O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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é o amor. Mas as pessoas sabem nitidamente e
com toda certeza quando estão apaixonadas.
No entanto, o que chamamos de amor às vezes não tem nada a ver com amor. Quase sempre, ele - e, consequentemente, os
casamentos - é constituído de uma expectativa inconsciente de que o parceiro poderá suprir nossas necessidades não atendidas, e
até propiciar uma sensação de completude. É o que chamo de contrato não escrito, presente na maior parte dos casamentos. Esta
percepção ou motivação raramente é explícita, porque o indivíduo quase nunca tem consciência dela. Ele só está consciente do
amor que sente por aquela pessoa.
Esse desejo de ter as necessidades atendidas é algo ruim? Claro que não. Em qualquer casamento ou relacionamento,
procuramos ter nossas necessidades satisfeitas e atender, quando possível, às necessidades de nossos parceiros. Se as
percepções e expectativas são realistas, o casamento se desenvolve e prospera, porque temos clareza do que queremos e de
como esperamos atingir o que queremos.
Mas não é a esse tipo de relacionamento que me refiro. O fracasso em muitos casamentos, evidenciado pelos assustadores
índices de divórcio, não é uma necessidade ou desejo consciente. Sem dúvida, o problema está nas expectativas inconscientes de
um ou de ambos os parceiros, que são irreais e distorcidas. São estes os casais que estão condenados a engrossar as estatísticas
do divórcio.
É realmente possível não perceber as necessidades do outro, de modo que o cônjuge se transforme em apenas mais uma
esperança de algo impossível? Será que existe alguém que foi desprezado e indesejado por sua família de origem e cresceu
procurando por aquele amor parental incondicional - esperando encontrá-lo no cônjuge?
Infelizmente, tanto é possível como acontece frequentemente. Tal desejo e muitos outros são expressos no ciclo de repetição
matrimonial. Há aqueles que cresceram em lares desajustados, e que buscam um parceiro que lhes ofereça a estabilidade que não
conseguiram ter na família de origem. Porém, quando o cônjuge revela-se incapaz de oferecer aquilo que desejam, eles se
decepcionam. As pessoas procuram desesperadamente aquilo que não tiveram. Por que, então, tudo parece dar errado? Dá
errado quando o indivíduo simplesmente perpetua as perdas, repetindo a tragédia do passado. E agora a parte assustadora e
verdadeira: embora quase nunca seja perceptível à primeira vista, a repetição surge na forma de casar-se com a mãe hostil e
exigente, ou com o pai frio e insensível. Em alguns casos, isto se dá, repetidamente. Por que alguém faria isso?
Ao iniciar uma terapia de casal, logo na primeira ou na segunda sessão, peço que cada um deles descreva os pais.
Geralmente, com o tempo - na verdade, quase sempre -, começo a perceber uma nítida semelhança entre o cônjuge e um dos pais.
O mais trágico, no entanto, é que o paciente se assemelha exatamente com quem teve mais dificuldades. O pai hostil e frio é
repetido no marido ou na esposa hostil. A mãe severa, dominadora e implacável é repetida no cônjuge severo e dominador. Isto é a
representação da relação mal-resolvida com um dos pais que foi percebido como agressor, aquele que não conseguiu atender às
necessidades do filho. A escolha inconsciente do parceiro representa uma tentativa de mudar aquele pai/mãe, de conseguir o amor
e o carinho que faltou. O cônjuge, por sua vez, desempenha o papel de castrador. O resultado se apresenta na forma de queixas do
tipo: \u201cEle não me ouve; não foi isso que eu disse; não foi isso que eu quis dizer.\u201d Isto, por sua vez, gera lutas pelo poder, batalhas de
vontades, brigas sobre quem está certo e quem está errado. Geralmente, o que vem a seguir é aquela sensação silenciosa, mas
bastante incômoda, de estar pisando em ovos, para não desequilibrar a balança. O casal está atuando em dueto, dizendo que
busca a harmonia, mas, no fundo, está produzindo dissonâncias.
