O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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repetitivos e autossabotadores, e para a
psicoterapia de um modo geral. A interpretação dos sonhos foi alvo de chacota e de zombaria em muitas piadas e caricaturas, mas,
parafraseando Freud, as pessoas negam as minhas teorias durante o dia mas sonham com elas durante a noite.
Os sonhos são a \u201cestrada real que conduz ao inconsciente\u201d,1 uma maneira poderosa de auxiliar o processo de tornar
consciente o que está inconsciente. A importância dos sonhos foi recentemente comprovada na neurociência.
O processo de tomada de conhecimento da vida interior e do comportamento do indivíduo através dos sonhos é como decifrar
um enigma, resolver um quebra-cabeça. Os sonhos não são apenas mensagens do inconsciente, ajudam a progredir na terapia.
Sonhos recorrentes indicam que o problema ainda está presente e pedindo para ser avaliado e trabalhado. A arte da interpretação
dos sonhos exige um trabalho de detetive. Os sonhos e as associações estabelecidas entre aquele que sonha e seus sonhos
representam pistas, indícios do que está se passando na mente do sonhador.
Os sonhos são estimulados e deflagrados por acontecimentos do dia a dia, mas todo sonho é uma parte do presente que
repercute o passado. De todos os estímulos que recebemos durante o dia, escolhemos um evento, em geral aparentemente
insignificante, para sonhar. Pode ser o encontro com alguém, ouvir alguma coisa ou ver alguém na televisão. As associações nos
lembram de alguém significativo ou de um acontecimento que foi importante na nossa vida. Os sonhos camuflam, condensam,
substituem uma pessoa por outra, um acontecimento por outro. As associações do sonhador são importantíssimas. Por isso é
arriscado tentar interpretar um sonho tomando por base seu conteúdo superficial. Os elementos do sonho têm de ser vistos como
pontos de partida para associações que estimulam memórias, fantasias e desejos ocultos de nós mesmos. Sonhamos com
pessoas e acontecimentos de décadas atrás, nos quais não pensávamos há anos, mas que são importantes porque despertam
outros pensamentos, sentimentos e memórias. Os sonhos são uma forma de dizer a nós mesmos o que se passa na nossa mente.
Trazem para primeiro plano dados que fazem a ligação entre o presente e o passado. E, quando nos associamos ao sonho, temos
de encarar o fato que somos os sonhadores. Embora tentemos repudiar certas fantasias, não temos escolha senão reconhecer que
elas são partes de nós. Frequentemente desprezamos algo porque ê apenas um sonho, mas temos de admitir que nossos sonhos
são criados por nós, que cada pessoa ou acontecimento no sonho é parte do que somos. Não podemos negar que esses
pensamentos estão vindo de dentro de nós. Não estou falando do conteúdo superficial do sonho, mas das associações,
pensamentos e sentimentos que surgem da análise e do reconhecimento do sonho em todas as suas ramificações. Alguns sonhos
são apavorantes, enquanto outros são suaves. Alguns são engraçados, enquanto outros expõem medos e ansiedades
profundamente enraizados.
Tudo o que aflora por meio do sonho indica em que posição estamos em relação a nosso pensamento e a nossos
relacionamentos. Quanto mais os sonhos se tornam acessíveis ao frescor da análise, mais úteis eles são, como se estivéssemos
revelando segredos que surpreendessem até mesmo a nós, os sonhadores. Sabemos que, se esses segredos permanecerem
ocultos, as mudanças dificilmente ocorrerão. Quando os segredos são revelados, por mais embaraçosos ou vergonhosos que
sejam, passamos a nos conhecer muito mais. Quantas vezes um novo paciente se recusou a expor suas fantasias e sonhos, no
início da terapia, afirmando: Eu tenho medo do que posso descobrir. E a réplica: Você vai ficar melhor se souber ou se não
souber? Você está dizendo que tem medo de descobrir quem você é? Você quer continuar se escondendo de si mesmo por medo?
Muitos preferem deixar as coisas do jeito que estão. Entretanto, há outros que querem descobrir o máximo a respeito de si
mesmos.
