Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

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ou menor) de eficácia imediata que a norma constitucional está capacitada 
a produzir. 
A unidade normativa da Constituição é importante, na medida em que 
o descumprimento de uma norma constitucional põe em perigo a própria 
unidade do texto magno. Assim, a garantia da supremacia de uma norma 
constitucional proporciona a garantia da própria Constituição. 
6. OBJETO E CONTEÚDO DAS CONSTITUiÇÕES 
O objeto e conteúdo mínimo de toda Constituição é a organização fun-
damental do Estado. Nesse contexto, toda Constituição, em qualquer época 
e em qualquer lugar, tem por objeto o Estado, dispondo a fixar-lhe os fun-
damentos de sua organização. Esse objeto, porém, mantido aquele conteúdo 
mínimo, pode variar de tempo (objeto de diferentes constituições do mesmo 
Estado) e espaço (objeto de constituições vigentes de Estados distintos). 
O objeto das Constituições vem crescendo, acompanhando a evolução 
social humana, não permanecendo estático. Para se ter uma idéia de como 
isso funciona, basta invocarmos dois exemplos: a Constituição de 1988 e a 
Constituição de 1891. A Constituição de 1988 tem por objeto, entre outros, 
definir os fins sociais e econômicos do Estado. A Constituição de 1891 se-
quer dispunha sobre uma ordem econômica e social, tendo, portanto, um 
objeto menor. Assim, quanto maior for a função e atividade do Estado, maior 
será o objeto de sua Constituição. 
As Constituições contemporâneas tendem a constitucionalizar um 
maior número de matérias, ampliando os seus conteúdos, sendo essa si-
tuação uma de suas notas características. A ampliação do conteúdo das 
Constituições suscitou a distinção muito conhecida entre Constituição em 
sentido material e Constituição em sentido formal. Com efeito, a Constitui-
ção em sentido material é aquela cujo conteúdo se limita à regulamentação 
fundamental do Estado (forma de Estado, forma de Governo, regime políti-
co, organização, atribuições e limites do poder, direitos e garantias funda-
mentais); enquanto a Constituição em sentido formal é aquela de conteúdo 
mais amplo, que compreende, além do conteúdo próprio da Constituição 
constitucionais, nesta ordem decrescente: princípios estruturantes, princípios gerais e princípios 
específicos. Nesse sentido, CANOTILHO, ).). Gomes. Direito Constitucional e teoria da Constituição; 
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional; BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplica-
ção da Constituição, entre outros. 
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118 DIRLEY DA CUNHA JÓNIOR 
em sentido material, todas as demais matérias que passarem a integrar o 
seu texto. Essa distinção, todavia, não se reveste mais de qualquer sentido e 
importância, não só porque as Constituições atuais assumiram a preocupa-
ção de regulamentar a vida total do Estado e da Sociedade, como também 
em razão da contínua ampliação das funções do Estado numa sociedade 
complexa, plural e aberta. 
Assim, as Constituições contemporâneas, entre as quais é exemplo a 
Constituição Federal de 1988, têm por objeto definir a estrutura do Estado, 
os seus princípios fundamentais e a organização do poder político; disci-
plinar o modo de aquisição, a forma de exercício e os limites de atuação do 
poder político; declarar os direitos e garantias fundamentais; estabelecer as 
principais regras de convivência social e implementar a idéia de Direito a 
inspirar todo o sistema jurídico; fixar os fins sócio-econômicos do Estado e 
as bases da Ordem Econômica e Social. 
7. CLASSIFICAÇÃO DAS CONSTITUiÇÕES 
As Constituições nem sempre se apresentam de maneira idêntica, seja 
no domínio do mesmo Estado, seja entre Estados distintos. Ora, as Constitui-
ções brasileiras de 1988 e 1967 não são iguais; basta ressaltar que enquanto 
a Constituição de 1988 tem origem democrática, a Constituição de 1967 teve 
procedência autoritária. A Constituição brasileira de 1988, por outro lado, 
não é igual à Constituição dos E.U.A. (1787), nem esta é igual à Constituição 
da Inglaterra. 
