O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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uma trapalhada atrás da outra.\u201d Os pais se divorciaram quando ele estava no ensino médio o que, segundo Arthur, foi uma bênção.
Eles nunca haviam se dado bem, brigavam constantemente, e, ao menos sob o ponto de vista de Arthur, descontavam toda a raiva
nele.
\u201cCisão\u201d é um termo que descreve a tendência de perceber as pessoas como boas ou más, certas ou erradas, pretas ou
brancas, e era isso que Arthur fazia. A mãe era doce e atenciosa - ou fria, desconfiada e descontente. Sempre estava procurando
evidências de que estava sendo enganada. O pai era inteligente, mas egoísta e vingativo. No relacionamento de Arthur com a
esposa também havia elementos de cisão. Ela era quieta, amável e cuidadosa - ou incompetente e desleixada.
Tal cisão foi transportada para o local de trabalho, onde todos os chefes, assim como os colegas, eram vistos como bons e,
depois, maus. Arthur sentia-se constantemente dividido. Havia sempre inquietação e mal-estar. Era como se ele só pudesse se
sentir vivo e real, sob permanente estimulação, geralmente baseada em contrariedades. Arthur buscava a mágica que tornaria as
coisas melhores. A perspectiva de um novo emprego significava que todos os problemas estariam resolvidos, que ele seria
apreciado e respeitado. Mas não levava muito tempo e os problemas recomeçavam, com novos chefes e novos colegas de
trabalho. Ele começava a inspecionar e a criticar todo mundo. Ele ficava atento, sempre esperando que alguém cometesse uma
injustiça contra ele.
Sempre que chegava atrasado à terapia perguntava:
- Sei que estou atrasado, mas você poderia compensar o tempo?
- A sessão só tem 45 minutos - eu dizia.
Ele insistia que tinha direito à sessão inteira. Eu explicava que passar do horário com ele significaria fazer as outras pessoas
esperar, e que isso iria desorganizar a minha agenda. Ele não se importava. Queria o seu tempo, apesar de ser ele o causador do
atraso.
Era incapaz de ver o impacto de seu comportamento nos outros. Tinha pouca consideração ou empatia com alguém.
Arthur possuía excelentes condições financeiras, mas vivia frugalmente, sempre preocupado em não conseguir chegar ao fim
do mês. \u201cTentam me roubar em todos os lugares. Sempre verifico minhas contas, pois eles cometem erros, e quando percebo um
erro, faço questão de avisar.\u201d Privação era a palavra-chave. Arthur nunca tinha o suficiente, e a maioria das pessoas não o tratava
convenientemente. Seu bônus já era maior que o dos colegas de trabalho mas, segundo ele, deveria ser ainda maior.
- Eu ganhei. Trabalhei muito mais do que eles e meu bônus foi apenas uma parcela do que poderia ter sido. Os outros se dão
bem em tudo. Os colaboradores e os chefes são incompetentes. Agem displicentemente, enquanto eu verifico e confiro tudo.
Essa atitude ficava evidente para os outros ao seu redor. \u201cNinguém quer almoçar comigo\u201d, disse ele, certa vez. \u201cNinguém nunca
me chama para sair depois do trabalho, mas, de qualquer maneira, quem é que gostaria de passar mais tempo com aqueles
idiotas?\u201d
Foi difícil para Arthur aceitar a ideia de que suas atitudes permeavam a maneira com que se relacionava. Embora afirmasse
nunca ter expressado tais coisas verbalmente, ele não conseguia entender o conceito da comunicação não verbal. Era
completamente incapaz de se colocar no lugar de outra pessoa. As situações eram do jeito que ele via, e qualquer um que as visse
de outro modo estava errado.
Arthur era bravo. A mãe havia sido uma pessoa brava. O pai havia sido bravo. Deu bastante trabalho fazer com que Arthur visse
tudo isso e permitisse que a mágoa e o desapontamento se tornassem reais para ele, mais reais que palavras soltas, Há outras
dinâmicas operando no caso de Arthur. Ele vivenciou seu crescimento - suas privações, o tratamento desfavorável que recebeu
comparado ao da irmã - como uma bofetada. O tratamento punitivo e severo tornou-se um modelo para o modo de lidar consigo
mesmo e com as pessoas. Não havia espaço para Arthur expressar a raiva que estava crescendo entre ele e os pais. Como
resultado, desenvolveu um senso de consciência punitivo. Seu mundo estava dividido entre o certo e o errado, entre o bom e o mau,
e ele tinha de ser bom, ele tinha de ser correto. Tinha de ser correto ou as consequências seriam o desapontamento e a censura. E
isso ele não podia suportar.