No sonho de Samantha:
\u201cEu estava sentada em um consultório médico. Usava apenas algo semelhante a um robe de veludo, nada mais. Estava na
mesa de exame e você estava lá. Não conseguia descer da mesa porque o robe abria, mas acabei dando um jeito. Você estava
totalmente vestido com um paletó de tweed. Você veio e colocou o braço em volta de mim. Fiquei com medo e disse (Não gosto
de homens.Despertei e me senti angustiada \u201d
Considerando que essa era a primeira vez que trabalhávamos com sonhos, expliquei a Samantha como isso funcionaria.
Disse-lhe que usaria uma palavra ou frase do sonho como referência e que ela deveria ser seu ponto de partida para dizer o que lhe
viesse à cabeça, fora do contexto do sonho. Perguntei-lhe sobre a frase \u201cNão gosto de homens\u201d. Relutantemente, ela falou do
marido e do pai.
O primeiro sonho mencionado na terapia geralmente fornece pistas importantes para o futuro, e isto era verdadeiro no caso de
Samantha. As importantes realizações serviam para provar sua autoestima e sua habilidade em superar as dificuldades.
Levaria meses para Samantha perceber que seus problemas de \u201cadministração de tempo\u201d estavam relacionados à
preocupação em manter um controle obsessivo de tudo, não deixando nada ser guiado pelo acaso. Ela queria se manter em
constante vigilância, temendo que seus desejos, medos e impulsos se manifestassem. Na busca para afirmar o controle, derrotava
a si mesma. Ser uma pessoa bagunçada também significava, para ela, não ceder às pressões; ela faria o que quisesse, quando
quisesse e da maneira que quisesse. Ela não daria de mão beijada o que os outros queriam, mas resistiria, mesmo que o preço
fosse a autodestruição. Não se contentaria mais com a mera \u201csuperação das dificuldades\u201d.
Conforme íamos trabalhando, sabia mais da vida de Samantha, e, com isso, dos sofrimentos que haviam causado seus
problemas atuais, que, na verdade, eram elaborados a partir de seu primeiro sonho na terapia e representavam associações
contínuas da frase \u201cNão gosto de homens\u201d. Antes de nascer, seus pais queriam um menino, e escolheram o nome Sam. Quando
nasceu uma menina, a mudança de nome para Samantha foi simples, mas a mudança da identidade não. Samantha sempre se
achou um desapontamento para os pais, talvez por isso ela nunca se sentira realmente bonita. A atenção que recebia dos homens
servia para aumentar seus ressentimentos-já que percebia que era avaliada como um objeto sexual. Mesmo assim, ela se utilizava
do sexo para conquistar amor e poder. Isto era favorecido pelos casos extraconjugais da mãe, que Samantha tinha conhecimento
desde bem pequena. E se fortaleceu, quando sua mãe a abandonou com apenas 14 anos. Ela deixou Samantha com o pai, e levou
os irmãos mais novos para viver com outro homem. O pai não tinha tempo ou interesse em dar-lhe atenção. Ele era um homem
amargo e solitário, que estava mais interessado na própria situação do que em cuidar da filha. E, assim, a partir dos 14 anos,
Samantha cresceu sozinha.
Ela queria sair-se bem na escola e conseguiu, porque era muito perspicaz. Mas estava sozinha e precisando de atenção. Sua
beleza a tinha transformado no centro da atenção dos meninos e sua carência a transformava num alvo fácil para as investidas
sexuais deles. Ser abandonada pela mãe ao entrar na adolescência e ter de viver sozinha com seu pai apenas exacerbou sua
tendência de sexualizar os relacionamentos. Não havia nenhum trauma sexual na relação com pai, mas o simples fato de viver
sozinha em um apartamento com ele era um terreno fértil para fantasias edípicas e desejos que não conseguia compreender. Isto, e
mais o comportamento sexual da mãe, fazia com que Samantha achasse difícil lidar com as questões envolvidas no processo de
tornar-se mulher.
Samantha se casou logo após se formar na faculdade. O marido era quinze anos mais velho que ela, e parecia poder propiciar-
lhe a estabilidade, a força e o interesse que ela tanto desejava. Ele havia sido casado anteriormente e tinha