Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


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Se assim o é, o conceito de tributo, de berço constitucional, não pode 
ser alargado, reduzido, nem modificado pelo legislador infraconstitucionaI-
notadamente pelo fato de que ele é "conceito-chave - diz Ataliba - para de-
marcação das competências legislativas e balizador do 'regime tributário', 
conjunto de princípios e regras constitucionais de proteção do contribuinte 
contra o chamado 'poder tributário', exercido, nas respectivas faixas delimi-
tadas de competências, por União, Estados e Municípios"29\u2022 A estrita e ta-
xativa disciplina constitucional das competências tributárias, aliada a não 
menos rígida disciplina de um estatuto constitucional do contribuinte retira 
toda liberdade do legislador no fixar um conceito de tributo e os aspectos da 
hipótese de incidência tributária. 
A Constituição Federal de 1988 discrimina as espécies de tributos (art. 
145), estabelece as limitações do poder de tributar (art. 150), demarca as 
competências tributárias entre a União (art. 153), os Estados e o Distrito Fe-
deral (art. 155) e os Municípios (art. 156) e define um sistema de repartição 
das receitas tributárias (arts. 157/159). 
g) O Direito Constitucional e o Direito Internacional Público 
A relação entre o Direito Constitucional e o Direito Internacional Público 
pode ser aferida a partir da confrontação entre duas correntes doutrinárias 
que se contrapõem na elucidação da questão: o dualismo e o monismo. Para 
27. RODRIGUES, Jamile Porto. 'A paternidade sócioafetiva, seu reconhecimento e seus efeitos'. In: 
CUNHA JÚNIOR, Dirley; PAMPLONA FILHO, Rodolfo (Orgs). Temas de Teoria da Constituição e Direi-
tos Fundamentais. Salvador: Editora Juspodivrn, 2007, p. 129-138, p. 132. 
28. Hipótese de Incidência Tributária. 6" ed., São Paulo: Malheiros, p. 33. 
29. Idem, pp. 32/33. 
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a primeira, há duas ordens jurídicas distintas e inconfundíveis, razão por 
que é impossível um conflito entre o direito interno e o direito internacional, 
que não se relacionam nem se interagem. Cumpre ao direito interno regular 
as relações internas, enquanto ao direito internacional a disciplina das rela-
ções entre os Estados. Já para a corrente monista, existe uma ordem jurídica 
única, onde coexistem o direito interno e o direito internacional. Há uma 
tendência geral para a adoção do monismo jurídico, oscilando as relações 
entre o Direito Constitucional e o Direito Internacional Público entre uma 
internacionalização do Direito Constitucional e uma constitucionalização do 
Direito Internacional. A polêmica que surge, todavia, diz respeito em saber 
qual o direito deve prevalecer, o direito interno ou o direito internacional. 
Entre nós, foi adotado um monismo moderado, de sorte que o tratado in-
ternacional (direito internacional) se incorpora ao direito interno com igual 
nível hierárquico da lei ordinária, sujeitando-se à regra geral de que a norma 
posterior prevalece (revoga) sobre a norma anterio~o. 
