O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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desejo, havia grandes possibilidades de que, na criação de Lynne, como na de todas as crianças, ela
tivesse alimentado o desejo de que os pais morressem.
Lynne começou novamente com seu comportamento compulsivo e demos um freio na sua tendência a assumir tanta coisa. Ela
começou a entender que o ímpeto de se manter ocupada representava sua maneira de provar o quanto era digna e o valor que
possuía. Ajudava-a a compensar a tenebrosa crença de que a mãe cometera suicídio por causa de seus fracassos imaginários.
Manter-se ocupada também ajudava a atenuar os sentimentos reprimidos de raiva e de perda - uma perda pela qual nunca se
enlutara. Lynne foi capaz de compreender que se colocava sob intensa ' pressão para autoafirmar-se. Ela conseguiu ver que o
suicídio da mãe não tinha nada a ver com ela, e que fora motivado por razões que Lynne talvez nunca viesse a saber. Mas
compreendeu que não era a causa daquele suicídio, e que não tinha de se matar de trabalhar ou suicidar-se para pagar esta
penitência.
Isso exigiu uma mudança radical em seu estilo de vida. Quando se sentia tentada a assumir mais responsabilidades,
persuadia-se do contrário. Sentia um vazio por não se atirar em várias atividades. Temia que estivesse escolhendo o caminho mais
fácil, ao ter tempo para o lazer, para se divertir. Lynne tinha de pagar o preço máximo com a própria morte, com as tentativas de
suicídio. Quando alguém sofre uma perda como essa e não se enluta, há um preço interno a ser pago, mais frequentemente na
forma de depressão. Lynne estava deprimida e brava, e queria ou cometer suicídio, ou trabalhar até a morte.
Lynne não queria morrer. Ela desejava ardentemente viver, mas isto a fazia se sentir ainda mais culpada. Com o tempo, ela
conseguiu expressar a raiva, o desapontamento, a dor pela morte da mãe. Foi capaz de atravessar um período de luto, sem se
lançar em atividades frenéticas. O vazio que sentiu quando tentou não se manter sobrecarregada de trabalho dissipou-se, e então,
finalmente, foi capaz de viver sem ter de justificar sua existência para a mãe. Ela também se permitiu apreciar a vida sem ter de
fugir para atividades compulsivas.
Nunca quis ser como minha mãe.
Como terapeuta, ouço essa frase muitas vezes. \u201cNunca quis ser como minha mãe. Quando era pequena, prometi a mim mesma
que, quando crescesse, nunca seria daquele jeito. Mas quanto mais velha eu ficava, mais eu percebia que estava agindo da mesma
maneira\u201d1.
A internalização desses relacionamentos, por mais negativos que sejam, é poderosa e persistente. O indivíduo pode rejeitá-la
verbalmente, mas ela sobrevive no inconsciente. Pode arruinar futuros relacionamentos e destruir vidas. E ocorre de maneira
insidiosa. Há momentos em que o indivíduo está cheio de dúvidas sobre suas próprias habilidades. Talvez ele, realmente, não se
sinta capaz e à altura das responsabilidades de um emprego. Ele pede ajuda, mas quando ela é oferecida, descarrega a raiva na
pessoa que lhe estende a mão.
Esse processo é repetido frequentemente. Em vez de matar o mensageiro, é o caso de matar o ajudante.
Mark estava casado com Sally havia dez anos. Não tinham filhos. Mark era instruído, mas não ganhava muito. Seu currículo era
irregular. Ele trabalhava aqui e ali, saindo-se relativamente bem, mas constantemente era dispensado do serviço.
Sally, por outro lado, ocupava um cargo de responsabilidade havia bastante tempo. Conseguia bons relatórios anuais de
desempenho, era agraciada com bônus e recebia um bom salário. Quando ela e Mark vieram até mim, ela se apresentou como uma
pessoa dotada de autoconfiança e independência. Ela também estava brava. Não demorou muito para acusar Mark de não
contribuir de modo apropriado para a família, manifestando a sensação de que havia sido abandonada.
