O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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que sua perda de controle era um problema, tinha certeza que sua raiva era provocada pelos outros.
Perguntei a Howard sobre sua infância, e ele deu de ombros e sorriu, como se dissesse todos os psiquiatras fazem essas
perguntas, mas também satisfez a minha curiosidade.
- Pode-se dizer que tive uma vida cheia de aventuras - respondeu.
O pai de Howard era um executivo, representante de uma empresa norte-americana com várias subsidiárias ao redor do
mundo. Os instáveis países do terceiro mundo nos quais Howard cresceu estavam em constante revolta, com tumultos e saques.
Embora estivesse matriculado em uma escola americana, ele se sentia desprotegido e em perigo, assim como toda a família.
- Meu pai era um cara austero - disse Howard. - Por isso a empresa o enviava para essas regiões de conflito. A mãe de
Howard, no entanto, não gostava da atmosfera agitada do terceiro mundo. Ficava zangada com o marido e protegia os filhos, o que
contribuía para criar uma atmosfera de tensão na família. A mãe dizia: \u201cPor que ele nos traz para esses lugares tão desolados?\u201d Ela
sentia medo e, consequentemente, os filhos também.
O pai de Howard esperava que os dois filhos fossem tão firmes e viris quanto ele.
- Papai era uma figura impressionante. Ele realmente era muito duro comigo. Nunca conseguia fazer nada que lhe agradasse.
Aqui começava a psicoterapia de Howard. Conforme prosseguimos revelando os reais contornos de sua vida familiar
pregressa, alguns padrões começaram a aparecer, e ele conseguiu colocá-los lado a lado.
- Nos negócios, você tem de ser um competidor, e aprendi tudo sobre competição com meu pai.
O pai não era apenas competitivo nos negócios, mas competia, também com o filho. Ele era aquele que expunha a esposa e
os filhos a um ambiente ameaçador. Então, sentia que, como pai, tinha de lutar contra as ameaças também. Havia uma guerra entre
dois campos na família. O campo um era formado por Howard, a mãe e a irmã mais nova, que estava ao lado da mãe. O campo
dois por seu pai, a filha mais velha e o filho mais novo, que se identificavam com o pai.
- Acho que fui uma criança muito sensível - lembrou Howard. - Ficava ainda mais sensibilizado com a sensação de que tinha de
proteger minha mãe e minha irmã. Depois de meu pai, nenhum outro chefe poderia ser tão difícil de encarar. O pai de Howard
ameaçava toda a família, alardeando, em todas as situa-ções, que era a autoridade inquestionável. A família vivia em um estado de
constante intimidação. Ou eles se curvavam de medo e se conformavam com uma submissão escrava, ou o confrontavam, como
Howard fazia, o único na família que expressava abertamente suas opiniões. Isto o deixava em dificuldades com o pai, mas ele não
entregava os pontos. De tanto ser ameaçado e insultado pelo pai, Howard se tornou irritadiço e vingativo. Entretanto, se não fosse
provocado, mantinha-se calmo. Como não podia expressar sua raiva livremente, Howard projetava os sentimentos nos outros,
especialmente naqueles que julgava ser injustos ou intimidadores. Ele percebia o mundo, e mais especificamente aqueles que
estavam no poder, como uma ameaça. Não poderia permitir que eles fossem bem-sucedidos nas suas tentativas de amedrontá-lo.
Sentia-se compelido a confrontá-los e a considerá-los como adversários. Depois que se traumatizou com o pai, manteve-se atento
àqueles que poderiam prejudicá-lo.
Howard era muito sensível ao desdém dos outros. Ele precisava ser reconhecido, e quando se sentia ignorado, ou sentia que
não haviam lhe dado o crédito que merecia, enfurecia-se. O pai o tratava como se fosse um ser desprezível, e Howard não
conseguia tolerar reações que não valorizassem e reconhecessem suas realizações. Às vezes, reagia de modo exagerado -
mesmo quando a provocação era mínima. Mas sentia-se justificado, porque na sua cabeça estava protegendo o que considerava
correto e justo. Estava protegendo a mãe. E continuava reproduzindo essa história. Protegia-se da repetição do tratamento que
recebera no passado.
