O ciclo da auto sabotagem
120 pág.

O ciclo da auto sabotagem


DisciplinaPsicologia63.598 materiais446.671 seguidores
Pré-visualização47 páginas
para ir ao
médico e, como sempre, ele concorda. Mas ele faz alguma coisa? Não. É como se não se importasse, nem mesmo com isso. Que
tipo de homem é esse? E se a iniciativa for minha, então, é pior ainda. Aí é que ele não funciona.
- Foi sempre assim? - perguntei.
- Não. - Ela ficou um pouco pensativa. - Não. Foi ficando pior. Ele é tão passivo em tudo... Honestamente, algumas vezes acho
que me casei com minha mãe.
Essa era a abertura que eu estava buscando, a oportunidade de explorar a dinâmica de sua família de origem, e como isso
funcionava no seu casamento. Era interessante observar os paralelos e também verificar como a dinâmica era reproduzida no
processo terapêutico.
No início, só Jillian era minha paciente. Neste período, surgiram algumas correspondências interessantes. A mãe de Jillian era
uma mulher dogmática que criticava a filha e favorecia claramente o filho, único irmão de Jillian. A mãe reclamava de quase tudo
que ela fazia. Rebaixava a filha na família, o que Jillian atribuía, corretamente, ao fato da mãe preferir abertamente o filho.
- Ela sempre me dizia que eu era desorganizada e que estava na hora de me organizar - disse Jillian. - Era ativa na família e na
comunidade, e parecia se preocupar conosco - mas só se preocupava quando podia cuidar de tudo, inclusive da minha vida. Ela
queria saber tudo o que eu pensava e sentia. E então eu lhe fazia confidências, e o que ela fazia a seguir era espalhar tudo para
toda a comunidade. Sempre me senti traída. Mas, como eu era estúpida, na semana seguinte eu voltava a lhe contar tudo. Ela era
bastante controladora! E, ainda assim - e isto é o mais estranho -, era bastante submissa às exigências irracionais do meu pai.
- Irracionais? - perguntei.
- Acredite se quiser. Ele tinha um temperamento explosivo, e se voltasse para casa de mau humor, era melhor tomar cuidado.
Ele atacava violentamente minha mãe e meu irmão. Ele nunca foi rude comigo, mas eu temia que a qualquer momento isto iria
acontecer.
Achei essa observação interessante, e encorajei Jillian a continuar nesta linha de pensamento. Acabou vindo à tona, de modo
lento e gradual, que Jillian não tinha uma opinião muito boa sobre si mesma. Ela não se achava brilhante ou capaz, mas sabia que
era bonita, e acreditava que este era seu único atributo. Ela era sexy e atraía os homens, mas nunca permitiu que eles se
aproximassem. Tinha medo e um bom motivo para isso. Apavorada com o temperamento violento do pai, ela vivia com medo de
que um dia a raiva dele se voltasse contra ela. Havia conotações sexuais em sua relação com Jillian, que se defendeu tornando-se a
linda e graciosa garotinha do papai.
Essa constelação familiar foi reeditada na sua relação comigo. Jillian conseguiu descobrir várias coisas sobre a minha vida
familiar, e queria, claramente, se aproximar de mim. Foi bastante inventiva e persistente ao me confrontar com acontecimentos e
pessoas da minha vida. Mesmo sabendo que era algo inadequado, ela parecia incapaz de parar o que estava fazendo. Isto se
manifestou a partir de algumas questões idênticas às que estavam acontecendo no casamento, e que representavam uma repetição
de sua vida pregressa. Ela se sentia intimidada por mim e por aquilo que eu sabia dela. Tinha medo que eu, como sua mãe, fosse
criticá-la e usar o que sabia para machucá-la. Temia que eu ficasse bravo com ela, e tinha, então, de se mostrar importante para
mim. Ao investigar minha vida pessoal, achou que havia conseguido algum poder sobre mim para empatar o jogo. Embora não
fosse abertamente competitiva, precisava sentir que mantinha algum controle da situação. E tinha de me mostrar quanto era
maravilhosa, apesar de seus sentimentos de inferioridade.
- Ontem, um rapaz muito bonito foi ao escritório e me disse que eu era linda, que devia estar trabalhando como modelo, e
elogiou as roupas que eu estava usando.
