O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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mais coisas e se impusesse, e afastando-o quando ele tentava se aproximar. Mas agora sei que ele não vai mudar.
Também não quero deixá-lo. Acho que preciso dele assim, desse modo. Eu realmente o amo, e ele é bom para mim. Seria uma
reviravolta muito grande destruir esse casamento depois de tantos anos. Então, é assim que vai ser e tudo vai ficar bem.
Naquela época, já havíamos passado muitas horas juntos e Jillian progredira consideravelmente. Senti-me confortável para
comentar.
- Parece que você precisa dessa relação com Michael assim, como está. Você mudou. Ele tentou mudar. Mas, acima de tudo,
ele esteve ao seu lado. Talvez agora, mais consciente, você lide bem com essa situação.
Ela concordou. E, então, o casamento sobreviveu, porque Jillian reconheceu que mudar as condições do contrato não escrito
também teria um preço muito alto. Teria ameaçado as próprias bases do casamento. Ela não queria isso, e estava disposta a
pagar o preço. Era uma decisão clara, consciente, baseada em anos de trabalho árduo de psicoterapia. O resultado foi que Jillian
não agiu por motivos desconhecidos. Ela teve a liberdade de escolher, com base na compreensão de si mesma e da situação.
Procuro deixar claro aos casais que me procuram com dificuldades no casamento que o objetivo da terapia não é salvar ou
destruir o casamento, mas habilitá-los para se conscientizar do que causou as dificuldades atuais e adquirir mais compreensão de
si mesmos.
\u201cSe o fato de se conhecer melhor e de avaliar o seu papel na questão melhorar o casamento, ótimo\u201d, eu lhes digo. \u201cMas o
divórcio é um risco calculado quando se inicia uma terapia de casal.\u201d
E sigo com esse cuidado, lembrando-lhes que não se ganha nada ao se desfazer um casamento para se casar novamente
quando o padrão se repete. E isto é bem comum.
Quantas vezes um amigo ou uma pessoa conhecida nos apresentou seu segundo ou terceiro cônjuge e notamos semelhanças
surpreendentes de personalidade entre o novo \u201camor\u201d e o antigo?
Isto me fez pensar em Joel.
Joel se casou cinco vezes, e divorciou-se quatro. Casava-se, divorciava-se, e, assim, casou-se com a mesma mulher duas
vezes. Se isso não fosse tão triste, poderíamos rir e afirmar que ele era masoquista.
- Procuro uma mulher calorosa e cuidadosa, e termino com uma mulher fria, distante, dominadora e que me despreza - disse
ele, na primeira vez que nos encontramos. - Elas parecem ótimas durante o namoro, mas depois do casamento, se transformam.
Elas não são as pessoas com as quais eu saía.
Fiquei sabendo que Joel cobria aquelas mulheres com presentes caros, viagens e casas. Ele era o coroa rico. Depois de um
tempo, no entanto, começava a achar que estava sendo usado, apreciado apenas pelo que podia oferecer, e recebendo pouco de
volta.
- Só sou bom para pagar as contas, mas não recebo nenhuma apreciação ou afeto. Não é como era no começo do
relacionamento. Isto acontece com todas elas - disse.
- E o que a sua esposa diz de tudo isso? - questionei, embora quisesse mesmo perguntar: O que todas as suas esposas
disseram? Já estava claro para mim que Joel também estava num grande ciclo repetitivo.
- Ah, que é só isso que eu sei dar. Ela diz que quero apenas dominar, ser o grande mandachuva. Diz que não estou interessado
nela como pessoa.
Em nosso segundo encontro, perguntei a Joel se podia trazer sua esposa para uma sessão. Minha intenção não era sugerir
uma terapia de casal - Joel deixou claro que não queria isso -, mas saber como a quinta mulher via a situação.
- Socialmente, ele é muito atraente, e todos gostam dele - disse ela, um tanto desanimada.- Mas ele não se entrega. Tudo é
superficial, tudo é uma questão de troca. Ele não assume abertamente, mas é claro que, como tem dinheiro e oferece coisas
materiais, espera poder ditar tudo o mais. Sinto que não contribuo em nada, que não sou levada a sério. Todas as minhas
preocupações são desprezadas.
- Nem todas - disse Joel, com um sorriso irônico.
