Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


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na EC 45, que acrescentou o parágrafo 39 ao artigo 59 da CF. 
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A Constituição ainda trata dos princípios constitucionais que devem re-
ger o Estado brasileiro nas suas relações internacionais (art. 4º), além de 
dispor sobre o procedimento de incorporação dos tratados ou convenções 
internacionais na ordem jurídica interna (art. 49,1)33. 
5. RELAÇÕES DO DIREITO CONSTITUCIONAL COM DISCIPLINAS AFINS 
DE CARÁTER NÃO-JURíDICO 
a) O Direito Constitucional e a Teoria Geral do Estado 
O Direito Constitucional, como já se sublinhou, é o ramo do Direito PÚ-
blico que investiga, estuda e sistematiza os princípios e regras fundamentais 
da organização de um Estado determinado. Já a Teoria Geral do Estado, que 
não é propriamente um ramo do Direito, mas uma ciência política, examina 
o Estado em geral, o Estado como fato social e fenômeno político, nos seus 
elementos permanentes, quanto à natureza intrínseca, no tempo e no espa-
ço, indagando-lhe a origem e a finalidade, descrevendo a estrutura, forma e 
o funcionamento de seus órgãos34. 
Em síntese perfeita, Pinto Ferreira apresentou a seguinte distinção: "O 
direito constitucional é a ciência positiva das constituições, a Teoria Geral do 
Estado é a ciência positiva do Estado."35 
Enfim, a Teoria Geral do Estado desfruta de grande importância para o 
Direito Constitucional, na medida em que subsidia este ramo do Direito de 
dados relevantes sobre os problemas atinentes à vida política do Estado. 
b) O Direito Constitucional e a Sociologia 
São particularmente importantes as relações entre o Direito Constitucio-
nal e a Sociologia. O Direito Constitucional, nada obstante ramo do Direito, 
não limita a sua atenção ao estudo das normas jurídico-constitucionais, pois 
também se volta para o confronto e solução dos problemas sociais, de que 
33. "O exame da vigente Constituição Federal permite constatar que a execução dos tratados interna-
cionais e a sua incorporação à ordem jurídica interna decorrem, no sistema adotado pelo Brasil, 
de um ato subjetivamente complexo, resultante da conjugação de duas vontades homogêneas: a 
do Congresso Nacional, que resolve, definitivamente, mediante decreto legislativo, sobre tratados, 
acordos ou atos internacionais (CF, art. 49, I) e a do Presidente da República, que, além de poder 
celebrar esses atos de direito internacional (CF, art. 84, VIII), também dispõe - enquanto Chefe 
de Estado que é - da competência para promulgá-los mediante decreto. O iter procedimental de 
incorporação dos tratados internacionais - superadas as fases prévias da celebração da convenção 
internacional C ... ):' CADl1.480-MC, Rel.Min.Celso de Mello, julgamento em 4-9-97, Df de 18-5-01). 
34. AZAMBUJA, Darcy. Teoria Geral do Estado. 35ª ed., São Paulo: Ed. Globo, p. 09-10, 1996. 
35. Op. Cit., p. 48. 
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DIREITO CONSTITUCIONAL 71 
é exemplo a pretensão do Direito Constitucional de construir uma sociedade 
livre, justa e solidária (CF /88, art. 3º, I); e de erradicar a pobreza e a margi-
nalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais (CF /88, art. 3º, I1I). 
Para tanto, o Direito Constitucional vai buscar na Sociologia as possibili-
dades e limites de sua atuação no campo social. 
c) O Direito Constitucional e a Filosofia 
O Direito Constitucional talvez seja, entre os ramos do Direito, o que mais 
deve a Filosofia. De base nitidamente filosófica, o Direito Constitucional bus-
ca da Filosofia os esclarecimentos necessários sobre os valores que inspiram 
as organizações políticas e sobre as referências teóricas que lastreiam mui-
tos dos institutos que servem àquele ramo do Direito (Hermenêutica, por 
exemplo). 
d) O Direito Constitucional e a Economia 
No estágio atual, os problemas econômicos transformaram-se em pro-
blemas constitucionais, haja vista a preocupação crescente das Constituições 
contemporâneas na regulamentação das atividades econômicas. A Consti-
tuição Federal de 1988, por exemplo, dedicou um título inteiro (Título VII) 
para dispor juridicamente sobre a "Ordem Econômica e Financeira': fixando, 
logo no primeiro capítulo, os "Princípios Gerais da Atividade Econômica". 