Entretanto, se o direito interno é a própria Constituição, o direito inter-
nacional não pode, em princípio, prevalecer. Assim, um tratado internacio-
naI- quando incorporado no direito brasileiro, só é válido se estiver em con-
sonância formal e material com a Constituição, pois, do contrário, é incons-
titucional, como entende o Supremo Tribunal Federal31\u2022 
30. "Com efeito, é pacífico na jurisprudência desta Corte que os tratados internacionais ingressam 
en: nosso ordenamento jurídico tão somente com força de lei ordinária (o que ficou ainda mais 
eVidente em face de o artigo 105, IlI, da Constituição que capitula, como caso de recurso especial a 
ser julgado pelo Superior Tribunal de Justiça como ocorre com relação à lei infra constitucional, a 
negativa de vigência de tratado ou a contrariedade a ele), não se lhes aplicando, quando tendo eles 
integrado nossa ordem jurídica posteriormente à Constituição de 1988, o disposto no artigo 5º, § 
2º, pela singela razão de que não se admite emenda constitucional realizada por meio de ratifica-
ção de tratado:' (HC 72.131, voto do ReI. pl o ac. Min. Moreira Alves, julgamento em 23-11-95 Df 
de 1 º-8-03). ' 
31. :'Pre~lência da Constituição, no Direito brasileiro, sobre quaisquer convenções internacionais, 
mclUldas as de proteção aos direitos humanos, que impede, no caso, a pretendida aplicação da 
norma do Pacto de São José: motivação. A Constituição do Brasil e as convenções internacionais de 
proteção aos direitos humanos: prevalência da Constituição que afasta a aplicabilidade das cláusu-
las convencionais antinômicas. ( ... ) Assim como não o afirma em relação às leis, a Constituição não 
precisou dizer-se sobreposta aos tratados: a hierarquia está ínsita em preceitos inequívocos seus, 
como os que submetem a aprovação e a promulgação das convenções ao processo legislativo dita-
d~ ~ela Constituição e menos exigente que o das emendas a ela e aquele que, em conseqüência, ex-
phcltamente admite o controle da constitucionalidade dos tratados (CF, art. 102, 1II, b). Alinhar-se 
ao consenso em torno da estatura infraconstitucional, na ordem positiva brasileira, dos tratados a 
ela incorporados, não implica assumir compromisso de logo com o entendimento - majoritário em 
recente decisão do STF (ADInMC 1.480) - que, mesmo em relação às convenções internacionais de 
proteção de direitos fundamentais, preserva a jurisprudência que a todos equipara hierarquica-
mente às leis ordinárias. Em relação ao ordenamento pátrio, de qualquer sorte, para dar a eficácia 
pretendida à cláusula do Pacto de São José, de garantia do duplo grau de jurisdição, não bastaria 
sequer lhe conceder o poder de aditar a Constituição, acrescentando-lhe limitação oponível à lei 
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Porém, é importante ressaltar que se os tratados e convenções interna-
cionais dispuserem sobre direitos humanos e forem aprovados, em cada Casa 
do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos res-
pectivos membros, serão eles equivalentes às emendas constitucionais, con-
forme a dicção do novo § 3º incluído no art. 5º por força da E.C. nº 45/2004. 
Isso significa que tais tratados ou convenções internacionais poderão até re-
vogar as normas constitucionais que lhes sejam contrárias. Para além disso, 
o novo § 4º do art. 5º, também incluído pela E.C. nº 45/2004, dispõe que o 
Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação 
tenha manifestado adesã032\u2022 
como é a tendência do relator: mais que isso, seria necessário emprestar à norma convencional 
força ab-rogante da Constituição mesma, quando não dinamitadoras do seu sistema, o que não é 
de admitir:' (RHC 79.785, ReI. Min. Sepúlveda Pertence, julgamento em 29-3-00, Dl de 22-11-02). 
No mesmo sentido: "Subordinação normativa dos tratados internacionais à Constituição da Repú-
blica. ( ... ) Controle de constitucionalidade de tratados internacionais no sistema jurídico brasileiro. 
(00') Paridade normativa entre atos internacionais e normas infraconstitucionais de direito interno. 
( ... )" (ADl1.480-MC, ReI. Min. Celso de Mello, julgamento em 4-9-97, Dl de 18-5-01). 
32. Cumpre registrar que, em sessão realizada em 03 de dezembro de 2008, o Supremo Tribunal Fede-
ral restringiu a prisão civil por dívida a inadimplente de pensão alimentícia. Por maioria, o Plenário 
do STF arquivou o Recurso Extraordinário n. 349703 e, por unanimidade, negou provimento ao 
Recurso Extraordinário n. 466343, que discutiam a prisão civil de alienante fiduciário infiel. O Ple-
nário estendeu a proibição de prisão civil por dívida, prevista no artigo 59, inciso LXVII, da Consti-
tuição Federal de 1988, à hipótese de infidelidade no depósito de bens e, por analogia, também à 
alienação fiduciária, tratada nos dois recursos. Assim, a jurisprudência da Corte evoluiu no sentido 
de que a prisão civil por dívida é aplicável apenas ao responsável pelo inadimplemento voluntário