O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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Eles precisam de agitação e de problemas para se sentir vivos.
\u201cQuando estou no meio de uma discussão com minha mulher, eu entro num \u2018barato', tenho a sensação de estar vivo\u201d, um
homem me disse. \u201cTenho de sentir tensão. Sem tensão e sem problemas, me sinto aborrecido e morto.\u201d
Esse é um tema que reaparece com frequência, embora nem sempre de modo óbvio. A briga, a tensão, é racionalizada pelas
circunstâncias, mas o tema subjacente é, de fato, bastante diferente. O tema é que a paz e a quietude equivalem à morte. A culpa
por obter o que não devia ser obtido deve ser sabotada. A paz não é merecida, a satisfação não é merecida, o sucesso não é
merecido. Com o intuito de aliviar a culpa, é essencial salvar, penitenciar-se, pagar um preço. Às vezes, o preço não é somente a
inabilidade do indivíduo de vivenciar o prazer e a tranquilidade, mas também de apreciar a própria vida.
Um bom exemplo pode ser a vida - e, enfim, a trágica morte - de Primo Levi. Ele sobreviveu aos campos de concentração e se
tornou um grande escritor. Depois cometeu suicídio.
O que é o medo do sucesso? Isto existe realmente? Ou muito já se falou sobre isso quando, na verdade, tudo não passa, de
uma miragem? Talvez. O fracasso nos negócios ou nas artes, ou em qualquer outro empreendimento, pode ser real - o resultado de
uma queda na bolsa de valores ou de um mau aconselhamento profissional, ou, às vezes, simplesmente de má sorte. Mas quando
acontece repetidamente, alguma outra coisa está atuando com bastante intensidade. Geralmente, é um sentimento corrosivo de
culpa por ter uma vida melhor que a dos outros, uma sensação de não merecer tanto. Para alguns, o sucesso é equivalente a
derrotar os outros, destruir os outros. O sucesso torna-se um palavrão, evidenciando que o indivíduo está, de alguma forma,
usufruindo de algo que não merece. É difícil confessar e aceitar a responsabilidade final pelo sucesso - deve ter sido um acaso, um
acidente. Não posso acreditar que meus esforços foram bem-sucedidos. A crença subliminar é que eu não mereço o sucesso e
que, se obtiver, devo me desfazer dele, miná-lo, bagunçar tudo. Falamos sobre o medo do fracasso, mas o medo do sucesso é tão
problemático quanto.
Alan montou um pequeno negócio, que parecia ir muito bem. O negócio exigia conhecimentos especializados sobre peças
esotéricas colecionáveis, e ele treinou bastante. Desenvolveu uma reputação como especialista no ramo. Entretanto, quando o
negócio estava prestes a se tornar o que deveria ser, ou poderia ter sido, um sucesso fenomenal, ele acabou se sabotando. Ia para
o escritório e, em vez de se ocupar das coisas importantes que precisavam ser feitas, ocupava-se de assuntos insignificantes. E
essa não era a primeira vez. Ele tinha um histórico de começar projetos, alcançar um certo grau de sucesso e, então, perder o
interesse.
Além disso, as coisas não estavam bem em seu casamento. Por mais que amasse a esposa, vinha evitando ter relações
sexuais com ela havia anos. Ele não entendia por quê. A esposa desistiu de reclamar, porque Alan se tornou evasivo e defensivo.
Eles haviam decidido, antes de se casar, que não teriam filhos. A mulher tinha uma carreira sólida e se dedicava a ela, e evitava
insistir no assunto da intimidade do casal.
Alan começou a terapia porque, finalmente, reconheceu que estava numa encruzilhada em seu negócio, e que sua vida pessoal
também não estava bem. Depois de vários meses, Alan mencionou o seguinte sonho: \u201cEstava assistindo a um jogo de basquete
feminino. Um dos times era de uma universidade tradicional, composto, principalmente, por mulheres altas e brancas. O outro time
era formado por mulheres baixas de uma faculdade pública, notadamente inferior. O time da faculdade pública ganhou. Comecei a
chorar de felicidade porque o time da faculdade pública ganhou.\u201d Ele revelou que o time vencedor era considerado a zebra da liga.
