Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


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so-
cial do século XX, que provocou a evolução do modelo de Estado, de Estado 
liberal (passivo) para Estado social (intervencionista). Observa Canotilho 
que a Constituição dirigente se volta à garantia do existente, aliada à insti-
tuição de um programa ou linha de direção para o futuro, sendo estas as suas 
duas finalidades. 
Com efeito, não basta considerar a Constituição como uma ordem nor-
mativa de organização, em que se determinam vinculativamente as compe-
tências, formas e processos do exercício de um poder racionalizado e limita-
do. Para além disso, é necessário relacionar essas "competências", "formas" 
e "processos" com determinados fins, pois só assim a Constituição alcançará 
dignidade material, superando definitivamente as seqüelas de descrédito 
do Estado de Direito Formal. Ela deve ser considerada, portanto, como uma 
ordem fundamental material, que pressupõe uma dimensão constitucional-
-constituinte, mista de ordem e programa de ação. O sentido normativo da 
Constituição dirigente concebe-se como prospectivamente orientado, abrin-
do via ao futuro156\u2022 Nessa perspectiva - afirma Canotilho - "a lei fundamental 
é 'esboço de uma via' e algo de 'desejado' e não apenas um estatuto 'confir-
mante ou garantidor do existente"'.157 
7.7. Quanto ao modo de elaboração: Dogmática e Histórica 
a) Constituição dogmática (ou sistemática) 
A Constituição dogmática, também denominada de sistemática, consis-
te num documento escrito e sistematizado, elaborado por um órgão consti-
tuinte em determinado momento da história político-constitucional de um 
País, a partir de dogmas ou idéias fundamentais da ciência política e do di-
reito dominantes na ocasião. 
156. Constituição dirigente ...\u2022 op. cit .\u2022 p. 151-152. 
157. Ibidem. p. 153. 
TEORIA DA CONSTITUIÇÃO 127 
Este modelo de Constituição coincide com as Constituições escritas. De 
fato, a Constituição dogmática é assim denominada em razão dela consoli-
dar em seu texto escrito os dogmas ou princípios fundamentais vigentes no 
momento em que elaborada. 
b) Constituição histórica 
A Constituição histórica, sempre não escrita, é aquela cuja elaboração 
é lenta e ocorre sob o influxo dos costumes e das transformações sociais. A 
sua formação resulta da demorada e contínua evolução histórica das tradi-
ções de um determinado povo, que se protrai no tempo. Exemplo maior de 
Constituição histórica é a Constituição Inglesa. 
7.8. Quanto à ideologia: Ortodoxa e Eclética 
a) Constituição ortodoxa 
Constituição ortodoxa é aquela que resulta da consagração de uma só 
ideologia. São exemplos dela as Constituições da União Soviética de 1923, 
1936 e 1977. 
b) Constituição eclética (ou pluralista) 
Já a Constituição eclética, ou pluralista, é aquela que logra contemplar, 
plural e democraticamente, várias ideologias aparentemente contrapostas, 
conciliando as idéias que permearam as discussões na Assembléia Consti-
tuinte. 
É exemplo de Constituição eclética, a Constituição brasileira de 1988, 
que adotou, como fundamento do Estado, o princípio do pluralismo político 
(art. 1º, V). 
7.9. Quanto ao modo de ser (classificação ontológica): Normativa, Nomi-
nal e Semântica 
Esta classificação "ontológica" foi apresentada pelo autor alemão Karl 
Loewenstein158 levando em consideração a eficácia das Constituições em 
face da realidade. Assim, segundo ele, as Constituições podem se apresen-
tar, ante a realidade, como: a) Constituição normativa (com valor jurídico); 
b) Constituição nominal (sem valor jurídico, uma constituição de fachada), 
e c) Constituição semântica (utilizada apenas para justificar juridicamente 
o exercício autoritário do poder, como, por ex, a Constituição brasileira de 
1937). 
158. Teoría de la Constitución, p. 216-222. 
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128 DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
Segundo Loewenstein, a Constituição normativa é aquela cujas normas 
dominam o processo político, ou seja, logram submeter o processo político à 
observância e adaptação de seus termos. Utilizando uma expressão da vida 
cotidiana, diz o autor: '1a constitución es como un traje que sienta bien y que 
se lleva realmente". 
