Curso de Direito Constitucional   Dirley Cunha

Curso de Direito Constitucional Dirley Cunha


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do Estado do Acre, em que se alegava a inconsti-
tucIOnalI~ade por omissão da expressão "sob a proteção de Deus", constan-
te do preamAbulo da CF /88. Considerou-se que a invocação da proteção de 
Deus n_o preambulo da Constituição não tem força normativa, afastando-se a 
~egaçao de que a expressão em causa seria norma de reprodução obrigató-
na pelos Estados-membros. 
b) A Parte Dogmática 
, A parte dogmática da Constituição é o seu texto articulado, que acolhe e 
reune os :tirei:os civis, políticos, sociais e econômicos, que, modernamente, 
por ela sao veIculados. Na Constituição Federal de 1988, podemos afirmar 
que a parte dogmática coincide com o seu corpo permanente, que vai atu-
almente, do art. 1º ao art. 250, uma vez que todo este seu texto articul~do é 
repositório dos mais diversos direitos e garantias. 
c) As Disposições Transitórias 
. Cuida-se da parte transitória da Constituição, que têm por finalidade, ba-
sI:amen:e, ~ealizar a integração entre a nova ordem constitucional e a que 
fOI SUbStituIda (exemplo, CF /88, art. 25 do ADCT: "Ficam revogados, a partir 
159. Limites da Revisão Constitucional, p. 38-39. 
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130 
DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
de cento e oitenta dias da promulgação da Constituição, sujeito este prazo a 
prorrogação por lei, todos os dispositivos legais que atribuam ou deleguem 
a órgão do Poder Executivo competência assinalada pela Constituição ao 
Congresso Nacional, [ ... ]") ou disciplinar provisoriamente sobre determina-
das situações enquanto não regulamentas em definitivo por leis (exemplo, 
CF /88, art. 10 do ADCT: "Até que seja promulgada a lei complementar a que 
se refere o art. 7Q, I, da Constituição: 1 - fica limitada a proteção nele referida 
ao aumento, para quatro vezes, da porcentagem prevista no art. 6Q, "caput" e 
§ 1 Q, da Lei nQ 5.107, de 13 de setembro de 1966 [ ... ]"). 
9. ELEMENTOS DAS CONSTITUiÇÕES 
As Constituições, nada obstante se apresentem como um todo unitário 
e orgânico, contêm normas que incidem sobre as mais variadas matérias e 
que têm finalidades diversas. Em razão disso, tem-se afirmado que as Cons-
tituições têm caráter polifacético, possibilitando que a doutrina distinga, 
dentro de cada Constituição, os seus elementos formativos. 
José Monso da Silva160 e J. H. Meirelles Teixeira161 cuidaram do tema, 
elencando os elementos das Constituições. Segundo J. H. Meirelles Teixeira, 
são elementos formativos das Constituições: os orgânicos, os limitativos, os 
programático-ideológicos e os formais ou de aplicabilídade. Já José Monso 
da Silva, mais completo, elenca cinco elementos das Constituições, a saber: 
1) elementos orgânicos - contidos nas normas que regulam o Estado e 
o poder. Ex.: Título III (organização do Estado) e IV (organização do 
poder) da CF/88. 
2) elementos limitativos - correspondem às normas que formam o ca-
tálogo de direitos e garantias fundamentais, limitadoras do poder 
estatal. Ex.: art. 5º da CF /88. 
3) elementos sócio-ideológicos - revelam o comprometimento das Cons-
tituições modernas entre o Estado individual e o Estado social. Ex.: 
os direitos sociais (art. 6º e 7º da CF) e os Títulos VII (ordem econô-
mica e financeira) e VIII (ordem social) da CF /88. 
4) elementos de estabilização constitucional - contêm-se nas normas 
que visam garantir a solução dos conflitos constitucionais, a defesa 
da Constituição, do Estado e das instituições democráticas. Ex.: art. 
160. Op. cit., p. 46/47. 
161. op. cit., p.182/196. 
TEORIA DA CONSTITUIÇÃO 131 
34/36 (interv.enç~o nos Estados-membros e nos municípios), art. 60 
(proce~so legIslativo das emendas constitucionais), art. 102, I (con-
trole dIreto de constitucionalidade), art. 136/137 (estado de defesa 
e de sítio), todos da CF /88. 
