O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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e de
arrependimento. Tristeza ao avaliar quanto fora magoado por eles, e arrependimento de todo o sofrimento que suportara por
identificar-se com eles. Arrependia-se da impaciência e da raiva que sentira dos outros que, agora reconhecia, não eram
merecidas. O interessante no distanciamento de Arthur dos pais foi que isso, simplesmente, aconteceu. Não foi forçado. O contato
tornou-se menos satisfatório e menos desejável. Ele começou a se ligar mais na família e no trabalho. Deixou de se perturbar com
as coisas e de procurar um paliativo para querer melhorar tudo. Ao se tornar menos autocentrado, Arthur amadurecia. Tristemente,
não podia mais contar com os pais para aprovação ou consolo, porque só conseguiria isto queixando-se das injustiças e dos
insultos que os outros lhe fizeram - atitudes que coincidiam com as atitudes perpetradas pelos pais. Um preço muito alto pelo apoio
que recebia sendo a vítima. Ele não queria continuar com aquilo. Sofreu muito durante o processo, mas o sofrimento foi infinitamente
preferível à maneira triste e defensiva com que vinha conduzindo a vida. Ele se tornou, finalmente, a pessoa que queria ser, o adulto
que podia apreciar a vida e os relacionamentos. Mesmo que não fossem perfeitos.
Pessoas como Arthur e Fred sofrem de intensos sentimentos de culpa. Punem a si mesmos, não sendo bons consigo, não se
permitindo apreciar a vida. São tensos e medrosos, e têm a sensação de que estão sob a lente de um microscópio, onde qualquer
pensamento, ação ou sentimento são escrutinados. Eles têm medo de sua condição humana básica - isto é, seus sentimentos,
sonhos, fantasias - porque foram expostos a ódios e castigos muito intensos. Estão convencidos de que, se relaxarem, pensarão,
farão ou sentirão coisas ruins. E, então, sentirão a ira dos poderes superiores. Para se proteger de si mesmos, para proteger os
outros de sua intensa raiva, eles têm de ser perfeitos. Por causa desse estado de tormento e tensão, veem-se em situações nas
quais o castigo temido, às vezes, torna-se realidade. A tensão causa cansaço corporal, manifestado na forma de queixas físicas. A
tensão causa problemas com os outros. O comportamento passivo-agressivo também pode ser manifestado, levando pessoas a se
ofender por coisas que são ditas ou feitas. O indivíduo não consegue entender por que os outros o evitam-já que não percebe a
natureza hostil de seu comportamento. Ele se considera inocente. Assim, o medo do castigo provoca justamente o acontecimento
temido.
Há outra reação, entretanto, para esse medo de um castigo severo, que é quase o oposto disso - um comportamento
desafiador, rebelde e arriscado. Tais indivíduos não se importam com o que os outros sentem. Expressam seus sentimentos sem
considerar as consequências. O resultado é que essas pessoas veem-se repetidamente em apuros, mas sentem-se justificadas.
Vale lembrar que Fred tentou agradar os exigentes e punitivos pais até desistir de tudo. Começou a se comportar de maneira
desafiante e, possivelmente, perigosa, prestes a fazer coisas que poderiam ter causado uma devastação em sua vida. Felizmente,
conseguiu perceber seu comportamento. Ele, assim como Arthur, conseguiu mudar. Ambos conseguiram lidar com os maus-tratos
que receberam - e, também, com a raiva resultante.
Samantha tinha uma história totalmente diferente. Para começar, há duas coisas dignas de nota em Samantha. Primeiro, era
uma mulher impressionantemente bonita. Segundo, não tinha a menor ideia disso. Eu nunca tinha encontrado tamanha discrepância
entre as percepções externa e interna de alguém.