A Constituição, por outro lado, será qualificada de nominal, se a dinâmica 
do processo político não se adaptar à suas normas, ou seja, quando não hou-
ver uma concordância absoluta entre as normas constitucionais e as exigên-
cias do processo político. Isso se deve, acentua Loewenstein, provavelmente 
ao fato de que a decisão que conduziu à promulgação da Constituição foi 
prematura, de modo que a esperança, nada obstante, persiste de que, cedo 
ou tarde, a realidade da vida política corresponda ao modelo fixado na Cons-
tituição, convertendo-se em Constituição normativa. Já aqui, diz o autor, "el 
traje cuelga durante cierto tiempo en el armário y será puesto cuando el 
cuerpo nacional haya crecido". 
Finalmente, a Constituição semântica é aquela que em "su realidad onto-
lógica no es sino la formalización de la existente situación deI poder político 
en beneficio exclusivo de los detentores deI poder fácticos que disponen deI 
aparato coactivo deI Estado". A Constituição semântica, ao invés de ser con-
cebida como um instrumento de limitação do poder, apresenta-se como um 
instrumento a serviço do poder, de modo a estabilizar e eternizar a interven-
ção dos dominadores fáticos do poder político. Nesse tipo de Constituição, 
"el traje no es en absoluto un traje, sino un disfaz". 
7.10. Classificação da Constituição brasileira de 1988 
A Constituição brasileira de 1988 é formal, quanto ao conteúdo; escrita, 
quanto à forma; democrática, quanto à origem; rígida, quanto à consistência; 
analítica, quanto à extensão; dirigente ou social, quanto à finalidade; dogmá-
tica, quanto ao modo de elaboração; eclética, quanto à ideologia; e normati-
va, quanto ao modo de ser. 
8. ESTRUTURA DAS CONSTITUiÇÕES 
As Constituições, de um modo geral, apresentam a seguinte estrutura: 
a) O Preâmbulo 
O preâmbulo da Constituição é a parte precedente do texto constitucio-
nal que sintetiza a carga ideológica que permeou todo o documento consti-
tucional, prenunciando os valores que a Constituição adota e objetivos aos 
quais ela está vinculada. 
TEORIA DA CONSTITUIÇÃO 129 
Em que pese a existência de grande divergência doutrinária a respeito, 
entende~os que o preâmbulo tem eficácia normativa, pois é, tecnicamen-
te, parte mtegrante da Constituição, quando esta obviamente o contém 
u~a ~!z qu; nem .toda Constituição o prevê. O ilustrado Professor Edvald~ 
Bn~o ,apos regIstrar a sua opinião em favor da eficácia normativa do 
preambulo, entendendo-o como "núncio das circunstâncias em que me-
dro_u ,~ Cons~tuição j~rÍ~ic~ e ou a de fonte da validez da sua interpre-
taçao: menCIOna a eXIstencIa de profunda divergência doutrinária a esse 
respeIto. Dest~ca. o~ autor~s q~e defendem a função normativa do preâm-
bulo da COnStituIçao, quaIS sejam: Aristides Milton, Carlos Maximiliano, 
Joao Ba~b.alho, José Duarte, Geordes VedeI, Geordes Burdeau, Giuseppe de 
Vergo~m, Story; Juan Ferrando Badia, Jorge Miranda e Josaphat Marinho. 
E declma os autores que pensam o contrário: Aurelino Leal Corwin Kel-
sen, Paulo Bonavides. ' , 
. ? S;tp~emo Tribunal Federal, contudo, firmou sua posição no sentido da 
mexlstenC!a de força obrigatória do preâmbulo da Constituição, limitando a 
reconhece-lo como um importante vetor para soluções interpretativas. Na 
~IN 2.076-AC, ReI. !"1in. Carlos Velloso, DJU de 23.8.2002, o Tribunal julgou 
Imp!ocedente o pedIdo formulado pelo Partido Social Liberal- PSL contra o 
pre.amb~lo da Constituição