O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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- como se eu pudesse ser comprado e vendido. Você me faz sentir como se eu fosse um bem
de consumo, e que essa relação é totalmente dispensável. Sim, esta é uma relação que está baseada no pagamento de uma
importância, mas o dinheiro não é a questão. A questão é que você está obstruindo o caminho do que você diz querer e precisar.
Desprezar esta relação, alegando que você vai pagar por meu tempo, mostra apenas que os relacionamentos podem ser
comprados e vendidos. Mostra que os relacionamentos não significam nada para você. E, talvez, este seja o problema no seu
relacionamento com as mulheres.
Joel não acreditava no que acabara de ouvir. Usei os sentimentos que ele havia despertado como um termômetro do que
provocava nas mulheres e mostrei-lhe isso.
Com bons resultados. Talvez porque estivesse disposto a mudar, talvez porque fosse um tanto sagaz, ele começou a ver o que
não havia conseguido enxergar ao longo de toda a vida. Ele percebeu, e isso foi a epifania de como conduzia os relacionamentos.
Minha revelação mostrou, também, que alguém estava sintonizado e que se importava com ele. Gradativamente, Joel começou a
mudar. Tornou-se mais generoso e mais compreensivo. Passou a haver maior cooperação, maior reciprocidade na terapia e fora
dela. O casamento número cinco - até então - seguia bem.
A necessidade de se proteger e de se defender do sofrimento, especialmente depois de tantas mágoas e rejeições, pode
sabotar o que queremos. Jay vivia com Martha havia anos. Ambos tinham saído de casamentos fracassados. Jay acreditou que,
finalmente, havia encontrado em Martha a mulher calorosa e compreensiva que buscava. Em vez disso, por causa de problemas
com os filhos do primeiro casamento, ela se tornou fria, distante e zangada. Virtualmente parou de se comunicar com Jay. O
sofrimento foi tão grande que Jay não conseguiu continuar sozinho, e, então, veio se consultar comigo.
Quando Martha soube que Jay estava fazendo terapia, sentiu-se extremamente ameaçada. Insistiu que eles tinham de resolver
suas dificuldades entre si. Jay, entretanto, reconheceu que isso seria impossível, já que Martha se recusava a discutir qualquer coisa
com ele. Depois de Jay ter comparecido a várias sessões, Martha concordou, relutantemente, que participaria de uma sessão com
o marido. Durante a sessão, não disse muita coisa, mas pediu que Jay tivesse um pouco mais de calma. Nas semanas seguintes,
Jay contou que Martha tinha começado a se abrir e a ser mais receptiva com ele.
Entretanto, algumas semanas depois, Jay chegou dizendo que iria deixá-la. Após meses implorando a ela que fosse mais
aberta e generosa com ele, ela estava atendendo a seus pedidos - mas, mesmo assim, ele havia decidido romper com ela.
- Não vejo futuro para nós dois - disse ele.
Perguntei-lhe por que e pedi que pensasse no que estava falando.
Ele pensou por um momento, e, então, disse:
- Quando algo começa a dar certo, tenho medo de ser magoado de novo. Fui magoado tantas vezes e por tanto tempo, que não
quero me arriscar novamente.
E, isto, depois de Martha ter deixado claro que gostaria que o relacionamento desse certo, que estava começando a se ver livre
de suas barreiras defensivas.
Martha havia se isolado no seu silêncio - e Jay retraía-se inventando suas próprias histórias, quando tinha medo de se
comunicar. Ele queria proximidade e ternura, mas também tinha medo de magoá-la e não falava abertamente sobre isso. Não a
confrontaria com seus sentimentos, especialmente a sua raiva pelo fato de Martha ter rejeitado seus esforços. O relacionamento dos
dois era de mãe-filho, em que Jay era compelido a agradar a mãe na esperança de receber amor. Martha era a mãe fria e
impassível. Jay reprimia seus sentimentos e retraía-se por conta disso, enquanto se afastava mais e mais da esposa. Finalmente,
quando Martha estava pronta a se tornar acessível, Jay havia criado tanta raiva e tantas defesas que ia lhe dar um pontapé - vingar-
se - e desperdiçar a possibilidade de esclarecer a situação.