Às vezes, há uma vaga consciência do que está acontecendo, pensamentos confusos de que o cônjuge está se comportando
como o pai/mãe frustrador, mas tais pensamentos geralmente são repelidos. Porque fracassamos no reconhecimento da dinâmica
da interação com o cônjuge e porque não queremos nos lembrar inteiramente do impacto prejudicial que aquele pai/mãe teve sobre
nós, tendemos a repetir muitas vezes a relação. Temos a expectativa de que, da próxima vez, seremos bem-sucedidos naquilo que
queremos. Vivemos com a esperança de que encontraremos, no casamento, a satisfação que não encontramos até agora. Se
percebemos que o cônjuge atual ou potencial não consegue atender às nossas expectativas, fantasiamos que conseguiremos torná-
lo mais receptivo, mais generoso, forte, delicado e menos hostil. Por quê? Porque continuamos presos à fantasia infantil de que
conseguiremos agradar e mudar nossos pais, que seremos capazes de fazer com que os pais nos amem da maneira que
precisamos ser amados. Em muitos casos, este tipo de pensamento e desejo não funcionou com nossos pais. E é quase certo que
também não funcione no casamento,
Os casamentos são realizados inconscientemente, e isto nunca esteve tão evidente para mim quanto na ocasião em que atendi
Jillian e Michael.
Quando Jillian chegou sozinha ao meu consultório em uma tarde de primavera, estendeu-me a mão com unhas bem-feitas para
me cumprimentar e sentou-se na cadeira em frente à minha, com uma aparência muito radiante, vestida elegantemente e muitíssimo
atraente. A voz era bem modulada, e ela não tinha problemas em expressar suas preocupações. A questão que ela me trouxe foi
que o filho de 12 anos estava tendo dificuldades na escola. Os testes revelaram que ele tinha um QI alto, mas não estava tendo um
bom desempenho. Jillian estava consciente de que as tensões no seu casamento podiam ter algo a ver com o desempenho escolar
do filho. Levou apenas uma sessão para Jillian passar da questão do filho (que, essencialmente, revelou-se um assunto de menor
importância) para as dificuldades no seu casamento. Ela estava casada com Michael havia 16 anos, e estava farta daquele
relacionamento.
- Ele é bom, brilhante, honesto e atraente - disse ela, ao falar dele pela primeira vez. - Mas é muito lerdo, devagar. Ê preciso
uma fogueira embaixo dele, para que se mexa. Ele está no mesmo emprego há anos. Ganha pouco, mal dá para nossas
necessidades, e não há futuro ali para ele. Ele sabe disso, também. Mas isso o incomoda? Não!
- Mas incomoda a você - comentei.
- Sim, pode acreditar. Sou gerente de escritório, mas estou sempre de olhos abertos, procurando um emprego melhor, sempre
fazendo contatos. Quero progredir na vida, quero ganhar mais dinheiro e ter um emprego mais confiável, que seja valorizado.
Quero efetivar mudanças. Michael é ético e honesto. Ele é capaz, muito capaz. Mas não tem nenhuma iniciativa. Nenhuma! Até
o fato de eu ficar angustiada não parece incomodá-lo nem um pouco. Ele diz que está tudo bem, que tudo vai ficar bem. Mas, como
é que ele pode dizer isso se as coisas não estão bem?
- Ele fica com raiva quando você toca neste assunto? - perguntei.
- Raiva? Ele? Ele não consegue nem ficar com raiva. Eu gostaria até que ele ficasse. É um cara inteligente também, uma
pessoa que estudou muito. E isso é estranho - ele tem muitos amigos. As pessoas gostam dele. Mas ele está me deixando louca.
Vive adiando as coisas. Tudo. Não troca nem uma lâmpada no dia que eu peço. Pode levar meses para fazer algo tão trivial.
- E como ele se sente em relação ao filho e suas notas na escola?
Ela fez uma careta e deu de ombros.
- Para ele está tudo bem. Não manifesta nenhuma emoção intensa por nada!
Achei que este poderia ser um bom momento para perguntar-lhe sobre o seu relacionamento sexual. Em muitos casamentos, a
vida sexual é um bom termômetro do relacionamento, e, geralmente, indica o que está acontecendo entre os parceiros.
- Sexo? - replicou ela. - Ele raramente me procura para sexo. Quando tentamos, ele falha. Já falei várias vezes