O ciclo da auto sabotagem
120 pág.

O ciclo da auto sabotagem


DisciplinaPsicologia63.937 materiais447.964 seguidores
Pré-visualização47 páginas
Respirei
fundo, perguntando-me como ela iria lidar com isso, com o fato de que toda a sua vida, todo o sentimento de desamparo e medo e
até de desespero baseara-se em ter de se submeter, já que não havia escolha; não ter como lutar, nem alguém que a defendesse.
Tanto a vida interior quanto a exterior fundamentaram-se nesse terrível acontecimento, nessa sensação de não ter controle, que
moldou sua vida. Neste ponto, eu já havia me dado conta de fatos que Essie ainda teria de perceber - que ela havia sido abusada
sexualmente por seu pai na infância e que sua vida sexual adulta foi destruída por ele, e, talvez, pela cumplicidade silenciosa de sua
mãe. Não é de estranhar que os acontecimentos de 11 de setembro a tenham levado ao estado de pânico e desespero. Foi a
sensação de total desamparo, que tomou conta da maioria naquele dia fatídico, que reacendeu nela os terríveis sentimentos de que
era a criança que não tinha vez. O reconhecimento foi um momento doloroso, amargo. Foi doloroso para nós dois.
O que aconteceu a Essie - sepultar sentimentos traumáticos, experiências e memórias - acontece a muitas pessoas.
Entretanto, enterrar essas experiências não significa que elas estejam mortas. Ao contrário, elas se incorporam, tornam-se parte
indelével da imagem que as pessoas têm de si. Essie era a criança indefesa que se sentia frágil, exposta a um mundo perigoso. Ela
carregava essa imagem na vida adulta no modo de se ver e de se relacionar com os outros. Ela não sabia por que, e não conseguia
explicar isso. Havia uma lacuna entre o que sentia e a base de tais sensações. Sob vários aspectos, as crianças não controlam a
vida delas, e Essie permanecia nesse ponto da infância.
Por mais surpreendente que seja, para mim também é difícil tomar parte dessa exumação de emoções e memórias dolorosas
já sepultadas. Como posso justificar a retirada de dados do inconsciente, elementos que às vezes o paciente trabalhou a vida toda
para ocultar, não apenas do mundo exterior, mas de si próprio? Se estava escondido, havia, sem dúvida, uma boa razão para isso.
Como me atrevo a desenterrar, a mexer em algo que talvez seja a causa de grande sofrimento, levando-o para a consciência? Além
do mais, se o passado não pode ser mudado, então qual a finalidade disso? Fazer que chegue à consciência. Mas é, também, bem
mais que isso. A criança que vive no adulto, a criança que sepultou seu passado traumático» revive esse fato várias vezes, tentando
inconscientemente dominar aqueles eventos incontroláveis. A finalidade, portanto, é facilitar a mudança, ajudar a criança indefesa a
se tornar o adulto livre, com o controle da própria vida. Com consciência e memória, esses eventos podem ser encarados de modo
diferente.
E mudança e consciência estão intrinsecamente ligadas. Mas aqui reside a arte e a ciência da psicoterapia - e, sim, ela é uma
arte. Para explorar os eventos, tenho de ter certeza que minha relação com o paciente é de plena confiança e suficientemente
sólida. A escolha do momento é fundamental. Um dos objetivos da psicanálise é tornar consciente o que está inconsciente. Mas isto
é algo que só deve ser levado adiante se houver uma sólida conexão, pois fere o paciente e, às vezes, até o terapeuta. Já que é
assim, então não é melhor deixar como está? Alguns indivíduos podem dizer que sim. E alguns disseram sim - e fugiram da terapia.
Estavam no seu direito. Não cabe a mim julgar se alguém deve ou não se submeter à terapia. Mas se o indivíduo vem ao meu
encontro esperando por mudanças, se a questão que o trouxe é delicada, difícil - como foi para Essie -, então talvez valha a pena o
sofrimento, o medo e a confusão, a sensação amarga de que uma boa parte da vida foi desperdiçada. Só quando esse material
chega à consciência que as coisas mudam. Segredos provocam sintomas, como aconteceu com Essie. Eu posso e frequentemente
digo a um paciente que \u201ctarde\u201d é melhor que \u201cnunca\u201d. Mas nós, dois sabemos que continua sendo amargo. Quanto a mim, não sinto
nenhum prazer em ver os pacientes sofrendo, consumindo-se em lágrimas, expondo que passaram uma vida inteira sendo
reprimidos. Mas às vezes é preciso chegar ao sofrimento, para que os problemas sejam resolvidos, e ajudar a elaborar essas
questões é o meu trabalho.
