Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


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final, consagrados pela sançao cole?~. 
37. Charles E. Hughes, Speech, Elmira, New York, May, 3, 1907, apud CANOTILHO, J. J. Gomes. DIreIto 
Constitucional e Teoria da Constituição, op. cit., p. 20. 
38. Lecciones de Derecho Constitucional, p. 01. 
CAPfTULO 111 
TEORIA DA CONSTITUIÇÃO 
Sumário. 1. Considerações acerca do vocábulo "Constituição" - 2. Origem e conceito de Consti-
tuição: 2.1. Origem; 2.2. Conceito - 3. Concepções sobre a Constituição: 3.1. A concepção socio-
lógica. 3.2. A concepção política; 3.3. A concepção jurídica; 3.4. A concepção cultural (conexão 
das concepções anteriores) - 4. Supremacia da Constituição - S. A unidade normativa da Consti-
tuição - 6. Objeto e conteúdo das Constituições - 7. Classificação das Constituições: 7.1. Quanto 
ao conteúdo: Material e Formal; 7.2. Quanto à forma: Escrita e Não-Escrita; 7.3. Quanto à origem: 
Democrática e Outorgada; 7.4. Quanto à estabilidade ou consistência ou mutabilidade: Imutável, 
Fixa, Rfgida, Flexível e Semi-rígida ou Semiflexfvel;7.5. Quanto à extensão: Sintética e Analftica; 7.6. 
Quanto à finalidade: Garantia e Dirigente; 7.7. Quanto ao modo de elaboração: Dogmática e Histó-
rica; 7.8. Quanto à ideologia: Ortodoxa e Ec/ética; 7.9. Quanto ao modo de ser (classificação onto-
lógica): Normativa, Nominal e Semântica; 7.1 O. Classificação da Constituição brasileira de 1988 - 8. 
Estrutura das Constituições - 9. Elementos das Constituições - 10. A Constituição Dirigente - 11. 
A Constituição brasileira de 1988. 
1. CONSIDERAÇÕES ACERCA DO VOCÃBULO "CONSTITUiÇÃO" 
Os autores são unânimes em apontar para o equívoco do vocábulo 
"Constituição': dado seu caráter polissêmico, o que dificulta, sobremodo, mi-
nistrar-lhe um conceito seguro e preciso. Num sentido vulgar, pode-se dizer 
que o vocábulo "Constituição" significa o modo pelo qual se constitui uma 
coisa, um ser vivo, um grupo de pessoas; significa organização, formação. 
Nessa acepção geral, qualquer homem e qualquer objeto, qualquer estabe-
lecimento ou associação, enfim, qualquer coisa tem uma constituição e se 
encontra, de alguma maneira, constituída, formada ou organizada. Vejamos 
como reage a doutrina em face dessa diversidade de sentidos e como pode-
mos superar tal equívoco vocabular. 
Para José Monso da Silva!, o vocábulo constituição é empregado com vá-
rios significados, tais como: (a) "Conjunto dos elementos essenciais de al-
guma coisa: a constituição do universo, a constituição dos corpos sólidos"; 
(b) "Temperamento, compleição do corpo humano: uma constituição psi-
cológica explosiva, uma constituição robusta"; (c) "Organização, formação: 
a constituição de uma assembléia, a constituição de uma comissão"; (d) "O 
ato de estabelecer juridicamente: a constituição de dote, de renda, de uma 
sociedade anônima"; (e) "Conjunto de normas que regem uma corporação, 
uma instituição: a constituição da propriedade" e, finalmente, como (f) "A lei 
fundamental de um Estado". Para o citado autor, todas essas acepções são 
1. SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo, p. 39. 
74 DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
análogas, pois exprimem a "idéia de modo de ser de alguma coisa e, por ex-
tensão, a de organização interna de seres e entidades. Nesse sentido é que se 
diz que todo Estado tem constituição, que é o simples modo de ser do Estado".2 
Luiz Alberto David Araujo e Vidal Serrano Nunes Júnior também ad-
vertem para o equívoco do termo, ao sublinhar que o vocábulo constituição 
apresenta sentido equívoco. "Sua origem remonta ao verbo constituir, que 
tem o significado de 'ser a base de; a parte essencial de; formar, compor', 
empregado em expressões triviais, como a constituição de uma cadeira ou a 
constituição de uma mesa".3 . 
