismo29, que se 
reveste de um potencial inclusivo, cujo conceito propugna uma união entre 
os cidadãos, por mais que diferentes étnica e culturalmente, através do res-
peito aos valores plurais do Estado Democrático de Direito. 
É claro que os aspectos étnicos e culturais continuam importantes para 
identificar uma comunidade; porém, não podem mais ser levados em consi-
deração para identificar uma forma de união e conciliação entre os cidadãos, 
notadamente nas sociedades plurais, nas quais a divergência e a diferença 
são marcas predominantes. Assim, a identidade coletiva não pode mais se 
dá com fundamento na homogeneidade cultural, mas na convivência sob os 
mesmos valores do Estado Democrático de Direito, situação que permite 
28. HABERMAS, Jürgen. Identidades nacionalesy postnacionales. Madrid: Tecnos, 1998. Para uma aná-
lise mais aprofundada do tema, conferir: CENCI, Elve Miguel, Contribuições do conceito de pa-
triotismo constitucional para a esfera político-jurídica brasileira. SCIENTIA IURIS, Londrina, v. 
lO, p.121-133, 2006; CITTADINO, Gisele, Patriotismo constitucional, cultura e história. Direito, 
Estado e Sociedade, n.31 p. 58 a 68 julfdez 2007. ARROYO, Juan Carlos Velasco. Patriotismo cons-
titucional y republicanismo. Claves de razón practica, nº 125, 2002,), pp. 33-40; CAVALCANTI, An-
tonio Maia. A ideia de patriotismo constitucional e sua integração à cultura político-jurídica 
brasileira. In: Habermas em discussão. Anais do Colóquio Habermas. PINZANI; Alessandro; DUTRA, 
Delamar J. V. (Org.). Florianópolis: NEFIPO, 2005. 
29. A noção de patriotismo constitucional está intimamente ligada à tradição política do republicanis-
mo, na medida em que defende uma concepção de cidadania participativa, definida pela adesão 
aos valores comuns de caráter democrático, que busca a realização do bem comum. Nesse sentido, 
conferir ARROYO, Juan Carlos Velasco. Patriotismo constitucional y republicanismo. Claves de 
razón practica, nº 125, 2002, ), pp. 33-40. 
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uma coexistência das múltiplas formas de cultura, o que caracteriza o mul-
ticulturalismo. 
O patriotismo constitucional, portanto, busca o reconhecimento de um 
constitucionalismo intercultural, que deve reconhecer a diversidade de cul-
turas e promover a conciliação entre todas as práticas culturais. 
3.2. Transconstitucionalismo 
Empolgado pelo neoconstitucionalismo, o novo Direito Constitucional, 
cujas bases teóricas ainda estão em construção, tem revelado situações-pro-
blemas que não podem ser solucionadas pelo Direito Constitucional clássico 
ou moderno. 
Com efeito, como se sabe, os problemas centrais do constitucionalismo 
moderno sempre foram o reconhecimento e a proteção dos direitos huma-
nos, de um lado; e o controle e a limitação do poder, de outro. Sucede, po-
rém, que na contemporaneidade, em razão da maior integração da socieda-
de mundial, estes problemas deixam de ser tratados apenas no âmbito dos 
respectivos Estados e passam a ser discutidos e objeto da preocupação entre 
diversas ordens jurídicas, inclusive não estatais, que muitas vezes são cha-
madas a oferecer respostas para a sua solução. Isso implica, como propõe, 
com muita propriedade, Marcelo Neves3o, uma relação transversal perr:za-
nente entre as distintas ordens jurídicas em torno de problemas constitu-
cionais comuns. 
O Direito Constitucional, portanto, afasta-se de sua base originária, que 
sempre foi o Estado, para se dedicar às questões transconstitucionais, que 
são aquelas, segundo Neves, que perpassam os diversos tipos de ordens 
jurídicas e que podem envolver tribunais estatais, intern~cionais, supr~na­
cionais e transnacionais (arbitrais) na busca de sua soluça0. Nesse sentido, 
o Direito Constitucional ultrapassa as fronteiras dos Estados respectivos e 
torna-se diretamente relevante para outras ordens jurídicas estatais e até 
não estatais. Desse modo, é inevitável o fenômeno daglobalização do Direito 
Constitucional, que não propugna uma Constituição global ou internacional, 
mas propõe umaglobalização do Direito Constitucional doméstico. 
Marcelo Neves explica que o conceito de transconstitucionalismo não 
tem nada a ver com o conceito de constitucionalismo internacional, trans-
nacional, supranacional, estatal ou local. O conceito está relacionado à exis-
tência de problemas jurídico-constitucionais que perpassam às distintas 
30. NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009. 
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CONSTITUCIONALISMO 45 
ordens jurídicas, sendo comuns a todas elas, como, por exemplo, os proble-
mas associados aos direitos humanos. Neste caso, impõe-se um diálogo en-
tre estas distintas ordens jurídicas a fim de que os problemas que lhes são 
comuns tenham um tratamento harmonioso e reciprocamente adequado. 
Essa interlocução pode ocorrer das mais variadas formas. É possível 
que ela decorra da vinculação das ordens jurídicas estatais às decisões das 
ordens jurídicas internacionais, como, por exemplo, a sujeição do Brasil às 
decisões emanadas da Corte Interamericana de Direitos Humanos !(CIDH), 
em razão da adesão do Estado brasileiro às disposições da Convenção Ame-
ricana de Direitos Humanos (CADH); é possível, outrossim, que essa conver-
sação se desenvolva a partir do respeito e consideração espontânea e mútua 
entre as diversas ordens jurídicas (estatais, internacionais, supranacionais 
e transnacionais), como pode se verificar, por exemplo, quando um Tribunal 
estatal considera, sem estar obrigado a tanto, a decisão de outro Tribunal 
estatal ou internacional ou supranacional ou transnacional, e vice versa. 
Não há dúvida a respeito da importância do transconstitucionalismo 
para a sociedade e para o cidadão. É significativamente proveitoso para 
todos que as questões transconstitucionais, como os direitos humanos, por 
exemplo, sejam tratadas de forma convergente e harmoniosa pelas diferen-
tes ordens jurídicas. Por isso mesmo, Marcelo Neves propõe um permanente 
diálogo sobre questões constitucionais comuns que afetam ao mesmo tem-
po distintas ordens jurídicas31\u2022 
31. NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009. O autor 
cita, entre quase uma centena de exemplos, o caso de Caroline de Mônaco julgado pelo Tribunal 
Constitucional Alemão. A Corte concluiu que figuras proeminentes, diante da imprensa, não têm 
a mesma garantia de intimidade que o cidadão comum. A corte constitucional alemã decidiu que 
as fotos tiradas de Caroline de Mônaco por paparazzi, mesmo na esfera privada, não poderiam ser 
proibidas. Vetou apenas aquelas que atingiam os filhos dela, porque eram menores. O caso chegou 
ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos, e o tribunal decidiu o contrário: não há liberdade de 
imprensa que atinja a intimidade da princesa, mesmo sendo ela uma figura pública. "Neste caso, não 
há uma hierarquia entre os dois tribunais, mas o mesmo caso é tratado de maneira diversa. Como, 
então, resolver essa questão se não houver uma pretensão de diálogo, de aprendizado recíproco? 
Ou seja, é preciso haver uma constante adequação recíproca e não a imposição de uma ordem sobre 
a outra". 
CAPITULO 11 
DIREITO CONSTITUCIONAL 
Sumário. 1. Origem, conceito e natureza do Direito Constitucional - 2. Objeto