Por fim, e, principalmente, pelo trabalho terapêutico, Arthur tornou-se consciente de sua visão egocêntrica do mundo. Começou
a ver conexões entre o modo de ser tratado por seus pais e o modo dos pais interagirem entre si e com o mundo à sua volta.
Gradativamente, percebeu que, apesar de ver o mundo como preto ou branco, certo ou errado, a maior parte da vida,
particularmente os relacionamentos não eram assim. Começou a ver que nem todas as situações podiam ser reduzidas a preto ou
branco.
Um grande momento de mudança aconteceu enquanto Arthur falava, de maneira bastante impetuosa, do chefe. Fiz um
parênteses com o seguinte comentário:
- Minhas interpretações podem não ser sempre precisas, mas a sua reação ao seu chefe pode ser vista de um modo diferente
do qual você a vê.
- O que você quer dizer, você não sabe se está certo ou não? - perguntou.
Não respondi.
- Você não sabe o que está fazendo? - perguntou. - Como posso confiar em você se seus comentários não estão corretos?
- Tento entendê-lo, mas nem sempre é fácil - disse.
Arthur ficou chocado. Ele nunca levou em consideração essa possibilidade. Nunca pensou em olhar para os relacionamentos
de outra forma que não fosse a sua. Era extremamente autocentrado e eu apontei-lhe isso: \u201cVocê se defende contra possíveis
críticas fechando-se contra pontos de vista alternativos. Você tem de acreditar que está certo, porque vê as coisas como certas ou
erradas, sem considerar outras possibilidades. No seu ponto de vista, você tem de estar certo, porque se não estiver certo, então
estará errado, e isso o deixará vulnerável a julgamentos negativos. Mas ao ver as coisas do seu modo, você exclui a possibilidade
de pontos de vista alternativos. Nenhum de nós, nem você nem eu, está certo o tempo todo.
Acrescentei também que, para mim, essa necessidade de estar sempre certo expunha, de fato, sua intensa dependência, sua
necessidade de depender de alguém infalível. Foi devagar. Foi bem devagar. Mas Arthur começou a se tornar mais compreensivo.
Com a esposa, particularmente, seus acessos de raiva diminuíram, quando se dispôs a ouvir suas explicações sobre ter de comprar
ou fazer algo. As arestas começaram a ser aparadas. A raiva contra os pais permanecia, mas estava mais aberto e disposto a
perdoar as pessoas no trabalho. A sensação de vazio e de ser trapaceado sumiu, e ele se deu conta de que, embora algumas
pessoas talvez quisessem se aproveitar dele, ele não podia generalizar e supor que todas estavam agindo desse modo.
Arthur começou a compreender o grau de identificação que tinha com cada um dos pais. Viu como os conflitos entre eles
tornaram-se seus próprios conflitos, projetados no ambiente. A tendência de tomar partido, de ver uma pessoa como certa e a outra
como errada, representava sua expectativa, e, de fato, sua necessidade de perpetuar os conflitos com os quais crescera.
Inconscientemente, suas percepções e ações baseavam-se numa profecia - que o mundo como um todo era a reprodução de sua
família original. Ele esperava encontrar facções em guerra e as encontrava. Ele esperava que alguém tirasse proveito dele e
descobria que havia alguém fazendo isso. Ele esperava ser enganado e encontrava razões para convencer-se de que estava sendo
enganado.
Agora, via os pais como pessoas infelizes, e conseguia se distanciar e ser mais objetivo em relação a eles. Em vez de levá-los
a sério, mantinha-se à margem e não entrava em discussões. Como observador, conseguiu avaliar todas as características que via
em si e das quais não gostava. O contato com os pais tornou-se menos frequente e, com isso, enfrentou um período de tristeza