Para Celso Ribeiro Bastos, propor um conceito de Constituição não é 
uma tarefa fácil de ser cumprida, em razão de esse termo ser equívoco e, 
portanto, prestar-se a mais de um sentido4. Assim, consoante leciona o sau-
doso autor, Constituição significa, numa acepção ampla, "a maneira de ser 
de qualquer coisa, sua particular estrutura. Nessa acepção, todo e qualquer 
ente tem a sua própria constituição. Fala-se, assim, da constituição de uma 
cadeira, de um planeta, do homem".s 
Nesse mesmo sentido, Paulo Bonavides também professa que o vocá-
bulo constituição abrange toda uma gradação de significados, desde o mais 
amplo possível - a Constituição em sentido etimológico, ou seja, relativo ao 
modo de ser das coisas, sua essência e qualidades distintivas - até este outro 
em que a expressão se delimita pelo adjetivo que a qualifica, a saber, a Cons-
tituição política do Estado, objeto aqui de exame6. 
Manoel Gonçalves Ferreira Filho é de mesma opinião, quando sustenta 
que a primeira observação que fez a doutrina "foi a de que o termo 'Consti-
tuição' é análogo, tendo ao lado de um sentido genérico outros que com este 
de algum modo se ligam"? Assim, adverte o autor que, num sentido geral, 
Constituição é a organização de alguma coisa, de modo que, em tal acepção, 
o termo não pertence apenas ao vocábulo do Direito Público. Assim concei-
tuado, o termo se aplica a todo grupo, a toda sociedade, a todo Estado. Indica 
a natureza peculiar de cada Estado, aquilo que faz este ser o que é. Nesse 
sentido geral, jamais houve e nunca haverá Estado sem Constituição8. 
Empregado ao Estado, esclarece o citado autor que o termo 'Constitui-
ção', em sua acepção geral, pode designar a sua organização fundamental 
2. Ibidem, mesma página. 
3. ARAUJO, Luiz Alberto David e NUNES JÚNIOR, Vidal Serrano. Curso de Direito Constitucional, p. 01. 
4. BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de Direito Constitucional, p. 41. 
5. Ibidem, p. 42. 
6. BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional, p. 63. 
7. FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. op. cit., p. 10. 
8. Ibidem, p. 10/11. 
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TEORIA DA CONSTITUIÇÃO 75 
total, quer social, quer política, quer jurídica, quer econômica, falando-se 
nesse sentido de Constituição total ou integral9. 
Evidentemente que, para se dissipar o equívoco, é necessário isolar o 
termo 'Constituição: empregando-o exclusivamente ao Estado. Ainda assim, 
vai-se perceber que o conceito de Constituição estatal ou Constituição do Es-
tado desafia uma abordagem plurívoca, haja vista que ela pode se apresen-
tar sob variados sentidos e significados, consoante a teoria constitucional 
que se adota. Assim, a Constituição pode apresentar-se como a "garantia do 
status quo econômico e social" (Ernst Forsthoftl°); como um "instrumento 
de governo" cw. Hennisll); como "processo público" (Peter Hãberle12); como 
"conjunto de normas constitutivas para a identidade de uma ordem político-
-social e do seu processo de realização" (Bãumlin13); como "elemento regu-
lativo do sistema político da sociedade" ou como "acoplamento estrutural 
entre o sistema político e o sistema jurídico enquanto subsistemas do siste-
ma social" (Niklas Luhmann14); como "programa de integração e de repre-
sentação nacional" (H. Krüger1S); como "ordem jurídica do processo de inte-
gração estatal" (R Smend16); como "ordem jurídica fundamental do Estado" 
cw. Kagi17); como "limitação e racionalização do poder e como garantia de 
um livre processo da vida política" (H. EHMKE18); como "ordem jurídica fun-
damental, material e aberta de uma comunidade" (Konrad Hesse19); como 
"legitimação do poder soberano segundo a idéia de Direito" (G. Burdeau20), 
entre outros significados. 
9. 
10. 
11. 
12. 
13. 
14. 
15. 
16. 
17. 
18. 
19. 
20. 
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves, op. cit., p. 11. 
Der Totale Staat; Der Staat der Industriegesellschaft; Verwaltung und Verwaltungsrecht; Verfassun-
gsprobleme; Verfassungswidrigkeit; Das Politische Problem, Rechtsstaat im Wandel, entre outras 
obras,