Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


DisciplinaConstitucional5.250 materiais6.160 seguidores
Pré-visualização50 páginas
e suas fontes; 
esboçar uma teoria da Constituição; dispor sobre a teoria do Poder Consti-
tuinte; sistematizar uma hermenêutica constitucional; acompanhar a evolu-
ção do constitucionalismo, entre outras. 
. :'ara concluir esta parte, colhe-se de Manuel García-Pelajo a seguinte dis-
tinçao entre o Direito Constitucional Geral e o Direito Constitucional Com-
parado: "o que diferencia o Direito constitucional geral do Direito constitu-
cional.con:par~do é que, ~nquan~o este se interessa pelos grupos jurídico-
-con~ti~ClOnals em sua smgularIdade e contraste frente a outros grupos, 
o primeIrO se preocupa somente com as notas gerais e comuns"12 a esses 
grupos. 
Nada obstante se falar em "espécies" ou "divisões" do Direito Consti-
tucional, é inegável que o Direito Constitucional Especial, o Direito Consti-
tucional Comparado e o Direito Constitucional Geral se entrecruzam e se 
comunicam, numa relação mútua de aUXIlio. Desse modo, o Direito Cons-
~tu:io?~ Geral, ao expor, sistematizar e unificar os princípios, conceitos e 
mstitulçoes comuns a diversos ordenamentos constitucionais, podecontri-
buir significativamente para o amadurecimento, correção, adaptação ou até 
mesmo alteração do Direito Constitucional Especial de determinado Estado 
assim como o Direito Constitucional Comparado, ao examinar as diferente~ 
Constituições em confronto, pode subsidiar o Direito Constitucional Geral 
ou vice-versa. 
Marcel~ N~ves trabalha com o conceito de transconstitucionalismo, que 
pode contribUIr para o estudo da divisão ou espécies do Direito Constitucio-
nal. Com efeito, para o autor o transconstitucionalismo é o entrelaçamento 
de ordens jurídicas diversas, tanto estatais como transnacionais, internacio-
nais e supranacionais, em torno dos mesmos problemas de natureza consti-
tucional, como os associados aos direitos fundamentais, que são discutidos 
e decididos ao mesmo tempo por tribunais de países diversos. Assim, o fato 
de a mesma questão de natureza constitucional ser enfrentada concomitan-
temente por diversas ordens leva ao que ele chama de transconstitucionalis-
mo. Propõe o autor um diálogo sobre questões constitucionais comuns que 
afetam ao mesmo tempo distintas ordens jurídicas13\u2022 
12. Derecho Constitucional Comparado. Madrid: Alianza Editorial, 1999, p. 22. 
13. NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2009. O autor cita, 
ent::e quase u~a centena de exemplos, o caso de Caroline de Mônaco julgado pelo Tribunal Consti-
tuclOn~1 Ale~Ja~. ~ Corte concluiu que figuras proeminentes, diante da imprensa, não têm a mesma 
garantia de intimidade que o cidadão comum. A corte constitucional alemã decidiu que as fotos 
54 DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
4. RELAÇÕES DO DIREITO CONSTITUCIONAL COM OUTROS RAMOS DO 
DIREITO 
Como de há muito sublinhou Santi Romano14, o Direito Constitucional 
afigura-se como a mais importante esfera da ordem ju~dica que es~ ~m 
maior, mais contínua e geral conexão com todos os demaIs ramos do_DIreIt?, 
coordenando-os e assegurando a indissolúvel unidade da ordenaçao. MaIS 
do que um ramo do Direito, o Direito Constitucional consiste no começo de 
todo o Direito, o próprio tronco comum ao qual se prendem e do qual tam-
bém derivam os vários domínios da ordenação jurídica do Estado, de modo 
que cada um destes ramos o pressupõe, sendo gerados e amparados por ele, 
que contém o gérmen de suas normas e instituições. 
O Direito Constitucional, assim, representa o Direito Supremo do Estado, 
o tronco do sistema jurídico do qual derivam e se desenvolvem todos os r~­
mos do Direito positivo, que nele encontram os seus princípios fundamentaIs. 