Quando eu não respondia a tais comentários, ela ficava em silêncio e retraía-se, ressentida. Com o avanço da terapia, ela
começou a ter uma preocupação constante com a visão. Sustentava que não conseguia enxergar direito, e que temia estar
perdendo a visão. Várias visitas a inúmeros oftalmologistas revelaram que sua visão não estava prejudicada. Ainda assim, ela
continuava a ter medo.
Seria demais afirmar que estavam surgindo questões que ela não queria ver, ou das quais não estava se dando conta?
Interessante, porque à medida que nosso trabalho progredia, seu medo de perder a visão foi desaparecendo. Entretanto, algo novo
começou a acontecer: ela passou a se irritar, a ficar furiosa comigo porque eu estava abrindo seus olhos, e ela não queria isso. Ela
não queria reconhecer o seu papel na perpetuação dos problemas com Michael, sobre os quais tinha se queixado. Ela não queria
ver que era compelida a estar no comando, a ser a líder, exatamente como a mãe tentou ficar no comando. Ao ficar no comando,
exigindo que Michael \u201cse mexesse e fizesse algo de sua vida\u201d, ignorava os próprios sentimentos subliminares de carência e
vulnerabilidade. Tinha medo de admitir sua necessidade de proximidade e intimidade, e reprimia tais sentimentos para se
convencer de que estava no controle da situação - contudo, às vezes parecia que ela preferia que eu cuidasse dela e resolvesse
seus problemas. Na sessão seguinte, geralmente ela se comportava como se não precisasse nem um pouco de mim. Como uma
criança, ela não havia feito a transição gradual que a maior parte das crianças faz, da pessoazinha necessitada que suplica e
realmente precisa e merece apoio, para o adulto independente e assertivo. Na terapia, todas essas contradições eram
representadas. Eu significava um sofrimento, porque era um pai para a criança confusa dentro dela. Ou eu representava a criança
frágil, e ela tinha necessidade de me mostrar que realmente não precisava de mim. Ou de ninguém.
Não havia meio-termo na sua vida íntima nem na vida exterior. E eu era aquele que havia posto esse conflito em destaque.
Esse mesmo conflito era constantemente representado no casamento. Ela reclamava que Michael não fazia o suficiente para
tomar conta dela, enquanto, em outras ocasiões, não aceitava nada que ele fizesse.
Esse conflito entre super dependência e independência reproduzia-se também na área sexual. Ela podia ser sedutora quando
quisesse, e decidir até que ponto as coisas avançariam. Permitia a intimidade somente até o ponto em que Michael começava a
sentir que estava funcionando sexualmente, e então ela o sabotava. (Ela estava no controle.) Ela podia humilhar Michael por sua falta
de iniciativa e seu fracasso no desempenho sexual. (Ela estava no controle.) Assim como em todas as outras áreas, quando Michael
mostrava iniciativa, seus esforços eram menosprezados e ele desistia. Entretanto, ela alimentava fantasias sexuais nas quais era o
objeto masoquista do macho sádico e superpoderoso. Assim, reprimia suas fantasias de submissão e de dependência passiva, e
extravasava seus impulsos mais agressivos, controladores e sádico-sedutores.
Essencialmente, o contrato não escrito aqui era de tal ordem que Jillian poderia amar um homem que aparentasse ser bem-
sucedido e importante na comunidade, uma pessoa que não seria criticada ou considerada desprovida de algo. Ao mesmo tempo,
precisava defender-se, estando no controle sem demonstrar suas vulnerabilidades, evitando intimidades que poderiam expor seus
desejos de submissão. Ela sabotava todas as situações pelas quais ansiava, conscientemente, um parceiro que fosse bem-
sucedido, autoconfiante e ativo. Mas se isso acontecesse, violaria seu papel no contrato. Ela precisava afastar a figura da mãe
crítica e dogmática que se submetia ao marido. Precisava afastar o pai hostil, irado e grosseiro. A repetição, aqui, estava em Jillian
assegurar-se de que não estaria na posição em que havia estado na sua família de origem, fazendo justamente o contrário. Tinha
de estar além da crítica, tinha de estar no comando. A