O ciclo da auto sabotagem
120 pág.

O ciclo da auto sabotagem


DisciplinaPsicologia63.797 materiais447.490 seguidores
Pré-visualização47 páginas
apenas uma dose. Em outras palavras, não é a
quantidade ou a frequência com que se bebe que define o alcoólatra. Certamente é o que o álcool causa à pessoa e aos seus
relacionamentos. Eu queria saber qual o efeito da bebida no comportamento do marido de Laura.
\u201cEle não fica bêbado, ele não falta ao trabalho, ele ajuda nas tarefas de casa, mas toma vinho no jantar toda noite!\u201d
Laura podia estar reagindo exageradamente, com base nas experiências traumáticas da infância com o próprio pai? Parecia
possível. Mas era preciso cautela, antes de chegar a alguma conclusão. Então, pedi que o marido de Laura fosse ao consultório e
fui prontamente atendido. Ele estava perdido, não conseguia entender por que Laura estava querendo se divorciar.
\u201cNão sei por que devo deixar de tomar uma ou duas taças de vinho no jantar. Eu gosto disso. Me faz relaxar. Não afeta minhas
tarefas domésticas, meu relacionamento com meus filhos, ou meu desempenho no trabalho. Não interfere no meu modo de me
relacionar com minha esposa, mas ela está transformando isso num problema. Não é a taça de vinho que está causando o
problema. É a Laura. Ela está me deixando louco. Ela quer que eu frequente o AA. Não tenho nada contra o AA. Sei que há muitos
alcoólatras que negam ter problemas com o álcool. Mas eu, realmente, não tenho. Não há casos de alcoolismo na minha família. O
máximo que eu consumo são duas taças de vinho no jantar e nunca bebo em outras ocasiões, e o vinho não me causa nada. Nunca
bebo demais ou fico bêbado. Isto simplesmente não faz sentido para mim.\u201d
Não fazia sentido. Para ele. Mas fazia sentido para Laura. Fazia uma espécie de sentido íntimo, porque Laura estava reagindo
ao que havia acontecido há muito tempo, não ao que estava acontecendo agora. Estava reagindo ao pai. Ela estava imaginando
que teria problemas com o álcool e criando uma situação que não existia, baseada apenas em seus temores.
Isso foi discutido com Laura, que demorou a aceitar o fato de que estava reagindo de forma exagerada. Não conseguia
acreditar que havia ficado tão traumatizada com a bebedeira do pai a ponto de se tornar tão sensível a isso - uma reação comum a
qualquer trauma. Laura estava repetindo o passado. Ela achava que havia fracassado na tentativa de ajudar o pai a parar de beber,
porque sua família de origem era disfuncional. Acreditava que era sua responsabilidade fazer com que o pai parasse de beber, e
que fracassara. Agora, tinha de impedir o marido de fazer o que o pai fizera. Ela não podia falhar novamente! Estava cumprindo a
promessa de nunca viver com um beberrão. Mas, até o momento, estava repetindo seu passado de tal maneira que colocava em
risco seu casamento. Foi preciso uma intervenção, algum discernimento e muito tempo para Laura perceber que podia estar
casada - e talvez até gostasse disso - com um homem que tomava uma taça de vinho no jantar. Ela estava tentando salvar o marido,
que, de fato, não tinha nenhuma necessidade de ser salvo.
Existe uma crença, comum a várias pessoas, que permeia grande parte de nosso raciocínio: o pensamento equivale à ação.
Desejos e fantasias proibidos são vivenciados como se fossem ações. Sentimo-nos culpados pelo que pensamos, desejamos ou
fantasiamos, como nos sentiríamos se tivéssemos praticado aquelas ações. Em outras palavras, crianças pequenas que desejam a
morte dos pais porque não obtêm o que desejam devem implorar por perdão, não pelo que fizeram, mas pelo que pensaram. A
esposa ciumenta age como se o marido lhe fosse infiel só de olhar para outras mulheres - em função da crença arraigada de que o
pensamento equivale à ação.