Nesse sentido, o Direito Constitucional desempenha uma função primordial 
no sistema jurídico, que é manter a unidade substancial de todo o Direito, seJa 
público ou privado, fornecendo os ~ndament~s e as ~~ses ~e compree~sa? 
de todos os seus ramos, com os quaIs se relaCIOna. E e megavel que o DIreI-
to Constitucional, como centro e fonte de todo o sistema jurídico, mantém 
relação com todos os ramos do Direito, com eles interagindo, e, mais do que 
isso, submetendo-os a um processo de constitucionalização ou de filtrag:m 
constitucional, quer por que os mais importantes princípios e regras e~p~c~fi­
cas dos diversos domínios da ciência jurídica estão dispostos na ConstituIçao, 
quer por que aqueles princípios e aquelas regras passaram a se sujeitar a 
uma releitura ou reinterpretação sob uma perspectiva constitucional. 
Entre os principais ramos com os quais mantém intensa e permanente 
relação, podemos destacar os seguintes: 
a) O Direito Constitucional e o Direito Administrativo 
Entre todos os ramos do Direito, o Direito Administrativo1s talvez seja 
aquele que maior influência recebe do Direito Constitucional, ao ponto de al-
tiradas de Caroline de Mônaco por paparazzi, mesmo na esfera privada, não poderiam ser proibi~as. 
Vetou apenas aquelas que atingiam os filhos dela, ~o:que eram, ~eno~es. ? ~aso chegou ~o Tnbu-
nal Europeu de Direitos Humanos, e o tribunal decidIU o contrano:,n~o h~ hberdade de_Imp;ensa 
que atinja a intimidade da princesa, mesmo sendo ela u:na figura pUbhca .. Ne~te caso, nao ha u~a 
hierarquia entre os dois tribunais, mas o mesmo _caso e .t;atado de mane~ra dlvers,a. Co~o, en~o, 
resolver essa questão se não houver urna pretensao de dialogo, de aprendizado reciproco. Ou seJ~: 
é preciso haver urna constante adequação recíproca e não a imposição de urna ordem sobre a outra . 
14. Op. Cit., p. 10. . " 'd RAÚjO Ed . 
15. Para urna leitura do Direito Administrativo numa perspectiva constitucIOnal, VI e: A 'A ~Ir 
Netto. Curso de DireitoAdministrativo.São Paulo: Saraiva, 2005; BANDEIRA DE MELLO, Celso Antomo. 
DIREITO CONSTITUCIONAL 55 
guns autores chegarem a qualificar o Direito Administrativo como uma par-
te do Direito Constitucional que concebe o Estado no seu aspecto dinâmi-
co e funcional, dispondo da organização interna da Administração, de seu 
pessoal e de seus serviços, enquanto ° Direito Constitucional, sem o Direito 
Administrativo, cuida do Estado na sua parte estrutural e estática, tratando 
das instituições políticas do governo16\u2022 
Como se sabe, o Direito Administrativo é um ramo do Direito Público que 
consiste num conjunto articulado e harmônico de normasjurídicas (normas-
-princípios e normas-regras) que atuam na disciplina da Administração Públi-
ca, de seus órgãos e entidades, de seu pessoal e serviços, regulando uma das 
funções desenvolvidas pelo Estado: a função administrativa. Tem por objeto 
específico, portanto, a Administração Pública e o desempenho das funções 
administrativas17, mantendo, por isso mesmo, uma íntima conexão com o 
Direito Constitucional. Assim, o Direito Administrativo compreende um con-
junto de normas - muitas das quais ditadas pela Constituição - que delimi-
tam a atuação e o funcionamento do Estado-administração, que se organiza 
para desempenhar as atividades administrativas consistentes em realizar 
concreta, direta e imediatamente os fins que lhe são constitucionalmente 
atribuídos, provendo os interesses da coletividade. 
E é exatamente o Direito Constitucional que disponibiliza ao Direito Ad-
ministrativo os princípios gerais e os fundamentos da organização da Admi-
nistração Pública, bem assim as regras básicas para a elaboração dos regi-
mes funcionais dos agentes administrativos. 
A Constituição Federal de 1988 reservou, no título III de seu texto (Da Or-
ganização do Estado), um capítulo inteiro para dispor sobre a Administração 
Curso de Direito Administrativo. 17ª ed., São Paulo: Malheiros, 2004; BANDEIRA DE MELLO, Oswal-
do Aranha. Princípios gerais de Direito Administrativo. Rio de janeiro: Forense, 2 V, 1979; BRUNO, 
Reinaldo Moreira. Direito Administrativo. Belo Horizonte: Del Rey. 2005; CARVALHO FILHO, josé 
dos Santos. Manual de Direito Administrativo. 13ª ed., Rio de janeiro: