O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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de negociar sua passagem pela vida. Ajudava e cooperava com os
outros, especialmente se lhe fossem destinadas tarefas domésticas ou técnicas, mais como uma forma de se livrar dos outros do
que um desejo de ganhar aprovação ou buscar elogios. Ele nunca dizia não, estoica e relutantemente aceitando as demandas que
lhe eram feitas. Entretanto, de modo geral, sua concordância nada significava. Ele adiava as coisas, preso em um perfeccionismo
paralisante. Conseguia realizar pouca coisa. (Lembre-se de que ele não conseguia nem trocar uma lâmpada.)
Mas, inversamente, mantinha-se envolvido em tarefas nas quais era bom e que lhe agradavam. Isso era ilustrado no seu
relacionamento com Jillian, para quem ele se tornou um faz-tudo. A admiração de Jillian por ele, era fundamentada no fato de
Michael ser um bom faz-tudo, ou alguém sensível.
\u201cJillian teve um problema com o seu computador no escritório e me chamou. Fui até lá e, rapidamente, consegui consertar e
deixá-lo funcionando. Ela ficou muito contente, e o seu chefe também. Me senti bem com isso.\u201d
Então ele tinha êxito em coisas pequenas, insignificantes. Mas nas principais áreas da vida, não conseguia defender-se. Não
exigia nada para si ou procurava ser recompensado por seus esforços. Sentia-se prejudicado, impotente e inadequado, e achava
que qualquer coisa que fizesse não daria certo.
A discrepância observada anteriormente entre as fantasias de submissão de Jillian e seu comportamento sedutor-sádico eram
complementadas na relação com Michael. As fantasias sexuais dele eram repletas de temas agressivos e sádicos, mas ele
externava apenas a parte submissa e passiva. As fantasias representavam os desejos reprimidos e inibidos que não poderiam ser
expressos abertamente. Se Michael tivesse tido acesso, experimentado e expressado a sua raiva, talvez tivesse conseguido
solucionar seu dilema. Sua raiva poderia ter sido controlada e usada produtivamente a seu favor, e ele poderia ter sido muito bem-
sucedido.
Comentei com Michael em diversas ocasiões: \u201cParece que você está muito zangado, mas para você é difícil assumir isso.
Você está descarregando sua raiva em si mesmo, achando que sempre vai ser derrotado, não importa o que diga ou faça.\u201d
Michael sempre balançava a cabeça e dizia: \u201cCerto. Certo.\u201d Ele concordava, mas não fazia nada. Para ele era muito perigoso e
muito arriscado fazer alguma coisa.
O torpor e a frustração de Michael podiam ser comparados a minha paralisia e frustração como seu terapeuta, não apenas nas
sessões individuais, mas também, posteriormente, nas sessões de grupo. Acreditei que, em um grupo, Michael teria uma ideia
mais clara de como era percebido, não apenas por mim ou Jillian, mas por um grupo de indivíduos sensíveis que queriam ajudar e
ser ajudados. Mas, ali também, Michael frustrou todos os esforços. Fazia corpo mole, prendia-se a detalhes, e desperdiçava os
esforços para tentar demovê-lo da posição em que se achava. Lidava com os assuntos como se andasse em círculos, minando
meus esforços e os do grupo. Os membros do grupo mostraram-lhe o que ele estava fazendo e expressaram sua frustração por não
fazer nada para ajudar a si mesmo. Isso adiantou? Não. Ao contrário, para Michael foi apenas mais uma indicação de que ele era
um fracassado. Isto também foi dito a ele, mas sem nenhum proveito.
Foi doloroso participar disso, doloroso ver que Michael, com todo o seu potencial não realizado, se colocava em situações que
perpetuavam seus problemas, minando os esforços para efetivar mudanças. Foi doloroso observá-lo agindo como se estivesse
atendendo a seu pai, sabotando o tratamento, como sabotou outros aspectos de sua vida. Para a maior parte dos homens, chega
uma época em que é preciso enterrar simbolicamente o pai, guardar luto por sua passagem, e, então, seguir em frente. Michael não
conseguiu fazer isso. Manteve o pai vivo por meio de seu comportamento de autossabotagem.
