O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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esposas.) Além disso, ela também não
conseguia dar conta das tarefas domésticas. Precisava de uma lavadeira, de uma faxineira etc. Precisava, na verdade, de tudo:
roupas, joias, férias.
Norman queria realmente agradá-la. Ele queria agradar a todas as mulheres. Queria vê-las felizes e satisfeitas. Tentava
satisfazer seus desejos até constatar que aquilo era impossível. Faturas imensas chegavam todos os meses. Mas questionar as
despesas com roupas novas, joias e cabeleireiro não estava em discussão. \u201cVocê não sabe quanto custam as coisas. Você não
entende as mulheres. Você não se importa com a minha aparência. Eu seria motivo de piada se usasse este vestido novamente.\u201d
Ou, \u201cComo você tem coragem de pensar em passar as férias nesse lugar? Você sabe que sofro de alergia e como fico mal indo lá.
Vamos a algum lugar que não ataque a minha alergia.\u201d Essas eram as respostas, e não havia espaço para negociação.
Então, por que Norman se via eternamente nessa situação? Ele precisava elevar sua autoestima, demonstrando que podia
agradar e satisfazer belas mulheres, e escolhia aquelas que exigiam ser atendidas. Precisava de mulheres que simulassem estar
desamparadas, para que ele pudesse salvá-las. Ele não queria que suas esposas trabalhassem, já que isto prejudicaria sua
posição de provedor, de salvador. Embora reclamasse disso, Norman precisava ser o coroa rico da graciosa e exigente garotinha -
até que não conseguisse mais satisfazê-la. Precisava de mulheres que necessitavam ser salvas. E ele tentava, mas sentia que seus
esforços nunca eram o bastante. Sua necessidade de se sentir importante salvando os outros deparava-se com a sensação de
fracasso, porque sempre havia um obstáculo no seu caminho.
Nas nossas sessões descobri que o pai de Norman havia sido cruel. Ele era verbalmente agressivo com a família e ganhava a
vida com dificuldade. Era uma pessoa crítica e cronicamente desgostosa de tudo. A mãe de Norman achava que não tinha outra
escolha senão ficar com o marido. Não havia dinheiro suficiente, e eles tinham três crianças pequenas. Norman achava que tinha de
consolar, apoiar e melhorar a vida da mãe, que confiava nele para ajudá-la na sua triste sina. Norman sentia pena da mãe, e jurou
que nunca trataria as mulheres como o pai, e que nunca seria o tipo de homem que o pai era, Na verdade, Norman passou grande
parte da sua vida tentando não ser o pai.
Norman havia tido um rendimento excelente no colégio, e, por meio de trabalho e bolsas de estudo, completou a faculdade,
especializando-se em negócios. Ele queria ganhar dinheiro para fugir da pobreza na qual crescera e melhorar a qualidade de vida
de sua mãe, tornando-a mais fácil. Foi muito bem-sucedido, e ampliou sua necessidade para dedicar-se à salvação de outras
mulheres. É claro, ele também precisava ser salvo, certificando-se de que era um sucesso, medido não apenas pelo fato de estar
numa posição dominante, mas pela capacidade de enaltecer-se, estando acompanhado por belas e atraentes mulheres que
precisavam dele. Entretanto, quando chegou até mim, reconheceu que havia recebido mais do que pedira.
Norman estava com medo de repetir aquele padrão que havia reconhecido em si, mas sentia-se impotente para detê-lo. Ele
não conseguia dizer não a nenhuma mulher e, especialmente, à esposa. Além de não adulá-lo quando ele não a satisfazia, ela
também se enfurecia e o humilhava, chegando até a esvaziar suas gavetas e a espalhar suas roupas por toda a casa. Ela se tornava
cada vez mais exigente e agressiva com ele, e ele continuava retribuindo com novas agressões. Não conseguia deixá-la, não
conseguia convencer-se a deixá-la.
Foi um trabalho árduo fazer com que Norman enxergasse o que estava acontecendo - e por quê. Ele, finalmente, compreendeu
que estava pagando uma penitência pela raiva e culpa que sentia do pai. Embora recebesse satisfação agradando a mãe, tal
satisfação tinha um preço: tratar o pai como uma pessoa cuja existência era negligenciada. Sentia muita culpa e muita raiva por
fazer pela mãe aquilo que o pai não conseguira fazer. Ele conquistou a afeição da mãe à custa do pai.