Esse relacionamento aponta para outro problema - como os indivíduos reagem ao trauma. A interrupção na comunicação,
apresentada de modo tão comum como a causa de problemas nos relacionamentos, é, na realidade, parte da estrutura de defesa
em resposta ao trauma. Não é apenas uma interrupção na comunicação verbal, mas na comunicação emocional também. Há um
entorpecimento dos sentimentos e da sensibilidade. Se você não estende a mão para mim, por que eu devo estender a minha
para você? O resultado é que a relação baseia-se em tentativas, na qual cada indivíduo sente necessidade de pisar leve, para evitar
qualquer situação incômoda ou real. Com medo de represália, medo da própria raiva, a tendência é isolar-se, calar-se tanto
verbalmente quanto emocionalmente.
\u201cEla não fala comigo\u201d, é uma queixa comumente ouvida. \u201cVivemos como dois navios passando pela noite.\u201d Esse estado de
alienação é baseado no medo de que o cônjuge se irrite se o outro expuser seus sentimentos. Esse medo também é expresso em
termos de fragilidade: \u201cNão posso dizer nada, porque ela vai desmoronar, ela é tão sensível.\u201d Então o distanciamento continua, e
fica cada vez maior.
Não expressar sentimentos e reações em palavras, por sua vez, leva a pessoa a não expressar sentimentos em
comportamentos e em reações emocionais. \u201cPor que eu deveria dizer como me sinto? Ele não vai me ouvir, Não vai fazer a menor
diferença.\u201d \u201cNão consigo falar com ela. Ela faz ouvido de mercador.\u201d Estes são os refrões de relacionamentos rompidos por conta
do medo e do afastamento, um estado de resignação baseado em mágoas sucessivas.
Isto pode mudar? Poderia mudar no caso de Jay e Martha? Se um dos parceiros arriscar seus medos e reconhecer que a
frieza é em razão da evitação da agressão ou da possibilidade de se magoar, então a barreira do silêncio pode começar a ser
rompida.
Jay chegou a uma sessão dizendo: \u201cEu disse a ela que não posso ler sua mente. Se ela não disser o que está sentindo ou
pensando, não tenho como saber.\u201d
Este é o tipo de resposta que pode levar à mudança. Esse é também o tipo de reação inconcebível no meio de impasses
emocionais. É necessário reconhecer que o medo da raiva e o medo da fragilidade são aprendizados trazidos de relacionamentos
traumáticos anteriores.
Ela não é minha mãe, que praticamente desmaiava se eu lhe respondesse.
Ele não é meu pai, que me fuzilava com os olhos se eu expressasse meus sentimentos.
Ao alcançar esse reconhecimento, é possível mudar os relacionamentos atuais - a menos, é claro, que alguém tenha se casado
inconscientemente com um parceiro que seja muito parecido com um dos pais!
A compulsão à repetição é uma forma de traduzir em ação um trauma por meio de um comportamento destrutivo, embora
quase sempre o indivíduo não tenha noção de que é exatamente isso que está fazendo. Além disso, \u201csupra determinado\u201d é o termo
que usamos quando tal comportamento destrutivo é induzido por uma infinidade de fatores que o indivíduo não tem consciência,
Isso ficou tão evidente quando Louis veio ao meu encontro que até ele deve ter tido algum sinal do que estava lhe acontecendo.
Talvez, embora eu ache que Louis teria negado isso naquela época, interiormente ele sabia que alguma coisa que fugia ao seu
controle o estava conduzindo.
Quando conversamos pela primeira vez, fiquei sabendo que Louis estava casado havia dez anos, e que tinha acabado de se
decidir pelo divórcio. Contratara um advogado e estava tomando as medidas necessárias para pôr fim ao casamento. Não queria
discutir ou examinar o que o havia levado a essa decisão. Simplesmente sabia que tinha de se divorciar, e, embora tivesse me
procurado para uma orientação, deixou bastante claro que estava rompendo o casamento. Havia se tornado sufocante.
Então, se o problema não era o casamento, por que tinha ido ao meu consultório?
Bem, havia outras questões. E, enquanto eu recolhia informações sobre seu histórico,