Mas a perspectiva da autodestruição reside nas reações exageradas e na sensibilidade extrema. Ele estava tentando
administrá-las e derrotar o agressor injusto e hipócrita. Para ele, era uma batalha de vida ou morte provar a si mesmo que não seria
dominado injustamente. Não se deixaria vencer na busca da autonomia, para escapar da influência daqueles que poderiam se
aproveitar de sua fraqueza.
O resíduo de raiva subjacente e a sensibilidade sob constante ameaça estavam profundamente arraigados. Howard precisava
se relacionar com alguém que o considerasse numa posição de autoridade, mas que não estivesse interessado em intimidá-lo.
Precisava de alguém que pudesse entendê-lo e a sua aflição. E foi isso que procurou num terapeuta. Na relação com alguém capaz
de ouvi-lo, livre de julgamentos, pôde perceber a natureza repetitiva de seu comportamento no local de trabalho. Conseguiu entender
e trabalhar sua hostilidade para com o pai. Conforme sua relação com o pai tornava-se menos importante para ele, conseguia lidar
mais imparcialmente com os desafios - embora ainda não pudesse suportar aqueles que o humilhavam agressivamente.
Sob determinadas circunstâncias, é necessário manter distância do agente provocador. Howard escolheu procurar uma
posição onde pudesse estar fora do local de trabalho, distante do chefe, para aliviar o constante aborrecimento e a provocação do
contato face a face. Gradativamente, conseguiu se relacionar com figuras em posição de autoridade de uma maneira mais
apropriada. Foi capaz de aceitar o fato de que poderia ter ido mais longe na carreira, se não tivesse de carregar consigo o peso de
suas iras e ressentimentos. Mas ele estava grato por ter conseguido lidar mais facilmente com aqueles indivíduos investidos de
autoridade.
Arthur era contador, dos mais bem-sucedidos em seu ramo, uma área da Contabilidade que exigia atenção em cada detalhe.
Arthur era uma pessoa precisa e meticulosa, e tais traços de personalidade eram recursos valiosos em sua ocupação, Ele foi
aprovado em uma série de exames para se tornar um especialista na profissão. Trabalhava duro e os resultados de seu trabalho
eram excelentes. Entretanto, constantemente entrava em conflito com aqueles que eram negligentes, que cometiam erros, que não
trabalhavam tanto nem tão arduamente ou cuidadosamente quanto ele. Com uma forte e justificada indignação, criticava os colegas
de trabalho e chefes que não eram tão competentes e diligentes quanto ele, mas, mesmo assim, ocupavam posições mais
importantes. Pequenas coisas deixavam-no furioso. Ele perdia a paciência com desfeitas hipotéticas, o que o colocava
repetidamente em conflito com os outros. Ao mesmo tempo, era muito sensível ao menor sinal de que não estava sendo apreciado
pelo que fazia. Sentia-se uma vítima, um mártir, aquele que se sacrificava em nome de todos. Sentia-se cronicamente subjugado e
sobrecarregado, como se fosse sua responsabilidade, e somente sua, fazer o trabalho corretamente. Em sua cabeça, ele era
indispensável. Entretanto, em períodos de pouco trabalho, sentia-se inútil, achando que estava trabalhando menos que sua
capacidade. Uma vez, mudou de emprego porque ficou furioso com o fato de a empresa não lhe ter dado o bônus que julgava
merecer. E fez isso novamente. E mais uma vez. No entanto, em cada novo emprego, surgia o momento em que havia a repetição
do mesmo problema, a mesma fúria.
Alguma coisa estava errada. E Arthur era inteligente o suficiente para perceber isso. E, então, procurou a terapia. Assim que
detalhou seu problema, começou a falar do pai.
\u201cMeu pai dava tudo para minha irmã\u201d, disse ele. \u201cEle relevava os erros dela, mas isso não acontecia comigo. Não me dava
nada, a não ser censuras e sordidez.\u201d Descreveu o pai como um homem inteligente e socialmente ativo, mas mesquinho e
rancoroso. \u201cTentei agradá-lo e nunca consegui. Minha irmã criava confusão em todos os lugares e ele vivia aliviando o lado dela,