O fato de as mulheres desse time serem baixas levou Alan a fazer a associação de que elas seriam as prováveis perdedoras. Ele
continuou dizendo que, geralmente, torcia pelos perdedores e que, na vida real, ficava completamente comovido quando um time
tido como a zebra vencia a partida. Por quê? Porque ele se sentia um provável perdedor e, portanto, sentia afinidade com os
azarados. Ele enxergava o pai como um vencedor, o que tinha poder, em contraste com ele, o perdedor. Alan queria vencer, mas
não conseguia. Precisava de alguém para ser o vencedor, de modo que pudesse admirá-lo, e supunha que, pelo fato de ser o
vencedor, esse alguém poderia tomar conta dele. Como perdedor, Alan não teria de assumir responsabilidades, e não precisaria
sentir culpa de ser mais bem-sucedido que o pai.
Alan, o mais velho de três irmãos, foi criado por uma babá. A mãe era uma mulher de negócios que estava sempre ocupada. O
pai era bem-sucedido, alcoólatra e exibicionista. Ele tinha de ser o mandachuva da família. Só estava interessado em falar do seu
sucesso e demonstrar quanto era bom. Era um hábil marinheiro, um campeão no tênis e muito habilidoso nas tarefas domésticas da
casa. E não tinha tempo ou interesse por seu filho. Se Alan executasse bem alguma tarefa, o pai dava de ombros. Nào foi bom o
suficiente, ele parecia dizer. Eu poderia ter feito melhor.
Alan era inteligente, mas tinha um desempenho escolar muito abaixo do seu potencial. Mas ninguém se importava com isso.
Alan também não se importava, e não tentava realmente mudar a situação. Depois de sua formação escolar, envolveu-se em
algumas atividades ambiciosas, nas quais era bom, mas não havia nenhum futuro naqueles empreendimentos. Serviam mais de
passatempos desafiadores.
Alan sentia que seu pai era o vencedor por muitas razões, uma das quais porque ele tinha a mãe. Alan alimentava um forte
desejo pela mãe, que descreveu como uma mulher excepcionalmente bonita. A mãe era o prêmio e, embora desejasse o prêmio,
sabia que era proibido. O sucesso era uma posição desejada, mas temível. Significava assumir responsabilidades que ele nunca
iria alcançar. O sucesso e a responsabilidade eram para os outros, não para ele. Sim, o sucesso envolvia responsabilidades pelas
quais ele ansiava, mas ficava em dúvida se algum dia poderia alcançá-las, e não queria correr o risco de tentar. Em vez disso, Alan
se tornou passivo e desinteressado.
A dinâmica que estava em operação costuma ser reproduzida sob várias formas, baseada na situação triangular entre filho e
pais. Há o filho que quer assumir o lugar do pai. Há o pai que é ameaçado pelo filho jovem e tem de esmagá-lo e derrotá-lo em
qualquer competição. Há a mãe que relembra à filha que ela é a rainha e que planeja permanecer na posição dominante. Os filhos
de tais relacionamentos, o clássico triângulo edípico, geralmente sentem-se culpados por seus desejos e desenvolvem temores de
ser bem-sucedidos. Eles se sabotam das mais variadas maneiras. Aqui, mais uma vez, a fantasia e o desejo são equivalentes à
realidade.
Atletas na iminência de atingir o sucesso podem vacilar e perder a posição. Musicistas jovens, talentosos e premiados
desenvolvem sérios bloqueios e não conseguem executar seus instrumentos. Executivos de negócios que trabalharam arduamente
para chegar ao topo mudam de empresa quando estão prestes a ser promovidos. O ponto decisivo em muitos desses casos é
subjetivo, com base na fantasia de que ir além de um certo limite é perigoso, porque há responsabilidade demais, exposição
demais e sucesso demais. Para tais indivíduos, a não ser que consigam ter algum discernimento, sabotar o sucesso é a única
maneira de solucionar o dilema.
Com a terapia, Alan compreendeu os sentimentos subjacentes em relação à família e como ela se relacionava com ele. Ele
estava mais sintonizado com a raiva e sentindo falta do apoio dos pais que não tinham tempo nem qualquer interesse nisso. Depois
de algum tempo, ele foi capaz de admitir que o negócio era dele e não do pai. No fim, conseguiu perceber que seu sucesso ou