Ela o encarou, mas logo depois abriu um sorriso.
Eu entendia por quê. Joel era atraente. Era bem-apessoado. Era um homem espirituoso. Uma vez, veio à sessão com os
seguintes dizeres na camiseta: \u201cMinha esposa diz que eu não a escuto. Pelo menos, acho que foi isso que ela disse.\u201d Mas a triste
realidade era que ele não a escutava de fato, Ele não demonstrava amor. Porque em algum lugar de sua privilegiada criação, foi
ensinado a agir assim.
Como foi revelado posteriormente, quando criança, a autoestima de Joel vinha exclusivamente de seus feitos.
Ele era muito inteligente e tirava notas altas no colégio. Ele era elogiado.
Frequentou uma conceituada faculdade de direito, onde colocava em prática esse talento. Ele era elogiado.
Além disso, era multitalentoso e um musicista muito bom. Aqui, também, era elogiado.
Entretanto, seus pais nunca lhe perguntaram como se sentia. Nunca lhe perguntaram como era a sua relação com os amigos ou
professores. Nunca lhe disseram - nem ao menos uma vez, segundo me contou - que o amavam. Ele era elogiado por seus feitos. O
que o amor tinha a ver com isso?
Nada. E assim Joel repetia isso nos seus casamentos. Empregou a vida na busca desesperada por alguém que cuidasse dele
e o amasse pelo que era. Ele queria isso. Desejava profundamente isso. Mas não sabia como conseguir. Acreditava que só
conquistaria o amor se demonstrasse o que podia fazer, as coisas materiais que podia dar. Ele ansiava por alguém que o amasse
pela pessoa que era, mas não sabia se entregar. Então, continuava cometendo o mesmo erro, procurando amor por meio de suas
conquistas, seu sucesso, seu valor; procurando amor comprando-o, de uma forma ou de outra. Ao perceber que só teriam dele bens
materiais, as esposas passavam a aceitar e a querer mais e mais, um modo de repor o afeto que faltava. Joel, por sua vez, tinha a
sensação de que estava sendo explorado. Isto apenas o convencia daquilo que já sabia - que a única coisa a fazer era dar bens
materiais e que nenhuma mulher iria amá-lo pelo que era.
Os problemas de Joel eram bons exemplos da sua maneira inconsciente de se relacionar com os outros adquirida dos pais.
Ele se identificava com os pais, e tratava os outros como sempre foi tratado. Estava tão acostumado a isso que acreditava que as
pessoas interagiam com base em feitos e coisas materiais. Mas Joel era inteligente. Percebeu que algo estava errado, e sua
trajetória com as mulheres ratificava isso. E me procurou.
Na psicoterapia, a mudança se baseia, essencialmente, em uma relação participativa, considerável e consistente com o
terapeuta. Isto significa levar o processo terapêutico a sério, ligando-se ao processo, permitindo que o terapeuta faça parte da sua
vida e incorporando mudanças pela internalização do processo. A psicoterapia fornece a oportunidade de você se relacionar com
alguém que se importa com você, que tenta entendê-lo, que tenta facilitar a mudança na sua maneira de se ver e no seu lugar no
mundo. A princípio, Joel tentou justificar os constantes atrasos com a apertada agenda. Afirmava sem nenhum escrúpulo que suas
viagens de negócios, que interrompiam o processo terapêutico, eram muito mais importantes que o nosso trabalho e desprezava
minhas considerações.
- Vou pagar-lhe por seu tempo. Então, por que isso deve ser um problema? - perguntou.
Vou pagar-lhe por seu tempo.
Eu já não havia ouvido isso antes, em relação as suas esposas - a todas elas? E porque os terapeutas são humanos, também
me vi reagindo com o mesmo tipo de lamentação interna que sua atual esposa expressou: ele não se entrega. \u201cTudo é superficial,
disse ela. Tudo é uma questão de troca. Ele não assume abertamente, mas é claro que, como tem dinheiro e oferece coisas
materiais, espera poder ditar tudo o mais. Sinto que não contribuo em nada, que não sou levada a sério. Todas as minhas
preocupações são desprezadas. \u201d
E, assim, devolvi-lhe os sentimentos que fez despertar em mim.
- Você me faz sentir - disse-lhe