O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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que esta não é a melhor maneira de lidar
com as discussões.\u201d
Mudanças dessa natureza vêm lentamente, mas quando Louis começou a assumir sua participação nos problemas do
casamento, não precisou mais reeditar o trauma da deserção do pai. Não sentiu mais necessidade de fugir das dificuldades.
Como foi dito anteriormente, a repetição de experiências traumáticas é baseada antes na sua expressão por meio de
comportamentos manifestos do que na lembrança do trauma e dos sentimentos que o acompanharam. Quanto mais Louis se
lembrava da dor de ter sido abandonado e da humilhação provocada por seu pai, menos sentia necessidade de repetir tais coisas
em sua vida adulta.
Capítulo 3
Repetição de comportamentos na criação dos filhos
Não é novidade que uma criação saudável é vital para gerar filhos emocionalmente saudáveis. No entanto, isto é tão difícil de
alcançar quanto de definir. O que é saudável? O que é bom para as crianças? Há muitos tipos de assistência paterna. Então, quais
deles são bons e quais são prejudiciais?
Alguns pais vêm de um ambiente familiar de intolerância e desarmonia. Outros, de um meio empático e compreensivo. Ambos,
indubitavelmente, foram educados por seus próprios pais. Será que eles poderão se transformar em pais saudáveis?
Há muita coisa envolvida nesta questão. Os pais podem divergir na capacidade de ver os filhos como indivíduos que estão se
tornando adultos. Alguns podem interpretar o comportamento dos filhos como parte de uma experimentação no processo de
crescimento. Esta abordagem aberta e liberal pode se basear no desejo de ver os filhos se transformarem em adultos
independentes e autoconfiantes. Tais pais sabem que os filhos cometerão erros e aceitam esta possibilidade, enxergando-a como
parte do processo de aprendizagem; assim os filhos se preparam para tomar suas próprias decisões. E às vezes, de uma maneira
nem tão saudável, esses mesmos pais podem ficar relutantes em estabelecer limites, pelo medo de reprimir a espontaneidade e a
imaginação dos filhos.
Outros pais precisam supervisionar todas as ações dos filhos para se certificar que eles aprenderam \u201ca maneira correta de
fazer as coisas\u201d. Eles acreditam que é seu dever incutir padrões e valores semelhantes aos filhos. Às vezes, exigem total
aquiescência dos filhos, até na forma como repartem o cabelo ou escovam os dentes. Seus lares são administrados com eficiência
e, possivelmente, de modo coercitivo. Acreditam que a vida é feita de obrigações e exigências. Se você acender a luz, então você
terá de desligá-la; se você dormiu na cama, então deverá arrumá-la ao se levantar etc.
Em vez de encarar tais cenários como certos ou errados, bons ou maus, é importante enxergá-los como um reflexo do modo
que os pais foram criados e de suas crenças. Ambos podem funcionar, embora eu acredite que um deles seja infinitamente mais
favorável à natureza das crianças que o outro. Ambos podem gerar crianças saudáveis se mensagens consistentes forem
comunicadas. É a inconsistência que causa confusão e encoraja a manipulação e o desencaminhamento. A mãe e o pai concordam
com o padrão estabelecido? Eles comunicam mensagens semelhantes aos filhos? Eles estão de acordo e se apresentam aos
filhos como uma força única? Caso sim, então tudo vai bem.
Mas, se, ao contrário, as crianças são expostas às inseguranças, dúvidas e confusões dos pais, então é quase certo afirmar
que elas herdarão algumas daquelas inseguranças. Se houver conflitos não resolvidos entre os pais e os avós da criança, e se
esses conflitos estiverem sendo reeditados na relação com a criança, temos, especialmente, uma receita de problemas.
Marty tinha 12 anos quando o conheci, um brilhante aluno da sétima série, que havia sido forçado pelos pais (\u201ccoagido\u201d seria,
talvez, a palavra certa) a ter algumas sessões comigo. Parecia que toda a sua vida, amigos, escola, atitudes, tudo estava sob
contínua alteração, eletrizante como uma montanha-russa. Durante semanas, e até meses, ele fazia o dever de casa e os trabalhos
escolares devotado e seriamente, e obtinha notas altas. Seus amigos eram, na maioria, crianças estudiosas e bem-comportadas.
