O ciclo da auto sabotagem
120 pág.

O ciclo da auto sabotagem


DisciplinaPsicologia63.797 materiais447.490 seguidores
Pré-visualização47 páginas
dúvidas, sentimentos de inferioridade, conflitos, tudo isso
começa a ser comunicado aos filhos no momento que a criança nasce. Esses indícios são comunicados tanto pelo que não é dito
quanto pelo que é dito, tanto pelo que não é feito quanto pelo que é feito. E aquilo que somos, intimamente, também é comunicado
à criança. Molda e compõe o caráter e o desenvolvimento da criança. Constrói o verdadeiro senso de identidade da criança.
Alguns pais contam com seus filhos para sustentar sua própria posição na comunidade. Suas inseguranças e o medo de não
serem respeitados são depositados sobre a criança - que, então, deve oferecer-lhes o status do qual, desesperadamente,
precisam'. Eles se realizam por meio de seus filhos. Tais pais podem valorizar desmedidamente as realizações materiais. A
questão na mesa de jantar não é \u201cO que você está sentindo? O que você fez hoje? Você está feliz com seus amigos e
professores?\u201d, mas, sim, \u201cVocê fez o dever de casa? Você estudou piano? Você ganhou o jogo? Você foi bem na prova?\u201d
A criança fica com a pergunta interior: Eu sou amada pelo que sou ou por aquilo que realizo?
E, assim, comecei a saber um pouco mais sobre a família de Marty. Eu já sabia, após ter conversado com seus pais, que Ben
era médico, e, a mãe, professora do ensino fundamental. Eles eram participativos em sua comunidade e tinham um amplo círculo de
amizade. Haviam comentado sobre as várias atividades comunitárias das quais participavam, e sobre os filhos dos amigos. O pai
falou sobre outros médicos e suas famílias.
E foi isso que Marty trouxe.
- Eles só falam do que eles fazem, e do que os amigos deles fazem - disse Marty. - Eles me amolam por causa dos trabalhos
da escola. Eles dão no saco para eu participar desse grupo. Eles querem que eu jogue nesse time. Eu não quero nada disso. Aí me
levam a psiquiatras, orientadores educacionais, tutores. E quer saber? Tudo o que esses \u201cespecialistas\u201d querem é que eu realize o
desejo dos meus pais. Ficam me falando como meus pais são ótimos, como eu sou inteligente. Ah, é? Bem, não quero mais ouvir
isso.
Eu não o culpo - pensei.
- Você acha que ninguém realmente se importa com o que você quer - disse. - Você quer ser você.
- Isso - resmungou Marty.
Bem... E como eu ia transmitir isso a seus pais, obviamente bem-intencionados? Eles sabiam que Marty estava numa situação
de risco. Ele estava no vértice de uma espiral descendente, algo que poderia se repetir ao longo de sua vida. Marty queria ser
valorizado pelo que era, e não por aquilo que realizava. Ele não queria seguir as pegadas dos pais. Ele queria ser ele mesmo. E
não podia ser - não podia nem ao menos tentar descobrir quem realmente era -, porque os pais o sufocavam com suas
expectativas.
Seus pais não eram maus. Eles tinham expectativas. Então, o que há de errado nisso? Nada. Mas, sim, havia algo errado aqui.
As expectativas dos pais de Marty não levavam em consideração quem Marty era - ou, ainda, aquilo que ele gostaria de ser. Eles
queriam realizações.
Marty queria amor.
Era tudo o que ele queria.
E, assim, ao mesmo tempo em que realizava as sessões com Marty, comecei uma série de sessões com os pais de Marty,
Ben e Andrea. Durante anos era recomendado que crianças, especialmente os adolescentes, fossem atendidos sozinhos, com
pouco contato com os pais. Entretanto, dependendo das circunstâncias, descobri que o terapeuta pode identificar muita coisa
trabalhando com a criança e com os pais.1 Elementos podem emergir, a dinâmica familiar é revelada, e, geralmente, isto não é
possível só com a criança. O que apurei nas sessões individuais com Ben, pai de Marty, foi que, como médico, ele era amável e
atencioso com os pacientes. Era reconhecido por isso na comunidade, e respeitado, também, como um hábil diagnosticador. Era
um daqueles raros doutores que têm tempo de sobra para os pacientes, que escuta de fato. Os pacientes o adoravam. Em casa, no
entanto, e ele mesmo admitiu isso, Ben era totalmente diferente. No ambiente de trabalho, suas inseguranças não se manifestavam
- afinal, como médico, ele estava no comando. Mas, em casa, em um nível mais pessoal, não conseguia suportar o fato de ser
desafiado. Admitiu que ficava possesso quando Marty lhe respondia de modo insolente.
