O ciclo da auto sabotagem
120 pág.

O ciclo da auto sabotagem


DisciplinaPsicologia63.961 materiais448.145 seguidores
Pré-visualização47 páginas
filhos daquela relação.
Era bem-sucedido, mas Samantha ficava impressionada com sua devoção aos filhos, e imaginava que ele seria tão devotado a ela
quanto era aos filhos. De fato, ele se devotava aos filhos, mas era também bastante ambicioso e muito ocupado, e tinha pouco
tempo para ela. Embora trabalhasse, ela estava sozinha de novo, vivendo com um homem que, como seu pai, tinha pouco tempo
para se dedicar a ela. Samantha tornou-se obcecada por pensamentos sexuais com outros homens, e tentava esquecê-los com um
bom emprego, mas que exigisse muito dela e a fizesse trabalhar arduamente. Mas tinha dificuldade para administrar seu tempo.
Antes de seu casamento, sentia-se sozinha e seu comportamento sexual era quase promíscuo. Agora, ela temia que fosse sair
dos trilhos no casamento. Samantha nunca conseguiu se ver livre do trauma de ter sido abandonada, que se manifestava no desejo
de testar frequentemente os limites da afeição das pessoas por ela. Elas também a abandonariam? Lembrou-se de ter se sentido
assim no ensino médio e na universidade, mas, naquela época, encontrava alívio em suas escapadelas sexuais e conseguia voltar
aos estudos. Agora, achava que estava correndo o risco de destruir sua carreira e acabar com seu casamento, como a mãe havia
acabado com o dela.
Durante o tratamento, Samantha comunicou mensagens bastante contraditórias. Queria se permitir ser dependente, mas
quando isto acontecia, retraía-se. Quando começava a falar franca e abertamente sobre seus sentimentos e necessidades, ela logo
mudava de ideia e tentava se convencer de que não precisava ter nenhum envolvimento com seu terapeuta. Ela desejava ser
passiva e se render aos próprios pensamentos e sentimentos, somente para participar que estava se sentindo bem e que
conseguiria ir adiante sozinha. Ela fazia o que eu chamava de \u201cfugas para a saúde\u201d-\u201cEstou bem, não preciso de você, me sinto
melhor\u201d - como meio de não revelar seus sentimentos e desejos subliminares. Quando lhe pedia que usasse o divã, ela o fazia de
modo relutante, e expressava sua grande insatisfação por estar numa posição de dependência, com medo de ficar exposta e
vulnerável.
Ela anunciou em mais de uma ocasião: \u201cNão quero precisar de você. Eu não preciso de você!\u201d
Mas na sessão seguinte, dizia: \u201cQuero que você me ampare. Quero que você me ame.\u201d
Mas, será que conseguimos discutir essas mensagens ambivalentes? Não foi fácil. As tentativas de falar sobre isso
depararam-se com sua raiva e frustração, com sentimentos de abandono e isolamento por não conseguir o que desejava. Ela era
uma criança medrosa que precisava de contato físico, mas este contato era sexualizado e amedrontador. Ela estava provando que
suas necessidades não podiam ser atendidas. Falar era fácil, mas não era o que ela estava buscando. Ela não conseguia aceitar
suas necessidades de dependência, pois isso tornava-se imediatamente algo sexualizado, e só poderia ser evitado se ela se
convencesse de sua independência e de sua competência.
Ela não conseguia confiar nos outros porque não confiava em si mesma. Achava que, se pedisse ajuda, faria sexo. No entanto,
ela queria sexo - um desejo de ceder às necessidades de dependência, mas, também, um desejo de tirar aquilo do seu caminho.
O sexo era inevitável. Então, talvez, fosse melhor parar com aquele tratamento. Isto acabou resultando num comportamento
sedutor, seguido da fantasia de trabalhar com uma terapeuta, para não ter de lidar com aquelas questões. Entretanto, a ideia foi
logo descartada, porque as mulheres não eram dignas de confiança. Elas a abandonariam como sua mãe.