Psicologicamente, seres humanos, tanto crianças quanto adultos, são capazes de todo o tipo de desejo, pensamento e
fantasia. Eles são parte da condição humana; são o que mantêm a criança viva dentro de nós, adultos; são necessários para a
criatividade. Eles devem ser celebrados, não negligenciados. Ainda assim, muitas pessoas passam a vida pagando penitência pelo
que pensaram, e não pelo que fizeram. Os sobreviventes não querem sucumbir às terríveis provações. O impulso é de preservação
da vida, de preservação da espécie. Mesmo assim, se uma pessoa sobreviver, e todos à sua volta perecerem, ela pode se sentir
culpada, porque seu desejo de sobreviver se tornou realidade, que é vivenciado como se ela tivesse sacrificado aqueles que
pereceram. Há quem considere isso como um exemplo de Schadenfreude, uma sensação de prazer provocada pela desgraça
alheia, embora este não seja exatamente o caso.
Quando Lynne veio pela primeira vez ao consultório, achei-a brilhante, altamente motivada a atingir suas metas, determinada,
uma workaholic de fato. Ela assumia responsabilidades acima e além do que era necessário, tanto no emprego quanto no trabalho
voluntário. Sentia-se assoberbada. Mas também recebia crédito pelo que fazia - era promovida, ganhava prêmios, ganhava
reconhecimento. Ela assumia muito mais coisas do que podia administrar, e isto consumia o seu melhor. Fiquei sabendo que,
depois de terminar a faculdade, Lynne havia tentado, pela primeira vez, o suicídio, indo parar no hospital. Foi enviada para um
tratamento ambulatorial com um terapeuta com quem se relacionava bem. Mas o contrato era claro. Se tentasse o suicídio
novamente sem informar previamente o terapeuta, a terapia estaria encerrada. Lynne conseguiu um novo emprego, que lhe exigia
mais ainda. Iniciou o mestrado. Tornou-se mais ativa em mais organizações. Continuou na terapia. Sentiu-se sobrecarregada, e
tentou o suicídio novamente. O terapeuta a dispensou. Logo depois dessa segunda hospitalização, Lynne foi encaminhada a mim.
Lynne estava motivada a solucionar seu problema, mas era algo difícil. Uma das primeiras coisas que fiquei sabendo foi que,
quando Lynne estava no início da adolescência, sua mãe se suicidara. Ninguém sabia por que isso havia acontecido. Lynne e a
mãe se davam bem, e a perda da mãe era a causa de sua confusão, tristeza e solidão. Lynne não tinha ninguém com quem
conversar. O suicídio da mãe foi um choque e, neste estado, Lynne não conseguia sentir nada. Estava brava, mas não se permitia
sentir raiva da mãe. Estava triste, mas não se permitia enlutar pela morte da mãe. Tudo o que sabia era que estava sozinha. Ela
apenas se arrastava o melhor que podia, saindo-se bem no ensino médio e na faculdade. Era uma pessoa popular, ativa em
organizações e uma grande empreendedora. Continuou a ser criada pelo pai, que sempre foi distante, tanto com a esposa quanto
com a filha. Ele prosseguiu vivendo como se tivesse dado pouca importância ao suicídio da esposa e mãe de sua filha. Ele era
apenas uma presença para Lynne, e isto era tudo. Demonstrava pouca empatia pelo que Lynne vivenciava, porque ele mesmo era
muito ausente.
Lynne desejava e precisava dos cuidados que havia perdido quando sua mãe cometeu suicídio. \u201cPor que ela fez isso? Por que
me deixou? O que eu fiz para ela decidir se matar?\u201d Lynne se perguntava.
Com o tempo, Lynne e eu investigamos a culpa que ela sentia pelo suicídio da mãe. Trabalhamos a raiva que sentia pela mãe
por tê-la abandonado e o distanciamento do pai. Discutimos o comportamento terrível da segunda esposa do pai em relação a ela.
Mas lidamos, principalmente, com os sentimentos de Lynne. O que parecia mais importante é que Lynne sentia que devia pagar
uma penitência por ter desapontado a mãe. Em que sentido? Ela não sabia. Mas sabia que era culpada de alguma coisa.
Alimentava este sentimento horroroso e corrosivo de que decepcionara a mãe terrivelmente. Gradativamente, entretanto, foi
percebendo que, subjacente ao seu comportamento compulsivo e determinado, havia uma motivação de fazer com que a mãe se
orgulhasse dela, e de obter, assim, seu perdão. Perdão? Sim, porque era como se o suicídio da mãe tivesse sido causado por
algum desejo de Lynne de que ela morresse, e quando a mãe, de fato, cometeu suicídio, a culpa foi de Lynne. Embora não tivesse
nenhuma lembrança desse