O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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Infelizmente, isso era demais para Jack, que, por causa de sua história, tinha medo de expor qualquer vulnerabilidade ou
fraqueza. Por isso, ele tinha de manter distância, tinha de evitar se comprometer com a relação terapêutica, uma relação que, por
sua própria natureza, sugeria que ele não conseguira lidar com tudo sozinho.
- Quem diabos é você? - ele me perguntou, em uma de nossas últimas sessões. - Você é todo mundo e ninguém. Você não é
mais esperto do que eu. E eu não quero me tornar dependente de você, não quero que você me julgue.
Jack é um dos meus casos mais tristes, um \u201cfracasso\u201d, como parece. O seu caso era um clássico de repetições difusas, O
comportamento autodestrutivo permeava todos os aspectos de sua existência, e, por fim, havia destruído uma grande parte dela.
Ele acabou perdendo seu negócio, assim como a esposa e os filhos. Parecia que nada havia sido capaz de frear a espiral
descendente.
O comportamento de Jack era um exemplo da maneira diferente de encarar a pulsão de morte de Freud. Como reação ao seu
medo de ser destruído, de perder o controle de seu frágil senso de identidade, ele e outros como ele acabam envolvidos em uma
sombria batalha para controlar a morte, para provocá-la por si mesmos. Basicamente, penso que o inevitável é a morte, e a
repetição é uma forma de enganá-la - até descobrir que ela não pode ser enganada. Jack se sentiu castrado por causa de suas
experiências de vida anteriores. Psicologicamente, castração e morte são o mesmo. Ele pretendia provar que não poderia ser
subjugado e que dominaria a morte. De uma forma ou de outra, ele e outros como ele estão tentando controlar algo que está acima
do controle de qualquer pessoa. Eles chegam à conclusão que lhes parece inevitável - desgraça, ruína, até a morte, mas em seus
próprios termos. Isso está \u201calém do princípio do prazer\u201d.
O caso de Jack também ilustra as limitações do discernimento na resolução dos comportamentos de autossabotagem
profundamente arraigados. Embora o discernimento seja, certamente, o primeiro passo no desenrolar da psicoterapia dinâmica, o
despertar da consciência intelectual deve ser traduzido em mudanças nos sentimentos, na percepção de si e no comportamento,
para que uma reestruturação significativa aconteça.
Só é possível visualizar Jack como Sísifo, tentando empurrar uma pedra até o cume de uma montanha, até ela cair rolando, e
mais uma vez ele recomeçar a tola viagem montanha acima. É de partir o coração.
Ao contrário de Jack, a compulsão à repetição de Cy parecia não afetar sua vida corporativa. Nesta área ele era bem-sucedido
e admirado. Era na vida familiar e na íntima que as coisas estavam tumultuadas.
Cy era um cinquentão, uma daquelas pessoas sortudas que envelhecem com elegância, pelo menos fisicamente. Ele se vestia
bem, era alto, o rosto de traços fortes e o cabelo ondulado grisalho. Ele compunha uma simpática figura quando entrou pela primeira
vez no meu consultório, e eu, imediatamente, o achei agradável. Ao olhar mais atentamente, reparei que os cantos da boca
baixavam-se discretamente, e que havia nele uma aura de tristeza que eu já percebera em muitos de meus pacientes. Uma vez
instalado, perguntei-lhe o que o trouxera ali, e ele foi direto ao ponto.
- Estou aqui por causa de minha esposa. Ela insistiu para que nós dois fizéssemos terapia. Veja, estamos sem contato sexual
há muito tempo, e ela me culpa por isso. Acho que ela está pronta a me deixar. Acho que está certa. É culpa minha.
Fantasiei imediatamente na disposição de Cy de assumir a culpa por algo que, provavelmente, fazia parte da complicada
dança do casamento.
- Por que você acha que a culpa é sua? - perguntei.
- Simplesmente não a desejo mais como antigamente. Perdi essa coisa em algum lugar do caminho - disse ele, olhando para
as mãos cruzadas. Sua linguagem corporal estava se tornando cada vez mais introvertida, e eu podia afirmar que, apesar do
esforço para se abrir, era doloroso, para ele, ter de falar da sua vida íntima.