Só depois de trabalhar muito os sentimentos e suas tentativas de sedução, suas idas e vindas, a justaposição de seus
impulsos opostos que ela, finalmente, fez algum progresso. Começou quando tentou me seduzir. Ela não se deitava meramente no
divã para fazer livres associações. Usava roupas transparentes; contorcia-se enquanto falava das relações sexuais com o marido, o
que ela havia feito com ele e o que ele havia feito com ela. Tudo isso era uma tentativa de atiçar o terapeuta. Se fosse bem-
sucedida nisso, seria uma repetição da crença de que não era apreciada sem envolvimento sexual. Teria confirmado a sensação de
que a mãe era suja e que ela também era suja. Comentou da sensação de que as relações sexuais eram contaminadas.
É sempre difícil, mas imperativo, que o terapeuta saiba lidar com essas questões de forma neutra e objetiva, quando
necessário. Esta postura, gradativamente, fez com que Samantha percebesse que os homens podem ser compreensivos,
atenciosos e afetuosos, sem, necessariamente, se tornarem sexualmente envolvidos. \u201cVocê parece estar bastante agitada hoje\u201d,
comentei certa vez. \u201cTalvez as roupas que você esteja usando não sejam confortáveis.\u201d
Ela ficou furiosa. Frustrada. Foi a única vez que suas maquinações sexuais ficaram explicitamente expostas como uma
manobra de provar que nenhum homem era digno de confiança, e, mais importante, que ela mesma não era digna de ter uma
relação afetiva que não culminasse em sexo. Ela podia ser apreciada pelo que era, sem ambivalências e sem que nenhuma
exigência lhe fosse feita.
O significado do nosso trabalho resultou numa mudança de área de trabalho. Na verdade Samantha nunca teve predileção pela
área de marketing. Agora queria trabalhar com pessoas, especialmente com garotas adolescentes, já que, certamente, sabia,
melhor do que ninguém, que tipo de problema aquelas meninas podiam ter. Queria ser assistente social, mas isso significava ter de
voltar a estudar. Sem problema algum,
Quando voltou ao meu consultório depois de vários anos, apenas para um \u201ccheck-up\u201d, como ela mesma definiu, já estava
formada e mais feliz em sua nova carreira.
Ela também não tinha mais problemas com a administração do tempo.
Capítulo 6
Repetição de comportamentos nos vícios
DEPENDÊNCIA QUÍMICA
Qualquer discussão sobre ciclos de autossabotagem deve incluir o abuso de substâncias, tanto pela frequência de sua
utilização, quanto pelos danos causados ao usuário, sua família e seus amigos. É possível afirmar, com segurança, que o abuso de
substâncias não só afeta o indivíduo, como toda a família.
O abuso de substâncias não é um conceito unitário, porque, em alguns casos, o fundamento é fisiológico, enquanto, em outros,
o fundamento é psicológico. Mas, qualquer que seja o fator causai, há fatores psicofisiológicos atuando em conjunto. Talvez em
nenhuma outra área seja possível observar a ruptura da conexão mente-corpo de modo tão claro. Freud1 previu que, algum dia,
seria descoberta uma base biológica para as neuroses. Isto parece estar se tornando realidade, já que quase todos os dias surgem
avanços no campo da neurociência. Recentemente, por exemplo, foi descoberto que a dopamina administrada em pacientes com
Parkinson, com o intuito de controlar os tremores da doença, provocou-lhes comportamentos compulsivos. Em alguns casos, a
compulsão relaciona-se à alimentação; em outros, ao uso de drogas. Mais recentemente, descobriu-se que o uso de dopamina
motiva a compulsão ao jogo - mesmo quando essa compulsão não existia antes do uso da substância. As partes do cérebro
implicadas no processamento da dopamina foram mapeadas e identificadas. A questão óbvia é se há aspectos bioquímicos em
outras formas de comportamento compulsivo e se isto se aplica a algumas formas de compulsão à repetição.
É provável que alguns tipos de comportamento compulsivo sejam desencadeados por fatores psicológicos, enquanto outros
sejam motivados por fatores fisiológicos e bioquímicos, que afetam o funcionamento do cérebro e o comportamento
correspondente.
Até agora, temos observado os sintomas como uma manifestação de problemas mais profundos. Examinamos a história, os
antecedentes, os motivos e sentimentos subjacentes para solucionar os comportamentos repetitivos. Entretanto, no caso do vício,
devemos adotar uma abordagem diferenciada. Aqui, os sintomas