Expor vulnerabilidades e encarar questões desagradáveis que foram sepultadas há muito tempo é uma etapa preliminar
necessária e, às vezes, a parte mais fácil. O que vem a seguir é a parte mais difícil do processo - transformar aquele
reconhecimento em uma mudança de comportamento -, porque a mudança não é um exercício intelectual. Se o reconhecimento não
for internalizado, sentido e elaborado, nada vai mudar. Relembrar experiências, sensações e memórias, que muitas vezes foram
reprimidas, e das quais tinha-se apenas uma vaga lembrança, pode, realmente, levar à mudança, a um novo modo de perceber o eu
e o mundo? Isso pode ser o começo de uma nova percepção do eu, livre das distorções e dos sintomas inexplicáveis que
persistiram desde a infância? Como posso tornar o processo de mudança mais fácil?
A verdade é que os analistas também são seres humanos; os analistas também têm sentimentos. Embora tenha, algumas
vezes, me referido a mim como um dinossauro, alguém que segue um estilo terapêutico mais tradicional do que muitos atualmente,
não sou um mero espectador do processo. A noção de que o analista não se envolve e que dorme nas sessões, ou que
simplesmente murmura \u201cHmm\u201d e \u201cAh\u201d, é, em sua maior parte, uma ficção dos velhos filmes e dos maus programas de tevê. Sim, no
passado o analista se mantinha mais afastado do paciente, e até hoje, em certos tipos de análise, parte dessa distância ainda é
mantida. Atualmente há tantas formas de terapia quanto há de analistas, e a maioria delas envolve-se muito mais com o paciente.
No meu caso, prefiro o que Freud chamou de \u201catenção flutuante uniforme\u201d. Isto, no entanto, não significa atenção sem envolvimento.
Ao contrário, quer dizer atenção direcionada, consciência do que e como está sendo comunicado. É chamar a atenção do paciente
para o que realmente é expressivo. Em geral, logo depois que algo foi dito, eu pergunto: O que você disse? Isto não significa que
não ouvi, mas funciona para encorajar o paciente a escutar o que disse e a perceber suas implicações. A livre expressão de
pensamentos e sentimentos, que chamamos de livre associação, pode soar como uma série de divagações. Entretanto, esses
pensamentos são tudo, menos isso. Minha função é salientar e articular as conexões, conduzir a novos insights, revelar sentimentos
e disposição de ânimo.
E, sim, tenho compaixão. E medo. E fico triste. Ocasionalmente, sinto a alegria da descoberta, a satisfação de dois indivíduos
que estão no caminho da renovação, duas pessoas que compartilham uma experiência que tem o poder de mudar a vida delas. Eu
me preocupo. Eu sinto. Intensamente.
Mas também posso ficar aborrecido, entediado, inquieto. Certa vez tive como paciente Betty, uma mulher cujo marido abusava
dela - tanto verbal quanto fisicamente. Semana após semana, Betty começava a sessão dizendo: \u201cVocê não vai acreditar no que ele
fez essa semana!\u201d Semana após semana, eu ouvia; semana após semana, ela dizia que não aguentava mais. Semana após
semana, concordávamos que ela ficaria melhor sem ele. E semana após semana, após semana, Betty voltava para ele - e vinha a
mim com o mesmo refrão: Você não vai acreditar no que ele fez essa semana. Pouco depois, descobri que, como Betty, eu estava
dizendo as mesmas coisas. E percebi que, por algum tempo, eu é que havia me tornado repetitivo. Às vezes, eu tinha vontade de
chacoalhá-la, e gritar: Por que você ainda está com ele, se já disse uma centena de vezes que iria deixá-lo? Não consegue ver o
que está fazendo? Mas não é assim que a terapia funciona. De vez em quando, nas horas negras da alma, fico pensando se a
terapia funciona mesmo em casos como o de Betty. Mas nós dois perseveramos. Porque Betty é, sob vários