O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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sentir deprimido apesar das tentativas do filho de salvá-lo, essa criança poderá se sentir fracassada.
E, o que é pior, as crianças às vezes acreditam que o divórcio aconteceu porque não foram boas o suficiente. Em outras
palavras, é tudo culpa delas. \u201cSe eu tivesse sido uma criança melhor, se eu tivesse me comportado melhor, se eu não tivesse
arrumado tantos problemas, então o divórcio não teria acontecido.\u201d E este tipo de crença persiste, apesar de os pais afirmarem que
ela não teve nada a ver com a decisão do divórcio. E, muitas vezes, os pais se aproveitam dos filhos no campo de batalha que se
estabelece entre eles. Com o divórcio, os filhos ficam no meio da disputa dos pais por sua fidelidade. Isto, é claro, serve apenas
para gerar mais conflitos na criança.
Sandy era uma simpática menina de 7 anos, cujos pais haviam se divorciado. O pai, Gregory, havia se casado novamente, e
sua nova esposa, Elizabeth, embora demonstrasse sentimentos afetuosos em relação a Sandy, não aprovava o modo de ela ser
criada pela mãe. Greg era um homem passivo, e, ao casar-se com Elizabeth, havia se casado com uma mulher bem semelhante à
primeira esposa, a mãe de Sandy. Ele ficava nos bastidores, enquanto as mulheres comandavam o espetáculo. Em um fim de
semana, quando Sandy foi visitar o pai, um assunto comum, mas explosivo, teve início. A mãe de Sandy deixava o cabelo da filha
solto, com uma graciosa franjinha que ia quase até os olhos. A madrasta, Elizabeth, achava que Sandy parecia um cão pastor
desgrenhado. Ela tentava coagir Greg a levar Sandy a um salão de beleza. Não, ele não podia fazer isso. A mãe de Sandy não
queria, havia sido categórica quanto a não cortar o cabelo da menina. Apesar disso, Elizabeth levou Sandy à força a um
cabeleireiro. Na noite de domingo, quando o pai levou Sandy de volta à casa da mãe, ela ficou furiosa ao ver o cabelo curto de
Sandy. Ela teve um ataque. Greg ficou perplexo ante sua raiva. Qual era o problema? Era só um corte de cabelo.
Ou não era?
A história toda parece um tanto absurda. Era absurda. Mas aconteceu, e acontece em muitas famílias. E qual foi o resultado?
Depois dessa cena - e de muitas outras desse tipo -, Sandy passou a não querer mais visitar o pai e Elizabeth. Simplesmente
porque provocava brigas. O pai, a mãe, a madrasta, todos ficavam zangados. Ela não queria ser parte disso. Ela se retraía quando
lhe diziam que ia para a casa do pai. Recusava-se a ir. Greg, é claro, ficou furioso com a ex-mulher por não manter de pé o acordo
das visitas. Ele a levou novamente aos tribunais.
E isso era caso de tribunal? Não. Mas eles, com exceção de Sandy, conseguiam perceber isso? Mais uma vez, não.
Então, qual foi o resultado disso tudo? A madrasta, Elizabeth, conseguiu separar o marido da filha. A passividade de Greg
gerou mais raiva e problemas entre ele e a primeira esposa. Agora também havia problemas, entre Greg e a nova mulher, Elizabeth.
E Sandy, uma garota de apenas 7 anos, estava no meio dessa bagunça. Pior, ela começou a achar que a culpa de tudo era dela.
A autossabotagem aconteceu em todos os níveis e com todos os membros da família. O pai repetia com sua nova mulher os
mesmos problemas que ocorreram no casamento com a mãe de Sandy. Ele se comportava de modo passivo e tentava agradar a
todos, porque em sua criação, sentia que tinha de ser o \u201cbom menino\u201d de sua mãe, já que seu pai a havia abandonado. Era incapaz
de fazer valer seus direitos diante da mãe de Sandy, o que acabou contribuindo para o divórcio. Era incapaz de fazer valer seus
direitos diante da segunda esposa, o que criou a situação tensa quando ela arruinou a relação dele com a filha. A mãe de Sandy era
teimosa e revelava abertamente seus sentimentos. A madrasta de Sandy era dominadora e de opinião divergente, e Greg não
conseguia se impor a ela. Todos os adultos contribuíram para sabotar o relacionamento. Mas uma criança de sete anos era a vítima.
