O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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dependente versus o adulto independente.
Depois de algum tempo, decidiu submeter-se à cirurgia de redução de estômago. Entretanto, isto aconteceu na época em que
começou a perder peso novamente. Ele não tinha paciência para lidar com seus problemas,
Este caso chama atenção claramente para algumas das dinâmicas que foram discutidas. Eric era extremamente carente, mas
não assumia a responsabilidade por sua situação ou por seus atos. E não tinha paciência e tolerância à frustração necessárias
para sustentar o esforço a longo prazo que seria preciso para trabalhar seus problemas. Ele reeditava, na relação terapêutica, o
conflito básico entre querer alguém que lhe dissesse o que fazer e querer fazer as coisas do seu modo. Ele tomou algumas medidas
para obter ajuda, indo até a clínica e começando a psicoterapia. Mas minava cada um desses esforços. A falta de confiança na
habilidade de manter a própria vida sob controle tornou se clara quando optou por um procedimento cirúrgico que tiraria de suas
mãos a responsabilidade por si de uma vez por todas.
Embora afirmasse que queria comandar a vida, ele sabotava este desejo assim que encontrava uma maneira de obter os
resultados esperados, sem ter de confiar nos próprios mandos e iniciativas.
O problema de trabalhar com indivíduos dependentes reside em sua ambivalência e confusão. Embora a dinâmica seja
compreendida do ponto de vista psicológico, há aspectos fisiológicos envolvidos, tornando, assim, o trabalho muito mais difícil.
Capítulo 7
A compulsão à repetição
Você não acha que é fácil perceber quando as pessoas estão presas a comportamentos repetitivos? É possível observar de
que modo aquele comportamento está lhes fazendo mal ou fazendo com que se movam em círculos. Podemos nos perguntar: Por
que ela continua se sentindo atraída pelo mesmo tipo maléfico de homem? Por que todos os seus filhos estão apresentando as
mesmas dificuldades? Por que ele trocou de mulher - já que, para nós, ela age e se parece muito com todas as ex-esposas dele?
Perguntamo-nos porque vemos o que está acontecendo. Ainda assim, frequentemente ficamos cegos aos nossos próprios padrões
de repetição profundamente enraizados.
Por que isso acontece? Porque a compulsão à repetição possui uma infinidade de características, e a mais importante delas é
que os indivíduos que a apresentam têm pouco ou nenhum discernimento do que está causando suas dificuldades. Freud entendia
isto como algo instintivo e, como tal, virtualmente imune à modificação. No trabalho com pessoas afetadas pela compulsão
autodestrutiva, é possível observar como esse comportamento parece ser guiado por forças incontroláveis. Vez por outra,
deparamo-nos com a notícia de que um tornado de grandes proporções está a caminho, e todas as indicações sugerem que é um
furacão perigoso e ameaçador. Mas não há como pará-lo. Do mesmo modo, a compulsão à repetição é um impulso, uma força
persistente, insistente, irrefreável e inevitável. O raciocínio é suspenso, o julgamento é interrompido, a inibição é abandonada. Não é
algo muito diferente do instinto que os salmões têm de nadar contra a corrente, desovar e, então, morrer. Há refrões que são
ouvidos repetidamente, como: \u201cSei que não devia entrar de cabeça nesse casamento, mas... Sei que devia esperar para ter um
filho, mas... Sei que não deveria me divorciar dele tão apressadamente, mas...\u201d
Tal comportamento parece estar mesmo além do princípio do prazer, significando que se, para a maioria, o comportamento
humano é motivado pelo desejo do prazer, para aqueles que estão presos a essa compulsão, até o princípio do prazer é subvertido
pela necessidade da repetição.
Os jogos repetitivos com os quais as crianças brincam são movidos pela busca do prazer, pela tentativa de dominá-los
completamente. Mas ser mestre na brincadeira de \u201cesconde-esconde\u201d ou de \u201cpega-pega\u201d pode também representar uma tentativa
de dominar o medo de experiências traumáticas, como medo da separação ou do abandono. Algumas formas de busca pelo prazer
são autodestrutivas e perigosas, jogos que podem resultar em tudo, exceto em prazer. Mas aqui, também, o objetivo pode ser
provar a maestria, não importando o nível de grandeza, desafiando as adversidades e a natureza, tentando enganar a morte.
