Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


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de serem normas materiais ou formais, ambas têm igual hierarquia, produ-
zem os mesmos efeitos e só podem ser alteradas segundo o rígido proces-
so tracejado no texto constitucional onde coabitam. Ou seja, têm a mesma 
dignidade normativo-constitucional. Ademais, acrescente-se que as Consti-
tuições republicanas abandonaram a regra do art. 178 da Carta do Império 
(1824), segundo a qual "É só Constitucional o que diz respeito aos limites, e 
atribuições respectivas dos Poderes Políticos, e aos Direitos Políticos, e indivi-
duais dos Cidadãos. Tudo o que não é Constitucional, pode ser alterado sem as 
formalidades referidas, pelas Legislaturas ordinárias". 
7.2. Quanto à forma: Escrita e Não-Escrita 
a) Constituição escrita 
Constituição escrita, ou instrumental, é aquela cujas normas - todas es-
critas - são codificadas e sistematizadas em texto único e solene, elaborado 
racionalmente por um órgão constituinte. Vale dizer, cuida-se da Constitui-
ção em que as suas normas são documentadas em um único instrumento 
legislativo, com força constitucional. 
A Constituição escrita é produto das revoluções liberais do século XVIII, 
que reivindicaram a consolidação de seus objetivos de liberdade e limitação 
do poder em texto escrito e solene, pois essa seria a única forma capaz de 
assegurar certeza, clareza e precisão de seu conteúdo e garantir segurança 
aos governados contra o abuso dos governantes. 
Constituição dos EUA de 1787 e a Constituição da França de 1791 foram 
as primeiras Constituições escritas do mundo. 
b) Constituição não-escrita ou costumeira 
Contrário sensu, Constituição não-escrita, ou costumeira, é aquela cujas 
normas não estão plasmadas em texto único, mas que se revelam através dos 
costumes, da jurisprudência e até mesmo em textos constitucionais escritos, 
porém esparsos, como é exemplo a Constituição da Inglaterra. É importante 
notar que não existe Constituição inteiramente não-escrita ou costumeira, 
pois sempre haverá normas escritas compondo o seu conteúdo. A Constitui-
ção inglesa, por exemplo, compreende importantes textos escritos, mas es-
parsos no tempo e no espaço, como a Magna Carta (1251), oPetition ofRights 
(1628), o Habeas Corpus Act (1679), o Bill of Rights (1689), entre outros. 
151. Op. cit. 
TEORIA DA CONSTITUIÇÃO 121 
As ~onstitui?õ~s ~ão-esc:itas ou costumeiras sempre existiram e prece-
deram as CO~Stitulçoes escntas, perdendo a primazia, entretanto, a partir 
do final do seculo XVIII. 
Em suma, as Constituições escritas e não-escritas distinguem-se funda-
men~m_ente po~qu.e, enquanto aquelas são elaboradas em documento único 
pelo orgao constitumte, estas são impostas pela prática ou pelos costumes. 
7.3. Quanto à origem: Democrática e Outorgada 
a) Constituição democrática (ou promulgada ou popular ou votada) 
. Constituição democrá~ca é aquela elaborada por representantes legí-
ti~OS do pov~,.que compoem, por eleição, um órgão constituinte. Na sua 
ongem se venfica a efetiva participação popular, sendo fruto da soberana 
manifestação de vontade de um povo, que elege com liberdade os seus re-
pres~nt:ntes para a tarefa fundamental de elaborar uma Constituição. No 
BrasIl, sao e~~mplos ~e ~onstituição democrática, que foram promulgadas 
por Assemblela Constitumte, as Constituições de 1891, 1934, 1946 e 1988. 
b) Constituição outorgada 
Já a Cons~~içã~ outorgada,é aquela cuja elaboração se processa sem 
qu~quer particlpaçao do povo. E fruto do autoritarismo, do abuso, da usur-
paçao do poder constituinte do povo. São impostas pelo governante e nor-
malme~te são designadas pela doutrina de Cartas. No Brasil, são exemplos 
deste tipo ~e C~nstituição, as Cartas de 1824 (outorgada pelo imperado D. 