Em outras ocasiões, Marty faltava às aulas. Tornava-se agressivo e negativo. Desligava-se dos bons amigos e associava-se a
marginais, envolvidos com drogas, criadores de problemas. Depois de algumas semanas agindo desse modo, voltava novamente a
estudar, a se encaminhar para as coisas boas que era capaz de fazer, enturmando-se com seus velhos e bons amigos - até que o
processo em espiral descendente se iniciasse.
Seus pais já tinham tentado tudo que conheciam para mantê-lo nos trilhos ou para fazer com que voltasse ao eixo: orientadores
educacionais, tutores e medicação - que Marty se recusava, agora, a tomar. Levaram Marty a inúmeros terapeutas antes de vir ao
meu consultório. Nada parecia funcionar, e, quando o trouxeram até mim, Marty havia mudado completamente o comportamento - da
eletrizante montanha-russa, ele se encontrava, agora, cabisbaixo, em uma grave espiral descendente.
Tinha me encontrado com seus pais e fiquei sabendo de tudo isso, e também fui informado de como Marty havia se tornado
hostil. E, já que ele estivera com outros terapeutas, também supus que, se concordasse em ver Marty, eu estaria diante de um
formidável opositor, alguém que havia, obviamente, derrotado todos os esforços anteriores para ajudá-lo. O que eu poderia oferecer
que ninguém mais fora capaz de oferecer? Certamente, não me considerava infinitamente mais talentoso e sábio do que nenhum
profissional de minha área. Mas, de fato, tinha um certo grau de habilidade, e muita experiência, e acreditei que conseguiria
dedicar-me a esse caso com alguma empatia. E aqui havia uma criança precisando de ajuda. Eu faria o meu melhor.
No entanto, quando chegou a hora de atender Marty, eu não estava preparado, como achei que estivesse, para a intensidade
de sua raiva. Era uma tarde de inverno quando nos encontramos em meu consultório, sem seus pais, somente nós dois. Ele se
estatelou na cadeira em frente à minha, cruzou os braços e as pernas, e fechou a cara para mim.
- Vim contra minha vontade - disse ele. - Não preciso disso. Já fui a vários \u201cespecialistas\u201d e a psiquiatras idiotas como você.
Todo mundo só se preocupa com minhas notas, meus amigos. É a minha vida! Então me deixem em paz! É tudo o que tenho a
dizer a você. Não vou dizer mais nada. E se meus pais querem desperdiçar o dinheiro deles, o que eu tenho a fazer é me sentar
aqui e desperdiçá-lo.
Bem, em alguns casos, como é sabido, o silêncio pode ser uma importante ferramenta psicoterapêutica. Mas, evidentemente,
não neste. E, assim, rapidamente assegurei-lhe que não queria que ele viesse à terapia se esse não fosse o seu desejo. Também
lhe disse que não me importava com suas notas nem com suas realizações no colégio ou com qualquer outra coisa que estivesse
preocupando seus pais.
- Ah! - fez ele. E revirou os olhos. - Então o que eu estou fazendo aqui?
Normalmente, essa teria sido uma ótima oportunidade de perguntar-lhe o que ele achava que estava fazendo ali - ou o que ele
esperava conseguir. Mas, com Marty, não havia tempo para esta reflexão silenciosa, pelo menos ainda não. E, então, continuei
dizendo que a única coisa que me importava naquele momento era o fato de ter se sentido maltratado por todos aqueles
\u201cespecialistas\u201d. (Bem, na minha cabeça disse aqueles psiquiatras idiotas.) Acrescentei que não queria ser apenas mais um. E eu
estava falando sério.
Nenhum comentário.
Será que ele poderia me dizer mais alguma coisa sobre \u201cPor que não me deixam em paz?\u201d
Ah, sim, ele tinha muito a dizer sobre isso. E, então, começou a falar, com muita raiva. E eu escutei. E, enquanto eu escutava e
tomava conhecimento do mundo de Marty, pensei, mais uma vez, como fazia frequentemente, que as crianças têm uma maneira
misteriosa de sentir e de manifestar o inconsciente dos pais. Irritabilidade,