Assim como Jillian escolheu se casar com Michael porque ele não a ameaçava com sua raiva, assegurando-lhe que não iria
criticá-la nem humilhá-la, Michael também escolheu se casar com Jillian. Ela o manteria em um estado de impotência e o protegeria
de desafogar sua raiva. Michael sabia com quem estava lidando no seu relacionamento com Jillian, da mesma forma que estava
familiarizado com o relacionamento que manteve com o pai. Por mais doloroso que fosse, era algo já conhecido, e ele não podia
querer mais que isso. Grande parte da vida de Michael foi devotada a evitar e desviar-se de confrontos que poderiam deflagrar a
expressão de sua raiva, porque ele tinha muito medo da emergência desse ódio. Jillian inconscientemente impôs limites para que
ele experimentasse algum sentimento de força ou de confiança. Ela o abatia assim que ele acordava - começava a falar. Michael
provou a si mesmo, com esse relacionamento, que seu pai estava certo, que ele realmente era um fracassado, um desajeitado.
Além disso, ao repetir a relação traumática paterna com Jillian, ele tentava amansar a fera. Tentava ganhar aprovação, mesmo
sabendo que seus esforços seriam em vão. Inconscientemente, estava tentando ter algum controle da rejeição, mas provando
continuamente a si mesmo que isto nunca aconteceria. Michael estava preso a uma repetição de autossabotagem. Sua admiração
por Jillian e suas conquistas representavam sua identificação vicária :om o agressor, sem colocar-se em risco.
Entretanto - e isso ficou cada vez mais óbvio à medida que eu trabalhava com Michael -, com o seu comportamento ele também
estava provando algo mais. Estava negando ao pai e a Jillian o bom resultado para que não se sentissem orgulhosos dele. A seu
modo, ele comunicava que era, basicamente, uma pessoa capaz, que poderia fazer mais do que fazia, mas, mesmo sacrificando-
se, não daria a eles nenhuma satisfação. A rejeição era uma coisa que ele conhecia, e algo com que estava familiarizado.
E, assim, no fim, Michael preferiu continuar vivendo com isso, em vez de aproveitar a oportunidade para fazer mais por si,
apenas para acabar fracassando. A despeito de todos os nossos esforços, os dele, inclusive, Michael não iria se mexer da posição
em que fora colocado pelo pai, a posição que acabou escolhendo para si.
E, então, o que aconteceu com esse casamento? Foi uma história com um final feliz?
Sim.
E não.
Há momentos em que os conflitos e os traumas que ocorrem na nossa infância são tão fortes que não podem ser desfeitos. A
consequência disso é que algumas pessoas, como, por exemplo, Michael e Jillian, fazem concessões que limitam seu potencial,
mas que estão dispostas a aceitar. Elas se acomodam em vez de partir para uma batalha que exigiria muito esforço, Há, por vezes,
uma consciência de que os ganhos em manter o status quo são maiores do que o preço pago pela mudança - porque mudança
também significa revolução. Mas o ponto importante é: há uma grande diferença entre estar em situações difíceis que ocorrem
sem que a pessoa tenha consciência do que está acontecendo e o reconhecimento de que há alternativas e que é possível
efetivar mudanças em comportamentos de autossabotagem. A diferença, a diferença vital, é o reconhecimento. Freud escreveu:
\u201cNa verdade, eu sempre soube disso; só que isso não me passava pela cabeça.\u201d1 Não é, senão, outra maneira de falar sobre todos
esses contratos não escritos, inconscientes.
Jillian poderia ter mudado a sua situação se estivesse disposta a aceitar as consequências. Ela escolheu não romper o
casamento e a vida familiar, apesar das limitações. Teve oportunidade de verse livre do casamento com um marido atraente,
honesto, atencioso - embora passivo -, e encontrar um homem mais assertivo e agressivo. Escolheu a primeira opção. Aceitou
Michael como ele era e parou de provocá-lo e humilhá-lo.
Em uma de nossas últimas sessões, ela disse:
- As coisas com Michael não vão mudar. Tentei várias vezes e talvez tenha tornado as coisas piores, perturbando-o para que
fizesse