O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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Um menino de 12 anos prometeu para si mesmo que nunca faria o que seu pai fez: abandonar esposa e filhos. Porém, 30 anos
depois, o mesmo garoto - agora um homem - deixa sua família. Uma mulher que terminou um relacionamento destrutivo está agora
apaixonada por um homem com as mesmas características de seu ex-namorado. E um advogado que nunca conseguiu agradar o
próprio pai tem um chefe que acredita que elogiar não é produtivo.
Esses são alguns dos comportamentos repetitivos com os quais o psicólogo Stanley Rosner se deparou ao longo de sua
trajetória profissional.
Em O ciclo da autossabotagem, Rosner oferece uma análise esclarecedora sobre a compulsão por repetição - a tendência a
reproduzir atitudes destrutivas.
Com a ajuda da escritora Patricia Hermes, Rosner apresenta casos reais que mostram como episódios da infância podem
criar dilemas inconscientes que acabam nos fazendo agir contra nós mesmos.
Os autores também explicam como reconhecer esses comportamentos e superá-los.
Ao mesmo tempo em que se aprofundam nas causas da autossabotagem e nas diferentes maneiras pelas quais ela se
manifesta, os autores mostram que a melhor maneira de superá-la é vencer antigos traumas e buscar novos caminhos.
O ciclo da autossabotagem
\u201cNo Hades, ele [Sísifo] foi condenado, tendo de rolar, por toda a eternidade, uma pedra até o cume de uma montanha, que
rolava novamente sobre ele.\u201d
Hamilton, E. (1940,1942). Mythology. Timeless tales of gods and heroes. A Mentor Book from New American Library. Nova
York & Scarborough, Ontario.
,
\u201cHá uma vitória e uma derrota - a maior e a melhor das vitórias, a mais baixa e a pior das derrotas -, que cada homem
conquista ou sofre não pelas mãos dos outros, mas pelas próprias mãos.\u201d
Platão, Protágoras
Agradecimentos
Os anos de estudo, de cursos, de supervisão e de análise serviram de fundamento para mais de quarenta anos de prática em
psico-terapia e psicanálise. Mas este livro não teria sido escrito sem a participação de meus pacientes e de seu grande esforço
para reviver pensamentos, memórias e sentimentos, e compartilhá-los espontaneamente. A psicoterapia dinâmica e a psicanálise
são, ao mesmo tempo, arte e ciência, e sua essência está nesta relação. Parte dessa relação consiste na minha habilidade de
sintonizar com meus pacientes, exatamente como nos duetos musicais. Sei que perdi algumas deixas e que, algumas vezes, houve
dissonâncias. Do mesmo modo que na composição musical, onde a formação teórica ajuda muito, mas não garante uma boa
música, na terapia psicanalítica a formação também é necessária, mas não é suficiente para um tratamento bem-sucedido. Ela
envolve, no mínimo, a mesma quantidade de improvisação, intuição, sensibilidade e interpretação. Sei que nem sempre consegui
ser plenamente compreendido e que minhas interpretações nem sempre foram perfeitas no papel que desempenhei em vários
duetos, e, por isso, tenho alguns arrependimentos. Minha desculpa está no fato de que sempre tentei ficar sintonizado e admitir para
mim mesmo e para meus pacientes onde foi que falhei. Usando o máximo de minhas habilidades, estive ao lado dos meus
pacientes com profunda consideração e disposição para compreendê-los. A eles, expresso minha gratidão.
Introdução
É um fim de tarde de fevereiro e estou esperando, do lado de fora de um hotel em Toronto, um táxi para me conduzir ao
aeroporto. Acabei de participar de uma conferência da American Psychological Association [Associação Americana de Psicologia],
e, como psicoterapeuta com experiência clínica, minha mente está animadamente ocupada, refletindo sobre as ideias que foram
discutidas, novas interpretações do que torna o indivíduo um ser admiravelmente complexo e interessante. Mas apesar de minha
preocupação profissional, ou talvez por causa dela, não consigo deixar de prestar atenção no encarregado da portaria. Um tipo
animado, ele abre e fecha a porta do hotel para clientes; abre e fecha a porta sorrindo e dizendo algo para cada um que passa por
ali. Eu o observo nesta tarefa repetitiva, e fico pensando como ele consegue permanecer tão bem disposto. Em um rápido intervalo,
ele vem até a calçada e começamos a conversar. Depois de conseguir um táxi para mim, disse num tom confidencial: \u201cEu me
pergunto como esses motoristas conseguem. A mesma coisa, dia após dia: dirigir até o aeroporto e voltar, até o aeroporto e voltar.