Geralmente rejeitado como um \u201ccomportamento masoquista\u201d, sabemos que sua dinâmica é enraizada e complicada.
Quais são os motivos e o resultado dessa compulsão à repetição que traz consequências autopunitivas? A pessoa está
envolvida em uma atividade para provar algo a si, ou para expressar algo a alguém ou contra alguém? Trata-se de algo pessoal ou
interpessoal? Dirigir carros de corrida, escalar pedras ou montanhas, participar de competições de esqui são exemplos de
atividades em que o motivo é provar que o indivíduo é capaz de desafiar o perigo e a morte, que ele pode vencer obstáculos
incríveis e que pode se opor à própria natureza. Tais atividades são motivadas por tentativas de provar a si a própria maestria. Em
algumas ocasiões, as coisas podem sair erradas, e envolver outras pessoas. Mas o motivo não é prejudicar os outros.
Não se pode negar que bons resultados são alcançados a partir de alguns padrões de comportamento que exigem treinamento
exaustivo e castigos ao próprio corpo. O vencedor da medalha de ouro olímpica passa por anos de treinamento tortuoso e, geralr
mente, por múltiplos acidentes antes de se tornar um vencedor. A bailarina passa por exercícios dolorosos para dançar, em troca de
uma pequena retribuição financeira. O desafio é alcançar o objetivo desejado, que é fugaz e extremamente desafiador e difícil. Mas,
para a maioria, tais esforços são definidos pelo indivíduo, que está ciente do preço que tem de ser pago. Ele paga pela satisfação
pessoal, gratificação e prêmios.
Entretanto, quando o comportamento punitivo envolve outras pessoas, envolve colocá-las em risco, então o motivo e objetivo
têm de ser questionados. As prováveis consequências tendem a fazer mal a outras pessoas e não apenas a pessoa em si. O
propósito é repetir a necessidade do indivíduo de agredir ou de ser agredido, de se vingar, de agradar aos outros à própria custa,
ou de repetir as próprias mágoas, reeditando-as nas relações pessoais.
É assim que funcionam as repetições. Podemos experimentar uma sensação de déjà vu, quando os relacionamentos
repetidamente não funcionam, ou quando incorremos no mesmo tipo de problema em empregos distintos. Mesmo assim, raramente
reconhecemos os fundamentos profundamente arraigados de nossas repetições, sem falar nas etapas emocionais necessárias
para mudá-las.
O que motiva as pessoas a repetir um comportamento que vai contra sua felicidade, satisfação, sobrevivência e outras metas
sensatas? Freud pensou ter equacionado isso no trabalho com os veteranos da Primeira Guerra Mundial, que reeditavam suas
terríveis experiências de guerra e sonhavam com elas. O trabalho com aqueles homens levou-o à noção de Compulsão à Repetição
- um instinto na direção da morte, tânatos. Era uma ideia controvertida naquela época, e, hoje, ela já não é mais tão popular assim.
A pulsão de morte pode ser questionável, mas a compulsão a repetir atos autodestrutivos é uma noção que é muito útil para ser
descartada. Quando percebia este tipo de compulsão nos meus pacientes, eu ficava confuso e imaginava o que estaria por trás de
tal comportamento.
No meu trabalho, deparo-me com muitos tipos de repetições. Vejo pessoas que parecem compelidas a autossabotar,
repetindo gestos e atos que são mutiladores e destrutivos. Vejo aqueles para quem tudo parece correr muito bem, mas que
constantemente estão infelizes, colocando si mesmos e todos à sua volta repetidamente em situações de infelicidade. Não estou
falando fundamentalmente das tentativas de suicídio de uma pessoa deprimida ou de rituais repetitivos dos obsessivo-compulsivos
(embora esses sejam parte do quadro geral), mas do que parece ser um impulso à repetição para