Alguém poderia se perguntar: será que, em razão de sua confusão e da recriminação a si mesma, ela também se tornará uma
adulta autossabotadora?
Esperamos que não.
E eu penso que temos de ser melhores que isso.
Capítulo 4
Repetição de comportamentos punitivos: salvamento e penitência
A maioria das crianças pequenas acredita que o mundo gira ao seu redor. Este é um estágio normal do desenvolvimento, com
sentimentos infantis de grandiloquência e narcisismo, e uma sensação de que se é o centro do universo. Com o desenvolvimento
normal, esse sentimento, gradativamente, se dissipa. Entretanto, quando certos pais colocam os filhos no meio de suas próprias
vidas e também de seus próprios conflitos, esse processo normal pode ser interrompido. A consequência é que muitas dessas
crianças desenvolvem um forte senso de responsabilidade, culpa e de recriminação a si mesmas. Elas recebem de herança uma
consciência severa e punitiva, dúvidas sobre si mesmas e falta de confiança. Se algo vai mal com seus pais ou com sua família,
acreditam que, além de ser culpa delas, é também sua responsabilidade corrigir os erros e consertar o estrago. Essa atitude vai
além do ambiente familiar, por meio de uma sensação generalizada de que o papel delas na vida é corrigir, ajudar, ajeitar as
coisas. E se elas não conseguem deixar as coisas em ordem (e qual criança consegue salvar um pai alcoólatra, por exemplo?),
crescem acreditando que fracassaram. E, assim, está formado o cenário para que a criança adulta continue tentando consertar o
mundo.
A percepção de si mesmo como o salvador torna-se parte de como essa pessoa lida com as outras. A criança que se sente
compelida a melhorar a vida de um dos pais maltratado torna-se o adulto que tem de melhorar a vida dos outros, mesmo à custa da
vida. E, assim, desenvolve uma atração por pessoas carentes, à espera de alguém que as resgate. Casa-se com alguém que
parece desamparado, débil ou incapaz. O indivíduo assume as rédeas e, é claro, consegue recompensas por estar sendo tão
prestativo e formidável. Entretanto, o motivo real pode não ter nada a ver com sentimentos caridosos. O que começou como pena e
preocupação com um dos pais que foi deixado desolado, e abandonado, torna-se um modo de vida, uma necessidade de fazer
algo pelos outros, ao mesmo tempo em que as próprias necessidades são negadas. No fim, o indivíduo se sente usado e exausto,
pois toda a sua energia está sendo despendida e ele não está recebendo apoio suficiente em troca. Quando alguém se sente
esgotado e acredita que estão tirando proveito de seu modo de ser, geralmente fica bem zangado.
Norman era um bem-sucedido empreendedor de 49 anos, casado três vezes, que dizia colecionar \u201cpássaros feridos\u201d. Os
pássaros feridos eram suas ex-esposas, que, tardiamente, Norman reconheceu não ser o que pareciam. Antes de se casar com
essas mulheres, Norman as achava bonitas, amorosas, inteligentes e, pensava, independentes. Elas se revelaram bonitas e
inteligentes, mas pouco amorosas e nem um pouco independentes. Enquanto aquelas mulheres tinham o que queriam, tudo ia bem.
E todas elas sabiam exatamente o que queriam - e queriam muito. A terceira esposa, particularmente, era inflexível e impiedosa.
Suas exigências eram, geralmente, irracionais. Ainda assim, se Norman não concordasse, deparava-se com uma barreira de
racionalizações, justificativas e explosões de fúria. Desde a escolha de uma mesa em um restaurante, até a escolha de amigos e de
onde passar as férias, sempre havia boas razões para tudo. E se Norman resistisse minimamente, então era a hora da bajulação,
da sedução, da manipulação. Subitamente, a mulher firme e exigente se transformava numa pessoa fraca, medrosa e doente, que
não podia ser contrariada. Ela se sentia no direito de pedir qualquer coisa, e Norman tinha de atendê-la.
A terceira esposa não tinha um emprego nem uma carreira, embora tivesse sido bem-educada e pudesse ter tantos empregos
bem-remunerados quanto quisesse. (O mesmo aconteceu com a primeira e a segunda