5) elementos formais de aplicabilidade - encontram-se nas normas que 
prescrevem regras de aplicação das Constituições. Ex.: o preâmbulo 
as disposições transitórias e o § 1 º do art. 5º da CF /88. ' 
10. A CONSTITUiÇÃO DIRIGENTE 
Se ~ Constituição é a ordem jurídica global e fundamental do Estado e 
da ~ocIedad~, como resta assentado neste Curso, é de concluir-se que nela 
reSIde a .opçao do constituinte sobre determinado modelo de Estado, o que 
caracterIza, certamente, a peculiaridade de cada Constituição162. Pode-se 
sustentar que a Constituição fixa as premissas estruturais do Estado que 
pretende reger. Nesse contexto, a história testemunhou a metamorfose do 
modelo do Estado dos séculos XVIII e XIX para o modelo do Estado con-
temporâneo: do Estado Liberal ao Estado Social163, duas realidades distintas, 
orde:na~as. por duas Constituições também distintas. Uma, a liberal ou ga-
r:antia, l~mItando o ,E~tado e suas funções, onde o poder público não podia 
mterferIr .n~ exercI CIO das liberdades, cabendo-lhe apenas resguardá-las. 
Outra, a ,dl~lge~te, que amplia o Estado e as suas funções, em face da qual o 
poder publIco e chamado a intervir ativamente no sentido de fornecer pres-
tações exigidas pelo indivíduo. 
No século das luzes, em razão da doutrina liberal, o Estado era visto 
como apenas uma entidade necessária à defesa das liberdades individu-
ais (uma ;s.pécie de mal necessário), não lhe cabendo, porém, interferir no 
seu exercI CIO. A defesa das liberdades determinava ao Estado um dever de 
abstenção (prestação negativa)164. As Constituições liberais ordenavam um 
Estado ~ínimo, com ~oderes e funções limitadas, assim considerado por 
sua polItica de retraça0 ante as relações socioeconômicas. Um Estado ab-
senteísta, que tinha por dever apenas garantir as liberdades individuais a 
propriedade e a segurança. O Estado nasce exatamente pela necessidade de 
dar proteção aos direitos fundamentais. Isso já era explícito no art. 2º da 
162. ~IOVESAN, FI~vi~ C. Proteção judicial contra omissões legislativas: A ação direta de inconstituciona-
lIdade por omlssao e mandado de injunção, p. 26. 
i63. Vi~e BON~VIDES, Paulo. Do Estado liberal ao Estado social, 7ª ed., São Paulo: Malheiros, 2001. 
64. CLEVE, Clemerson Merlin. A fiscalização abstrata da constitucionalidade no Direito brasileiro p 
314. ' . 
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132 DIRLEY DA CUNHA JÚNIOR 
Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 27 de agosto 
de 1789: "O fim de qualquer associação política é a conservação dos direitos 
naturais e imprescritíveis do Homem". Era um Estado limitado, com poucas 
atuações. Seu papel era não interferir nas relações concretas da vida social. 
Com a derrocada do Estado liberal, sobretudo em razão do após Primei-
ra Guerra Mundial, surgiu um novo constitucionalismo com reflexo direto 
no modelo estatal. O Estado muda de configuração, assumindo renovados 
papéis e múltiplas funções. Advém o Estado social ou, como preferem alguns 
denominá-lo, o Estado do Bem-Estar Social (o Welfare State) ou Estado pro-
vidência, prestador de serviços, de perfil essencialmente intervencionista, 
que exige a presença marcante e decisiva do poder público no domínio das 
relações socioeconômicas. O homem passa a depender do Estado, de quem 
se exigem prestações positivas. Nasce, com isso, o direito de exigir do Es-
tado prestações de ordem econômica, social e cultural. Afloram os direitos 
de crédito. E nesse cenário, não se fala mais em "liberdades públicas", mas 
já em "direitos fundamentais". O Estado já não se resume a defensor das li-
berdades, assumindo um papel mais abrangente, pois, além de garantidor 
das liberdades públicas, passa