A Economia, assim, é disciplina de importância ímpar para o Direito 
Constitucional, pois fornece a este ramo do Direito os conhecimentos neces-
sários para a compreensão da atividade econômica. 
6. FONTES DO DIREITO CONSTITUCIONAL 
Fonte, no sentido figurado, é tudo aquilo que origina ou produz; é ori-
gem, causa de alguma coisa. Por fonte do direito entende-se a nascente do 
Direito, sua procedência, que pode estar ligada a um fato social ou a um fato 
normativo, decorrendo daí, respectivamente, as espécies de fontes materiais 
e fontes formais. 
As fontes do Direito Constitucional são a origem e o manancial sociológi-
co (fontes materiais) e normativo (fontes formais) que compõem e dão vida 
a este superdireito. Podem se dividir em: fontes imediatas e fontes mediatas. 
Entre as fontes imediatas ( ou diretas) destacam-se, como não poderia 
deixar de ser, as Constituições. Alguns autores, com razão, ainda acrescentam 
os costumes. 
Entre as fontes mediatas ( ou indiretas), figuram a jurisprudência e a 
doutrina. 
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A Constituição é, inegavelmente, a maior e principal fonte do Direito 
Constitucional, pois é ela que estabelece os fundamentos de organização p~­
lítica, social e jurídica do Estado, a sua base essencial, fornecendo. a ~~te­
ria prima que alimenta o Direito Constitucional e consolida esta dIscIplma 
como tronco de todo o sistema jurídico. 
De importância ímpar para o Direito Constitucional também se afigura o 
costume36, principalmente nos Estados que adotam Constituição não-escri-
ta, como na Inglaterra, onde os costumes constitucionais representa~ a.s~a 
principâl característica. Mas mesmo nos Países que possuem ConstituIçao 
escrita o costume tem se demonstrado uma relevante fonte para o Direito 
Constitucional, na medida em que pode servir de orientação para o consti-
tuinte e para o intérprete da Constituição, chegando alguns autores, com? 
Duverger, a admitir que ele pode completar e modificar as normas consti-
tucionais. 
A jurisprudência constitucional, ou seja, as de~isões reit~r~das e ~ni­
formes dos tribunais constitucionais sobre determmada matena constitu-
cional, tem contribuído, nas últimas décadas, para uma reformulação, sem 
precedentes, do Direito Constitucional. Não é mais novidade alguma a im-
portância das decisões das cortes ou tribunais constitucionais para a. a~­
alização e oxigenação do Direito Constitucional, chegando estas decIsoes 
a provocar alterações informais na Constituição, fenômeno conhecido por 
mutação constitucional. Ficou, a propósito, muita conhecida a frase procla-
mada pelo Juiz Hughes da Suprema Corte norte-americana: "We are under a 
Constitution but the Constitution is what the judges say it is"37 (Nós estamos 
sob uma Constituição mas a Constituição é o que os juízes dizem que é). No 
mesmo sentido as lições de Humberto Quiroga Lavié38 para quem as Cor-
tes Constitucionais, no exercício da jurisdição constitucional, são um poder 
constituinte em sessão permanente. 
Finalmente a doutrina constitucional tem desenvolvido destacada influ-
ência na form;ção do Direito Constitucional, através das obras dos consti-
tucionalistas, cujas idéias, para além de explicar a Constituição, subsidiam 
a jurisprudência e animam a sua constante atualização, concorrendo para a 
construção teórica dos temas e instituições constitucionais. 
36. Corno se sabe, o costume é formado a partir da prática reiterada de certos atos e compo:mme~tos 
que induz urna coletividade à convicção e certeza de que tais atos e comportamentos :ao efe~va­
mente necessários às relações da vida social, restando, ao