Ele não conseguia deixar essa mulher porque ela era mui|to agressiva e satisfazia suas necessidades de ser punido. Precisava
agradá-la e ser punido ao mesmo tempo, e ela era a pessoa adequada para isso. A solução de Norman para esse dilema foi
abandonar a terceira esposa e oferecer-lhe um acordo que fosse muito mais generoso do que o necessário, ou até concordar com
o que fosse combinado por seu advogado. Norman tinha de quitar completamente suas dívidas.
Ele irrompeu em lágrimas quando ouviu-se dizer que não havia tido um pai que pudesse admirar, nem infância, e que assumira
responsabilidades quando deveria ter sido livre para ser criança. Ele estava triste e bastante zangado. Sentiu-se aliviado, como se
um peso tivesse saído de suas costas, depois de experimentar e expressar sentimentos dolorosos contra sua solidão e o fato de
não ter tido ninguém para apoiá-lo verdadeiramente em seu processo de amadurecimento. A concepção de que masculinidade
significava submeter-se e satisfazer os desejos e expectativas das mulheres era falsa. Ao salvar \u201cpássaros feridos\u201d, ele buscava se
afirmar, e não era isto o que realmente queria para si. Chorou quando se deu conta de que tinha necessidades que precisavam ser
satisfeitas, que havia sido privado do carinho e do orgulho de um pai que aprecia o filho e quer o melhor para ele. Estava com raiva
por não ter tido nada disso. Estava bravo por ter sido o provedor de cuidados para com a mãe. Sentia-se enganado e privado de
tudo. \u201cPor que tenho de ser o marido ou o pai, e nunca a criança ou o filho? Escolhi mulheres que necessitavam de mim, de modo
que o cuidado com elas servisse para continuar encobrindo minhas necessidades, quando o que realmente queria era alguém que
me desse algo, que cuidasse de mim.\u201d Ele se lembrou de algumas ocasiões em que sua primeira mulher tentou oferecer-lhe
conforto e apoio. Rejeitara-a com raiva. Ele evitava encarar a profunda necessidade de dependência, sentindo que isso o rebaixava
enquanto homem. \u201cNão podia permitir que elas me dessem nada. Eu tinha de ser o mandachuva, porque não conseguia aceitar
minha necessidade de ser uma criança com suas carências.\u201d
Não sei o que aconteceu a Norman depois que o nosso trabalho chegou ao fim, mas sei que, quando foi embora, ele se sentia
mais inteiro. Era um ser humano que havia percebido que não precisava mais salvar \u201cpássaros feridos\u201d, simplesmente porque ele
também havia sido ferido.
Laura procurou a terapia porque estava prestes a se divorciar do marido. \u201cNão suporto mais vê-lo beber\u201d, disse ela. \u201cEle se
recusa a parar. Ele se recusa a ir ao AA. Insiste que não é um alcoólatra, que não tem problemas com a bebida.\u201d
Procuro me inteirar de um caso, geralmente, na primeira sessão, perguntando por detalhes sobre pais e irmãos, para encaixar
o paciente e sua situação num contexto.
\u201cMeu pai era uma pessoa boa, dócil, e bem-humorado, exceto quando bebia\u201d, disse Laura. \u201cQuando bebia, ficava distante,
introvertido, e não abria a boca para falar conosco. A família aprendeu que deveria deixá-lo sozinho naquelas ocasiões. Crescemos
achando que era assim que as coisas tinham de ser. Mas eu me ressentia. Ele era ótimo num dia, e extremamente ausente no outro.
Não conseguia suportar a sua inconstância e imprevisibilidade, como minha mãe. Jurei não passar por aquilo de novo. Não quero.
E não vou.\u201d Quando perguntei a Laura sobre seu marido, disse-me que ele trabalhava arduamente e era um bom provedor. As
crianças o adoravam. \u201cMas ele bebe, e eu não vou conviver com isso.\u201d
Nesse ponto é extremamente importante para o terapeuta manter-se alerta para o impacto do álcool nos pacientes e em suas
famílias. Embora alguns indivíduos não se embriaguem nem se atrasem na volta para casa, há pessoas que experimentam uma
mudança de personalidade e no modo de se relacionar com os outros, com