- Estou mandando-o para longe! - disse Ben. - O lugar dele é em uma escola militar. Logo ele vai entrar na linha.
Mas a boa terapia reside no terapeuta ajudar o paciente a falar, ou, mais importante, a escutar seus pensamentos, sentimentos,
lembranças. O terapeuta empático, o terapeuta criativo, é capaz de ouvir com um terceiro ouvido, a articular e a interpretar o que o
paciente realmente está dizendo.
Nesse caso, Ben queria que eu ouvisse determinadas coisas - mas eu estava começando a ouvir algo totalmente diferente. Ele
queria que eu ouvisse suas queixas do filho rebelde. Ele, realmente, havia chegado à conclusão que Marty devia ser mandado para
um internato - e queria que eu concordasse com isso. Ele acreditava que Marty devia ser punido ou tratado com \u201camor bruto\u201d. Queria
que eu concordasse. Queria que eu concordasse com suas ideias do que um filho devia e não devia fazer.
O que senti que ele não queria era descobrir que o filho rebelde estava apenas expressando inconscientemente a própria
história do pai. Quando deixamos de falar de Marty, soube muitas coisas a respeito de Ben. Soube que era o primogênito, e que
seus pais lhe diziam desde a infância que ele seria um aluno excepcional e que iria para uma escola de medicina. Era o que
exigiam dele. Ele se tornaria uma fonte de orgulho para eles. Reiteradamente, isso era semeado em Ben. Ele, o primogênito, seria
o \u201cNosso filho. O doutor\u201d.
Ben, entretanto, embora hábil e competente em seus estudos médicos, adorava música. Era um violinista talentoso. Ele lia e
interpretava o repertório de partituras musicais com graça e talento, e também compunha músicas, escrevendo partituras completas
para orquestra. Seus amigos e sua comunidade na escola e na faculdade também eram musicistas. Eles eram sua vida, sua fonte
de satisfação.
Os pais toleravam aquilo. Eles o mimavam. Concordavam que seus interesses e aspirações musicais eram bons - como hobby.
Mas - você não pode ter uma vida decente como um musicista. Você vai se tornar médico.
E assim ele fez. Tornou-se médico, e um bom médico. Abandonou a música. E o que isso tinha a ver com Marty? Pensei que
eu soubesse responder. Mas o que eu sabia era que seria difícil fazer com que Ben ouvisse. Achei que ele fosse rebelar-se contra
mim - como fazia claramente com o filho -, ao escutar coisas que não queria ouvir. E, então, prossegui cuidadosamente. Já tinha
indícios de que ele tinha certa raiva de mim e de alguns outros \u201cterapeutas charlatões que nem sequer eram médicos\u201d, os terapeutas
que ele havia levado Marty anteriormente. Ele achava que eles só tinham falado bobagem. E, por que não pensaria o mesmo de
mim? Trabalhamos juntos alguns meses, e comecei a perceber que, embora ele não concordasse completamente comigo em
algumas questões, havia se tornado mais disposto a ouvir. Finalmente, quando senti que havíamos estabelecido uma aliança
terapêutica, uma zona de conforto, trouxe à tona aquilo que considerei ser real.
- Percebo em seu comportamento em relação a seu filho - disse - que uma parte de você está gritando por liberdade, para ser
a pessoa que você queria ser. Percebo seu ressentimento pelo fato de ter tido de desistir do seu sonho. Você abandonou a música.
Você sente falta dela.
Por um momento, ele simplesmente me olhou fixamente. Abriu e fechou a boca. Não disse uma palavra, mas pareceu...
atordoado? Zangado? Será que eu tinha falado cedo demais? Será que eu o tinha provocado antes que estivesse pronto? E, então,
ele engoliu em seco e respirou profundamente, e vi que havia lágrimas se formando em seus olhos.
- Será que você não está com raiva de seu filho - prossegui delicadamente -, porque ele está se rebelando