- As poucas vezes em que tentei, perdi a ereção. Inicialmente, ela tentou ser compreensiva, mas eu não consigo aceitar isso.
Sinto que não devia me preocupar, porque simplesmente sei que vou falhar novamente. Ultimamente, ela tem se tornado bastante
hostil, o que, simplesmente, me leva a evitar a coisa toda.
Ele fez uma pausa, e então lhe perguntei o que ele queria dizer por a coisa toda.
- Ah, eu tenho ficado no trabalho até tarde. Uma noite, nem voltei para casa. Sei que não estou sendo um bom marido, mas
simplesmente não aguento a raiva dela o tempo todo. Ela está me deixando perturbado. Tudo que ela diz é para me diminuir, ou é
sarcástica, ou é crítica. Não acho bom nosso filho ver a mãe me tratando desse jeito.
- Vocês têm um filho?
- Sim, ele tem só 2 anos. Mas tenho certeza que ele assimila as coisas no ar.
- Bem, ter um bebê pode geralmente tornar mais difícil o casamento. Como eram as coisas antes de vocês se tornarem pais?
- As coisas eram ótimas. O sexo era ótimo. Nunca tive nenhum problema nesse departamento. Ela era uma mulher muito
atraente. Ela é uma mulher muito atraente. Ela perdeu imediatamente o peso que conquistou na gravidez, ou quase todo o peso.
Claro, tivemos algumas discussões, mas nada nesse nível. Ambos queríamos as mesmas coisas. Estávamos querendo começar
uma família. Ela é mais jovem que eu. Tenho filhos do meu primeiro casamento, mas concordei em ser pai novamente, e ela queria
muito ter um filho. Parecia um bom casamento, muito melhor do que o primeiro. Eu amava - ou melhor, eu amo - minha mulher. Amo
meu filho. Não sei o que aconteceu. Me sinto péssimo.
Eu tinha uma série de perguntas, mas não queria forçar Cy a nada. Sempre que tenho um paciente cujo segundo casamento
está com problemas, naturalmente quero saber o que aconteceu no primeiro casamento, e se alguns dos padrões que levaram à
sua dissolução estão se repetindo. Quase sempre sim. As pessoas tendem a selecionar companheiros semelhantes e a reeditar os
dramas. Mas, nesta primeira sessão, Cy precisava de uma oportunidade para desabafar, e precisava falar com alguém que não o
estivesse julgando, embora ele mesmo fizesse isso. Oscilava entre sentir raiva da esposa e culpar-se. Havia, obviamente,
despendido muita energia guardando essa angústia, e tive a impressão de que ele deixou o consultório um pouco mais leve,
apenas por ter desabafado. Antes de partir, estabelecemos uma agenda semanal - queria vê-lo mais vezes que aquilo -, mas ele me
disse que sua atribulada agenda não lhe permitia mais encontros.
Enquanto isso, minha esposa, que também é psicoterapeuta, estava tendo a primeira consulta com a esposa de Cy, Judy.
Antes de mais nada, o fato de Cy e a esposa se consultarem sob o mesmo teto tornou mais fácil o tratamento. Assim, de tempos
em tempos, nós quatro nos reuníamos para conversar, uma perspectiva atraente, mas esses encontros a quatro tinham de ser
agendados cuidadosamente. Minha esposa e eu já havíamos trabalhado com outros casais de modo semelhante, estabelecendo
um plano de ação que atendia às necessidades deles. Cy e sua esposa queriam terapia individual, e eu concordei. Devido à
natureza dolorosa da queixa de Cy, e sua evidente raiva da esposa, achei que ele precisava ser ajudado, antes de se beneficiar da
terapia de casal.
- Nunca imaginei que ficaria impotente - começou Cy, na semana seguinte. - Não sei o que está errado.
- Foi a primeira vez que você teve esse problema? - perguntei.
- Bem, para ser honesto, não. Tive alguns problemas de desempenho sexual no meu primeiro casamento. Não no começo, mas
depois de um tempo. Talvez seja só a natureza do macho \u2013 ou a minha natureza - perder o interesse depois de um tempo.
- Conte-me o que aconteceu naquela época.
- Não há muito o que contar. Eu também parei de me interessar por ela depois de um tempo, e ela ficou aborrecida comigo e
se divorciou. Acho que as mulheres não são muito tolerantes com maridos