Vem daí a importância em classificar as Constituições, visando identifi-
car os seus vários tipos ou espécies. Destarte, as Constituições podem apre-
sentar-se segundo o conteúdo, aforma, a origem, a estabilidade, a extensão, 
afinalidade, ao modo de elaboração, a ideologia, a sua maneira de ser, entre 
outros critérios. Vários autores têm debatido sobre os diversos modos de 
classificar as Constituições, não havendo, portanto, uniformidade de enten-
dimento acerca do tema. Procuraremos, abaixo, declinar os principais tipos 
de Constituição, segundo as diversas formas de classificação. 
7.1. Quanto ao conteúdo: Material e Formal 
a) Constituição material 
A Constituição material é o conjunto de normas, escritas ou não escritas 
( costumeiras), que regulam a estrutura do Estado, a organização do poder e 
os direitos e garantias fundamentais, inseridas ou não no texto escrito. Isto 
é, só é Constituição material aquele conjunto de normas que se limitam a 
TEORIA DA CONSTITUIÇÃO 119 
dispor sobre matéria essencialmente constitucional, que são aquelas que se 
revestem de maior importância tendo em vista se relacionarem aos pontos 
cardeais de existência do Estado, pouco importando a forma dessa dispo-
sição (se por escrito ou por meio de costumes). O fundamental é a matéria 
ou conteúdo objeto da norma, sendo irrelevante a localização desta. Se se 
refere a aspecto fundamental do Estado, temos uma norma materialmente 
constitucional. 
Como assinala Paulo Bonavides, "Do ponto de vista material, a Constitui-
ção é o conjunto de normas pertinentes à organização do poder, à distribui-
ção da competência, ao exercício da autoridade, à forma de governo, aos di-
reitos da pessoa humana, tanto individuais e sociais. Tudo quanto for, enfim, 
conteúdo básico referente à composição e ao funcionamento da ordem po-
lítica exprime o aspecto material da Constituição:'149 Sob esse aspecto mate-
rial, todo Estado terá sua Constituição. A Constituição material corresponde 
ao conceito de Constituição política, ministrado por Carl Schmitt e examina-
do linhas atrás. Na Constituição brasileira de 1988, podemos dizer que são 
normas materialmente constitucionais as constantes, por exemplo, do título 
I (princípios fundamentais), título 11 (direitos e garantias fundamentais), tí-
tulo III (organização do Estado) e título IV (organização dos poderes). 
b) Constituição formal 
A Constituição formal é o conjunto de normas escritas reunidas num 
documento solenemente elaborado pelo poder constituinte, tenham ou não 
valor constitucional material, ou seja, digam ou não respeito às matérias ti-
picamente constitucionais (estrutura do Estado, a organização do poder e 
os direitos e garantias fundamentais). O que se afigura relevante aqui é a 
formalidade que caracteriza essas normas. São elas provenientes do poder 
constituinte e só podem ser modificadas ou revogadas por processos e for-
malidades especiais estabelecidos na própria Constituição. Só são constitu-
cionais pelo simples fato de aderirem ao texto da Constituição. 
A Constituição formal corresponde ao conceito dado por Schmitt à lei 
constitucional. Como afirma Manoel Gonçalves Ferreira Filho, "A inclusão 
dessas regras de conteúdo não constitucional no corpo da Constituição es-
crita visa especialmente a sublinhar a sua importância. E, quando esta Cons-
tituição é rígida, fazê-las gozar da estabilidade que a referida Constituição 
rígida confere a todas as suas normas:'150 
149. BONAVIDES, Paulo. op. cit., p. 63. 
150. FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves, op. cit., p. 12. 
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120 DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
Entretanto, como anota Michel Temer151, à luz da Constituição Federal 
de 1988 é irrelevante essa classificação, tendo em vista que,