O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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havia jurado que nunca faria com sua família o que o pai fizera com ele. O que se manifestou nas
sessões seguintes produziu forte impacto - não necessariamente em mim, mas certamente em Louis. Ao conversar, ele revelou que
o pai havia abandonado a família quando ele tinha a mesma idade do filho -10 anos. Além disso, o avô paterno de Louis, também
largou a família quando o filho tinha 10 anos. Louis estava para se tornar o terceiro pai na família a abandonar a mulher e os filhos.
Tudo isso ficou arquivado na mente de Louis, mas sem nenhuma conexão. Somente quando chamei sua atenção para a idade dos
meninos que foram abandonados por seus pais - 10 anos, a mesma idade do filho de Louis - que ele disse: \u201cVocê acha que eu
estou agindo da mesma maneira?\u201d
Decidi não responder, porque, às vezes, o silêncio é a resposta mais eficaz. Mas Louis não carecia da minha resposta.
Lágrimas brotaram de seus olhos e ele precisou de um tempo para se recompor. Mas este era o objetivo do nosso trabalho: fazer
Louis perceber o que estava acontecendo e, o mais importante, por que estava acontecendo. Encarar o ciclo da repetição foi o
primeiro passo para ter algum controle sobre o que ele estava provocando inconscientemente.
Talvez você pense que o caso de Louis seja exceção. O número de pessoas que repetem constantemente comportamentos
auto-destrutivos não é grande. Seria sensato perguntar se eu não estou exagerando. Afinal, se os seres humanos são movidos pelo
prazer, como sugeriu Freud, então certamente bom sexo, boa comida, diversão e conforto deveriam nos seduzir. Logo, pode
parecer implausível acreditar que um indivíduo continue agindo exatamente da maneira que o faz sofrer. Concordo que seja um
contrassenso. No entanto é plausível e possível. E ocorre constantemente. Não é preciso ser profissional para perceber como isso
se desenrola no dia a dia. Basta ler o jornal, ligar a televisão, conhecer história. Muitos de nós conhecem alguns exemplos da
repetição de temas autodestrutivos.
Consideremos o homem de negócios bem-sucedido que arrisca repetidamente a reputação e o capital em altos investimentos,
inclusive em apostas ilegais, até ser finalmente descoberto. E perde tudo. Ou - muitos já ouviram falar em algo semelhante - o
homem que se casa pela segunda, terceira e, até pela quarta vez, com o mesmo tipo de mulher que não o agradava ou satisfazia.
Nós, vizinhos e amigos, talvez consigamos perceber que a nova mulher é exatamente como as outras - mas, ainda assim, ele se
casa com ela. Ele não tem consciência dessa repetição, até que ela também deixa de agradar. E a mulher que cresceu tendo um
tirano como pai, um homem que foi física e talvez até sexualmente abusivo, escolhe o mesmo tipo de homem para se casar e,
muitas vezes, acaba indo parar na emergência de um hospital. Ela, no entanto, não vê nenhuma conexão entre o pai abusivo e o
marido abusivo.
O que dizer da criança cuja mãe cometeu suicídio na meia-idade, quando ela ainda era muito pequena, que, ao chegar à meia-
ida-de, decidiu abreviar a própria vida. O suicídio é contagioso? Ou essa também é uma forma de repetição arraigada e
desconhecida - impingir aos outros aquilo que eu mesmo sofri?
O que é importante sinalizar aqui é que essas vidas são infernizadas e destruídas pela compulsão à repetição. Quando digo
\u201ccompulsão\u201d, não estou me referindo apenas à clássica compulsão à repetição definida por Freud. Para ele, a clássica compulsão à
repetição era tão instintiva que seria virtualmente impossível exteriorizá-la, praticamente impossível de ser encarada e transformada.
Estou me referindo aqui a um tipo de repetição menos instintiva, mas igualmente insidiosa, uma necessidade inconsciente de
repetir muitas vezes um comportamento, um impulso de levar adiante um ato, não importando as consequências, mesmo que
destrua a vida e a felicidade de alguém.