P~dro I, apos dIssolver a Assembléia Constituinte), de 1937 (imposta pela 
dItadura de Getúlio Vargas) e 1967/69 (outorgadas por juntas militares). 
_ Existe~, ainda, segundo José Monso da Silva152, as chamadas constitui-
Ç?~S ce!anstas, que são aquelas que, não obstante impostas, dependem da ra-
ti~ca,çao pop~a.r por meio de referendo. A participação popular, nesse caso, 
nao e democratica, pois visa tão-somente ratificar a vontade do detentor do 
poder (Ex.: plebiscitos napoleônicos; e plebiscito de Pinochet, no Chile). 
c) Constituição pactuada 
. ~ Co?stituição pactuada é aquela que oficializa um compromisso polí-
tico mstável de duas forças políticas opostas: a realeza absoluta debilitada, 
de um lado, e a nobreza e a burguesia, em ascensão, de outro. Surge, assim, 
como termo dessa relação de equilíbrio a monarquia limitada. Exa.: a Magna 
152. Op. cit. 
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122 DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
Carta (1215); a Constituição francesa de 1791; o Bill of Rights (1689); as 
Constituições da Espanha de 1845 e 1876; a Constituição da Grécia de 1844 
e a Constituição da Bulgária de 1879.153 
7.4. Quanto à estabilidade ou consistência ou mutabilidade: Imutável, 
Fixa, Rígida, Flexível e Semi-rígida ou Semiflexível 
a) Constituição imutável 
A Constituição imutável é aquela que não prevê nenhum processo de al-
teração de suas normas, sob o fundamento de que a vontade do poder cons-
tituinte exaure-se com a manifestação da atividade originária. Em termos 
de constituição escrita, não há exemplos hoje de Constituição imutável, não 
passando este tipo de Constituição de simples lembranças históricas. 
De fato, como já examinado neste Curso, as Constituições existem para 
regular e dinamizar os aspectos fundamentais da realidade social, que é 
sempre cambiante. Tal circunstância não só autoriza como impõe a altera-
ção das Constituições em face da necessidade de harmonizá-las com as no-
vas exigências da sociedade, que é a sua maior destinatária. Uma Constitui-
ção imutável, decerto, embaraçaria o desenvolvimento da própria vida em 
sociedade implicando em retrocesso. 
Mas é certo lembrar que a Constituição é a base fundamental do Estado e 
por isso mesmo deve gozar de certa estabilidade, uma vez que a instabilida-
de de uma Constituição pode reverter-se na própria instabilidade do Estado 
que regula. Porém, estabilidade não pode significar imutabilidade constitu-
cional, pois, como reiteradamente já sustentamos, a Constituição deve guar-
dar íntima relação dialética ou de interação com a realidade político-social 
de seu tempo, sob pena de esvaecer a sua força normativa e de instrumento 
de desenvolvimento e justiça social. 
Todavia, cumpre lembrar que a Constituição do Império do Brasil (1824) 
foi provisoriamente imutável, pelo período de quatro anos após a sua ou-
torga, tendo em vista o que previa o seu art. 174: "Se passados quatro anos, 
depois de jurada a Constituição do Brasil, se conhecer, que algum dos seus 
artigos merece reforma, se fará a proposição por escrito, a qual deve ter ori-
gem na Câmara dos Deputados, e ser apoiada pela terça parte deles". 
b) Constituição fixa 
Diz-se daquela que só pode ser alterada pelo próprio poder constituinte 
originário, circunstância que implica, não em alteração, mas em elaboração, 
153. BONAVIDES, Paulo. op. cito 
- I 
TEORIA DA CONSTITUIÇÃO 123 
propriamente, de uma nova ordem constitucional. Também não se tem re-
gistro desse tipo de Constituição, diante, certamente, das dificuldades, e fal-
ta de sentido, de se convocar o poder constituinte originário toda vez que se 
pretender alterar a Constituição. 
c) Constituição rígida 
Foi o Lord James Bryce quem apresentou uma distinção entre Constitui-
ção rígida e Constituição flexível. 
Constituição rígida é aquela que não pode ser alterada com a mesma 
simplicidade com que se modifica uma lei. Caracteriza-se por estabelecer 
e