Ela me procurou por uma questão bastante prática. \u201cEstou tendo problemas para priorizar meu tempo, minhas tarefas e meus
objetivos\u201d, disse, assim que se instalou no meu consultório. \u201cTalvez você possa me ajudar a elaborar uma lista diária de \u2018coisas a
fazer\u2019, para eu ter certeza de que estou conseguindo cumpri-las. Minha casa é uma bagunça. Há papéis por todo lado. Não consigo
suportar isso, e meu marido também não.\u201d
Pareceu-me que esse era um pedido estranhamente limitado. Pensei que algo relativamente simples como aquilo não iria
desconcertar uma mulher com a inteligência e cultura de Samantha. Aos 40 anos, ela estava se saindo bem no emprego na área de
marketing de uma das corporações da Fortune 500. Formou-se em uma boa universidade e em uma boa escola de comércio, e,
depois de enfrentar uma competição acirrada, conseguiu um emprego em uma grande e poderosa empresa. Alguns de seus
trabalhos haviam sido brilhantes. Mas ela percebia que, apesar de suas boas avaliações e dos bônus respeitáveis, outras pessoas
estavam sendo promovidas a cargos mais altos que o seu. Embora não fosse de modo explícito, ela recebia a mensagem de que
seu trabalho não estava tão organizado quanto deveria.
Quando comecei a investigar mais profundamente seu passado e sua infância, Samantha impacientou-se. Ela queria se fixar
no problema que tinha em mãos, o que, para ela, era a administração do tempo.
Ora, alguns pacientes são assim. Isso acontece devido ao simples fato de a assistência médica administrada ter encorajado as
pessoas a reduzir seus problemas de saúde mental em pequenas partes, para que possam ser focados especificamente e
corrigidos com presteza. Além disso, nesses pacientes, a pressão vem de dentro. Eles querem definir e controlar o problema para
evitar uma investigação mais profunda. E muitos terapeutas de diferentes correntes concordam com isso. Preferem lidar com as
questões do comportamento imediato. De fato, Samantha já havia se consultado com um profissional que lhe dera sugestões para
administrar o tempo e dicas de como poderia ajeitar a bagunça em casa, fazendo uma coisa de cada vez, no estilo passo a passo.
Ainda assim, não demorou muito para que Samantha voltasse ao ponto de partida. E, então, veio até mim.
\u201cVocê está tentando colocar um curativo num problema maior\u201d, disse, depois que ela resolveu me falar da família. Tentei me
ater ao que ela contou e estabelecer algumas conexões. Embora ela não quisesse ouvir, teve de admitir que nunca havia percebido
nenhuma relação entre seus sintomas atuais e seu passado. Mencionei que o tipo de terapia que eu fazia exigia o reconhecimento
de que o presente estava relacionado com o passado. Disse-lhe que teríamos de compreender a dinâmica do seu comportamento.
Só assim ela conseguiria lidar com o problema.
Ela decidiu pensar no assunto. Fiquei algumas semanas sem receber nenhuma notícia, mas tinha uma forte sensação de que
ela retornaria e, de fato, ela voltou.
-Não estou satisfeita com esse método - disse. - Mas tenho de fazer algo, já que o outro caminho não funcionou. Então, aqui
estou. As palavras soaram com um ar de resignação ansiosa.
O que não tinha ficado tão óbvio anteriormente era o alto nível de ansiedade de Samantha. Ela falou sob um intenso estresse e
despejou uma série de preocupações sobre onde tudo isso iria dar e sobre ser desviada do seu objetivo de lidar melhor com o
tempo e , a organização.
- Você está com medo de descobrir coisas sobre si que não gostaria de saber? - perguntei.
Ela concordou, mas teve de admitir que não sabia o que poderia ser. Disse-lhe que algumas questões estavam na base de seu
comportamento ansioso, o que resultava em problemas de administração de tempo e de organização. Expliquei-lhe que não
poderia ler sua mente, e não sabia o que iríamos descobrir, mas que seguiríamos juntos nessa trilha de investigação. Para que o
processo de descoberta se realizasse, ela teria de me dizer tudo o que lhe viesse à mente e me contar seus sonhos. Imediatamente,
Samantha se manifestou dizendo que aquilo não fazia o menor sentido para ela, mas que tentaria, e começou a se lembrar de um
sonho que havia tido algumas noites atrás.
Antes de discutir o sonho de Samantha, é preciso entender o papel dos sonhos na psicoterapia psicodinâmica. Os sonhos
desempenham um papel fundamental para a solução dos padrões de personalidade