Lembro-me agora de uma jovem e atraente mulher, Cory, que foi ao consultório com uma preocupação bastante prática. Ela
queria que eu a ajudasse a organizar seu tempo, suas tarefas. Ela queria estruturar sua vida profissional. Parecia um pedido
singular para uma mulher jovem, brilhante e capaz. Cory cursara uma ótima faculdade de direito e conseguira um emprego, depois
de uma rigorosa seleção, em uma grande e prestigiada firma de advocacia. Mas, depois de um tempo, começou a enfrentar
dificuldades para cumprir cronogramas e priorizar seu tempo, e, finalmente, soube que as chances de se tornar uma associada
eram nulas. E, assim, saiu do emprego. Agora ela abrira sua própria firma de advocacia, mas estava com os mesmos problemas
que enfrentara - planejamento, tempo. Quando tentei investigar mais profundamente sua história, ela se impacientou: \u201cSó quero me
ater ao problema que tenho aqui e agora\u201d, disse. \u201cComo administrar o tempo. Não tem nada a ver com o passado.\u201d
Embora eu não concordasse com ela, lembrei-me do que frequentemente considero sobre os pacientes iniciantes - Você age
como se tivesse nascido ontem, como se simplesmente tivesse surgido aqui, saído da casca do ovo. Mas Cory acabou falando
do seu passado. E logo ficou claro que, no seu caso, um exemplo clássico de escolha inadequada a tinha conduzido ao papel de
advogada superpoderosa. E, inconscientemente ou não, ela estava sabotando a si mesma. O pai havia decidido transformá-la em
alguém \u201cbem-sucedido\u201d, na verdade no filho que ele não teve. Concentrou toda a sua energia em fazer de Cory uma pessoa de
sucesso no \u201cmundo masculino\u201d. E embora tudo levasse a crer que era aquilo que Cory desejava para si, não era este o caso. Cory
tinha outros objetivos, inclusive alguns que só conseguiu perceber depois de muitas sessões.
Por quê? Porque os conflitos do passado não foram resolvidos. Cory e a figura internalizada do pai estavam brigando, numa
triste repetição do que havia começado bem antes. Mas ela não sabia disso, pelo menos não de modo consciente, e, assim, estava
condenada a repetir aquilo.
Existe um momento em que a pessoa consegue reconhecer essas repetições? É possível se dar conta disso? E o ciclo é
rompido realmente?
Questões difíceis. Mas acredito que as respostas sejam \u201csim\u201d. E \u201càs vezes\u201d. Embora eu admita que não é fácil. Indivíduos que
passaram a vida construindo uma concepção sobre si e sobre o mundo ao redor de uma determinada percepção equivocada
podem ter medo de contestar aquela visão, e isto é compreensível.
Essie veio até mim pela primeira vez em 11 de setembro de 2001. Muitos de nós, provavelmente o mundo inteiro, ficaram
traumatizados com os acontecimentos daquele dia assombrosamente terrível. Certamente aqueles que estavam lá, que foram
feridos, e que perderam entes queridos foram os mais traumatizados. Mas Essie não estivera no Marco Zero. Ela não conhecia
ninguém que havia estado lá. Mas quando o World Trade Center transformou-se em cinzas, o mundo ao seu redor também virou
cinzas. Ela ficou traumatizada, aterrorizada. E o pior de tudo: ficou praticamente incapaz de agir. Até o percurso de casa ao
consultório transformou-se numa barreira quase intransponível para ela.
Mas ela chegou. Depois de algum tempo e de algumas sessões, ficou claro que Essie se via como uma pessoa medrosa,
incapaz de lidar com o mundo como uma adulta, do tipo que se queixava mas não ia adiante, apavorada com os acontecimentos
mais corriqueiros. Este era o seu modo de ser, antes daquele dia. Mas, agora, com esses terríveis acontecimentos, ela havia
chegado às raias do desespero.
Alguns insights surgiram com clareza nos meses que trabalhamos juntos. Um deles foi particularmente comovente. Essie
decidiu enfrentar uma situação que se recusara a admitir havia muito tempo: o pai manteve relações sexuais com ela dos 9 aos 14
anos, quando, então, estava suficientemente crescida para exigir que ele parasse. Ela nunca contou nada a mãe, por achar que ela
não iria acreditar. Quando, finalmente, conseguiu me contar isso, seus olhos encheram-se de lágrimas. Ela empalideceu.