Isto me deixaria louco.\u201d
Sorrimos um para o outro, um sinal de camaradagem, de concordância. Mas estou pensando que reparar no outro aquilo que
não conseguimos perceber em nós mesmos é algo bem comum, como se fizesse parte da natureza humana - pelo menos é isso
que observo no trabalho com pacientes. E, geralmente, quando chegamos a esse mesmo ponto - comportamentos repetitivos. O
que vemos no outro com tanta clareza oculta-se de nós próprios. Por que isso acontece? Acho que por várias razões. Talvez porque
nossos comportamentos repetitivos estejam enraizados, sejam instintivos. O porteiro, cujo dia gira em torno de abrir e fechar a
porta, não vê nenhuma contradição em lamentar o destino do motorista de táxi que tem de fazer viagens de ida e volta ao aeroporto
dia após dia - porque ele não enxerga o próprio comportamento como repetitivo.
É claro, esse é um exemplo simples, provavelmente uma contradição superficial, e talvez, até, de autoproteção. Por que admitir
que o que eu faço a maior parte do tempo, dia após dia, é insuportável e inconcebivelmente repetitivo? Negando-o, talvez a pessoa
se sinta mais suscetível de desempenhar seu trabalho diariamente. Ou talvez a natureza do porteiro seja tal que o simples contato
com aquelas pessoas represente um estímulo, uma mudança, fazendo que o trabalho não seja percebido como repetitivo. Ou, por
outro lado, talvez ele perceba. Como é possível estar ciente disso? E isso é importante?
Nas pequenas e corriqueiras questões da vida, não, isso não tem a menor importância. A maioria das pessoas faz tudo igual,
dia após dia, tanto no nosso trabalho, como fora dele. Talvez você goste do ovo preparado em três minutos toda manhã - não em
dois ou em quatro minutos. Ou talvez você opte, dia após dia, ano após ano, por não tomar o café da manhã.
Alguns de nossos padrões repetitivos são claramente irracionais. Tive um paciente que sempre calçava o pé esquerdo primeiro
- tão compulsivamente que se, por engano, calçasse antes o pé direito, ele parava, tirava o sapato e começava tudo de novo com o
pé esquerdo. Conheço uma mulher que sai tropeçando pelo quarto escuro para acender a luz - porque ela não quer, não consegue,
acender a lâmpada acima da cabeceira. E daí? O homem do sapato pode chegar um pouco atrasado ao trabalho. A mulher pode
dar uma topada com o dedão do pé. Qual a importância disso?
Nenhuma, a não ser que esses comportamentos sejam sintomas de algo mais sério. Não, essas repetições, e até essas
compulsões, não chamam a minha atenção para a questão da repetição. O que me seduz é detectar a extensão de certos tipos de
comportamentos repetitivos - repetições que destroem vidas, repetições que levam indivíduos à beira da loucura, repetições que
podem terminar até em suicídio. Muitos, ou a maior parte, desses frustrantes e destrutivos comportamentos estão quase que
totalmente fora do domínio da consciência. Isto é o que mais me atrai.
Assim, depois que comecei a considerar sobre essa questão, recebi em meu consultório um homem para quem tudo parecia
correr bem. Louis era um quarentão, um homem de negócios que aparentava ser bem-casado, o pai de um \u201cgrande garoto\u201d, como
chamava o filho de 10 anos, bem-sucedido na vida pessoal e profissional. Mas me procurou porque estava inquieto, pensando no
sentido da vida. E, como revelou depois de algumas sessões, estava tendo um caso com uma mulher que, admitiu, não amava.
Mas, mesmo sem amá-la, estava prestes a deixar sua família. Ele não entendia o próprio comportamento, mas sabia que algo
estava errado. Além disso,