O que começou a sobressair rapidamente, entretanto, foi que Sally, apesar de se mostrar confiante, era bastante insegura. A
despeito do que professava, ela não se sentia realmente merecedora da posição que ocupava. Às vezes, quando lhe entregavam
projetos, sentia-se oprimida. Aí, então, pedia que Mark a ajudasse na pesquisa ou nos cálculos necessários para solucionar os
problemas técnicos de seu projeto. Mark sempre estava disposto a ajudar, e, por sinal, era bastante eficiente. Tinha muitos talentos
que eram úteis a ela. Mas embora Sally solicitasse seu apoio, ela se ressentia disso. Ela se ressentia de lhe pedir ajuda, e de ser
ajudada. Para ela, embora ainda não tivesse se dado conta, precisar da ajuda de Mark era algo que a humilhava.
E onde ficava Mark nessa história? Ele se sentia em apuros. Recebia mensagens contraditórias de Sally. Por um lado, estava
sendo chamado para ajudar. Quando ajudava, ela ficava com raiva. Na verdade, ela ficava furiosa. Ela era combativa em sua
necessidade de ser independente, de fazer tudo sozinha. Contudo, quando não conseguia, sentia-se enfraquecida e vulnerável,
pedia ajuda, e... sim, era um círculo vicioso. O que Mark deveria fazer? O que qualquer pessoa faria numa situação dessa?
Sally me disse logo no começo: nunca quis ser como minha mãe. A mãe era uma mulher brava. Sentia raiva por ter um marido
e filhos que precisavam dela. Na verdade, sua mãe estava sempre brava. Como mãe, cedia, porque sentia que precisava fazer isso,
mas se ressentia depois. Ela cedia, ressentia-se, e então se afastava daqueles que se agarravam a ela. Embora Sally dissesse
claramente, \u201cNunca quis ser como minha mãe\u201d, estava se comportando tal qual a mãe. Ela, assim como a mãe, precisava preservar
a imagem de ser uma pessoa competente e independente que construíra, porque vulnerabilidade significava se machucar.
Mark se tornou a mãe de Sally - ajudava quando ela pedia, mas Sally recriou o enredo no qual pedir ajuda equivalia a ser
rejeitada depois. Mark, por sua vez, tinha necessidade de continuar ajudando e de salvá-la para compensar seu sentimento de
inadequação por não conseguir permanecer num emprego e não contribuir de modo satisfatório com as finanças da família (tanto
quanto pelas circunstâncias de seu próprio passado). Ao ajudar Sally, fortificava-se. Sally, no entanto, não permitia isso, e o ciclo era
tão constante que Mark quis desistir. Mark se cansou de ser o salvador para ser, então, humilhado, e queria pôr fim à relação.
É necessário fazer uma observação sobre o desejo de Sally de não querer ser como a mãe. Sally tinha apenas uma vaga
percepção dessa influência, mas, ao se inteirar, tornou-se apta para interromper o comportamento destrutivo em relação ao marido
e a si própria. Como sinalizei para Mark e Sally, eles estavam se arriscando a repetir esse comportamento interativo em relação
aquele casamento ou a futuras uniões.
Pela repetição, acreditamos que podemos sobrepujar as dificuldades, mas, geralmente, isto também leva a uma catástrofe.
Parece que há um impulso inexorável de minar, de desfazer as mudanças tão duramente conquistadas. Como ouso? Como ouso ter
um bom casamento quando minha mãe sofreu tanto no seu detestável casamento com meu pai? Como ouso ser bem-sucedido no
trabalho quando meu pai odiava o seu? Como ouso apreciar a vida quando outros perto de mim não conseguem? Como ouso viver
quando os que estavam perto de mim pereceram? Minha culpa me priva de consolidar e de celebrar minhas realizações e minha
felicidade. Meu sucesso deve ser desfeito.
A culpa por ter sobrevivido é muito forte. Antes de mais nada, impede o sucesso ou leva a ciclos de autossabotagem em que o
indivíduo se torna bem-sucedido, e, então, sente-se na obrigação de minar o sucesso fracassando. Casamentos problemáticos
melhoram só para serem derrubados pelo comportamento destrutivo de um dos cônjuges e os problemas recomeçarem. Alcoólatras
encaram seu problema e param de beber, somente para terminar bebendo novamente, apesar de terem jurado que seus dias de
bebedeira haviam terminado. A boa vida, a vida pacífica, é insuportável. Os sobreviventes não conseguem tolerar a paz e a
tranquilidade.