Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


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do Direito Cons-
titucional - 3. Espécies ou Divisão do Direito Constitucional: 3.1. Direito Constitucional Especial, 
Positivo ou Particular; 3.2. Direito Constitucional Comparado; 3.3. Direito Constitucional Geral- 4. 
Relações do Direito Constitucional com outros ramos do Direito - 5. Relações do Direito Constitu-
cional com disciplinas afins de caráter não-jurídico - 6. Fontes do Direito Constitucional. 
1. ORIGEM, CONCEITO E NATUREZA DO DIREITO CONSTITUCIONAL 
A origem do Direito Constitucional está intimamente ligada ao triunfo 
político das revoluções liberais do século XVIII (a americana e a francesa), 
cujo propósito maior que as animou era a limitação do poder mediante a 
consagração de um sistema de separação das funções estatais (atribuídas a 
órgãos distintos do Poder que passariam a se controlar mutuamente) e de 
uma declaração de direitos1\u2022 
Com a vitória das revoluções democráticas abriu-se a oportunidade do 
surgimento das Constituições escritas, das quais a Constituição americana 
de 1787 e a Constituição francesa de 1791 despontaram como os primeiros 
paradigmas de documentos escritos e solenes. Vem à tona, assim, a referên-
cia ao Direito Constitucional como o Direito das Constituições modernas, cujo 
objetivo maior foi de estudar, organizar e fundamentar um sistema de coe-
xistência e convivi o harmônico entre o Estado e os indivíduos, sendo digno 
de nota o episódio histórico, ocorrido em 26 de setembro de 1791, quando 
a Assembléia Nacional Constituinte da França decidiu que as Faculdades de 
Direito.seriam obrigadas a ensinar a Constituição francesa aos jovens estu-
dantes. Não menos importante, outrossim, para o aparecimento do Direito 
Constitucional como a disciplina jurídica das Constituições, foi a Declaração 
Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 26 de agosto de 1789, 
produzida pela Revolução Francesa, que em seu artigo 16 assim dispôs: 
"toda sociedade na qual não esteja assegurada a garantia dos direitos nem 
determinada a separação de poderes não possui Constituição". 
1. Cumpre esclarecer; com WILSON ACCIOLI, que a fixação desse marco temporal não significa que os 
antigos tivessem se abstraído das questões relativas à organização constitucional do Estado da épo-
ca, mas importa apenas na consideração do Direito Constitucional como ciência jurídica autônoma 
no nosso tempo (Instituições de Direito Constitucional, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 1981, p. 01). 
48 DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
Contudo, as primeiras cadeiras de Direito Constitucional foram criadas, 
sob marcada e direta influência da Revolução Francesa, ao norte da Itália, 
inicialmente em Ferrara, em 1797, onde assumiu Giuseppe Compagnoni Di 
Luzo, seu primeiro titular. Posteriormente, já em 1798, surgem nas Univer-
sidades de Pádua e Bolonha. 
Na França, a cadeira de Direito Constitucional foi criada com um certo 
atraso, e mesmo assim somente sendo possível após a queda dos Bourbons, 
com a consolidação política da Monarquia liberal de Luís Filipe. Foi em 1834, 
por influência de Guizot, então ministro da Instrução Pública do Rei Luís Fi-
lipe, que foi criada a primeira cátedra de Direito Constitucional na Faculdade 
de Direito de Paris, cuja titularidade coube ao publicista italiano Pelegrino 
Rossi, autor do conhecido livro Cours de Droit Constitutionnel (02 volumes). 
No Brasil, depois de diversas tentativas frustradas, o Direito Constitu-
cional finalmente foi criado, como cadeira autônoma, sob a imposição do 
Decreto-lei nº 2.639, de 27 de setembro de 1940. 
Mas o que importa saber, para a fixação do marco temporal do Direito 
Constitucional como disciplina jurídica autônoma, é a sua estreita vincula-
ção com os movimentos políticos que puseram termo ao Estado absoluto e 
abriram caminho para a implantação de um novo modelo de organização 
política, fundada na limitação constitucional do exercício do poder e na pro-
teção das liberdades públicas. 
O conceito de Direito Constitucional certamente está vinculado à sua ori-
gem. Se é certo que o Direito Constitucional surgiu com o fim de servir de 
disciplina jurídica das Constituições modernas, com a pretensão de estudar as 
normas e instituições fundamentais associadas ao Texto Magno, concebido 
como o Estatuto Supremo comprometido com a organização de um novel mo-
delo de Estado, ajustado com os propósitos de legitimação do poder e garan-
tia das liberdades fundamentais, o seu conceito, deveras, há refletir tudo isso. 
Contudo, chamo a atenção para o fato de que o Direito Constitucional 
não pode ser definido, simplesmente, como o ramo do direito que estuda 
as normas contidas na Constituição. O Direito Constitucional é mais do que 
isso! Nesse sentido, são absolutamente pertinentes as observações de Mau-
rice Duverger, para quem "definir o Direito Constitucional como a parte do 
direito que estuda as regras contidas na Constituição não é senão parcial-
mente verdadeiro. É certo que a Lei Básica de um país forma geralmente o 
objeto principal de seu Direito Constitucional. Mas não se erige em seu esco-
po exclusivo. Primeiramente, em certos países, a Constituição propriamente 
dita se reduz a algumas coisas: costumes, práticas, tradições completam e 
sobrelevam amplamente os textos escritos, como no caso da Grã-Bretanha; 
DIREITO CONSTITUCIONAL 49 
o Direito ~onstitucional não poderia limitar-se apenas ao seu exame. Mes-
mo nos palses em que a Constituição escrita contém o essencial das normas 
concernentes_ à e:trutura do Estado e à organização do governo, muitas des-
~s normas nao sao por ela estabelecidas - são encontradas nas leis ordiná-
nas, nos regulamentos, nas resoluções das assembléias e também nos usos e 
costumes: o Dire~to ~onstituc!onal desborda largamente o de Constituição"2. 
Para a mesma _dIreçao tambem apontam as lições de Wilson Accioli: "Evi-
dentemente, nao se pode, no mundo atual, definir o Direito Constitucional 
c?mo ? ramo do direito público que estuda as regras contidas no Texto Bá-
SICO, SImplesmente. Há, sem dúvida, outros aspectos a considerar: como é o 
caso da consagração e do relevo crescentes adquiridos pelas de~ominadas 
instituições políticas".3 
Assim, cump:e deixar claro que o Direito Constitucional, mais do que um 
r~~o.q~e ~e .dedIca ao estudo da Constituição, é uma importante parcela da 
clencla.Jur~dH::a_que se preocupa com a análise e a sistematização das nor-
ma~ ~ ~nStituIçoes fundamentais de um Estado. Vejamos, abaixo, algumas 
defimçoes de destacados autores que sugerem esses elementos explicativos 
do Direito Constitucional. 
Para Duguit, "ao direito público externo se opõe o direito público interno, 
compreendendo todas as regras que se aplicam a um determinado Estado 
Uma primeira parte do direito público interno grupa as normas de direit~ 
que se aplicam ao próprio Estado, que fixam as obrigações que lhe são im-
postas, .os ~oderes dos quais é o titular, bem como sua organização interna. 
Esta pnmeIra parte do direito público interno é designada freqüentemente 
Direito Constitucional".4 
. Sem destoar do conceito acima, Pietro Virga concebe o Direito Constitu-
CIOnal como um conjunto de "normas que determinam a estrutura do Esta-
do: disciplinam a composição e o funcionamento dos órgãos constitucionais 
e fixam os principais esteios do regime político do Estado".5 
. Jorge Miranda o vê como "a parcela da ordem jurídica que rege o pró-
pno Estado enquanto comunidade e enquanto poder. É o conjunto de nor-
mas (disposições e princípios) que recortam o contexto jurídico correspon-
dente à comunidade política como um todo e aí situam os indivíduos e os 
grupos uns em face dos outros e frente ao Estado-poder e que, ao mesmo 
2. Institutions Politiques et Droit Constitutionnel. 9ª ed, Presses Universitaires de France Paris 1966 ~~ , , , 
3. Instituições de ~ireito ~on~titucional, 2ª ed., Rio de Janeiro: .Forense, 1981, p. 07. 
4. M~~uel de ~rO/: