O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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que não têm um bom desempenho, Havia o bebê, e eu
estava estressado com o trabalho, e não queria voltar para casa para ser agredido depois de ter trabalhado duro o dia todo para
sustentar nossa família. Ela disse que eu a evitava e que evitava o bebê, que eu não os amava, o que não é verdade. Eu amava
minha esposa e as crianças.
Ele fez uma pausa, e decidi não preencher o silêncio com nenhuma pergunta. Frequentemente, durante uma sessão, ao
contrário de uma conversa normal, é melhor deixar o silêncio embaraçoso para que o paciente o preencha. Pode ser que ele
consiga olhar mais profundamente para si, ou perguntar-se o que será que não está querendo ver.
- Simplesmente não acho as mulheres grávidas sexualmente atraentes - Cy deixou escapar. - Será que isso é tão incomum?
Sou o único homem que acha isso? Confesso que, quando Judy ficou grávida, não quis mais fazer sexo com ela. Não era culpa
dela. Simplesmente, não me sinto atraído por mulheres gordas. Quero dizer, sei que ela não estava realmente gorda, mas você
sabe do que estou falando. Tinha medo de machucá-la ou o bebê. Pensava que ela estava em um estado frágil. Confesso: eu ficava
surpreso quando ela expressava interesse em ter sexo. Eu achava um pouco inadequado.
Ele fez uma pausa. Senti que estava buscando alguma espécie de camaradagem masculina ou uma aprovação minha naquele
momento. Eu estava formulando uma resposta e queria ser cuidadoso. É claro, pensei bastante sobre esse assunto. A
transformação de um objeto de amor/parceira sexual e romântica em uma mãe, e a própria transformação de alguém em pai estão
carregadas de implicações sexuais, que podem fazer balançar o melhor dos casamentos e deixar sentimentos de mágoa e
estragos em seu rastro.
Sei perfeitamente bem que o desejo sexual pode ser variável. Às vezes, ele despenca logo que um casal se casa. A gravidez,
as mudanças pelas quais o corpo da mulher passa e um bebê desarrumam uma série de coisas, inclusive a vida sexual do casal. O
compromisso com o casamento e com a paternidade são coisas significativas para um homem, e podem repercutir no seu
desempenho sexual.
O tempo já estava se esgotando naquela sessão, que havia se revelado bastante esclarecedora. Estava ficando claro para mim
que algumas das forças que haviam arruinado o primeiro casamento de Cy estavam levando o segundo à beira do precipício.
Ambos perderam o prumo quando as esposas ficaram grávidas, e nunca se recuperaram realmente. Cy chegou até a expressar
alívio ao mencionar as atitudes que sua primeira mulher tomou para divorciar-se. Era o que ele queria, mas não era sua intenção
parecer o cara malvado, que abandona a mulher e o filho. Ele afirmou que havia amado a esposa e não queria magoá-la, mas que
empreendera uma espécie de campanha passivo-agressiva, da qual dizia não estar ciente, para aliená-la, evitá-la e afastá-la de si.
Admitiu que, no primeiro casamento, depois que o bebê nasceu, ficava, às vezes, deliberadamente fora de casa ou \u201cesquecia-se\u201d
de ligar para a mulher para avisar onde estava. Ele fazia outras coisas que sabia que, em algum nível, iriam irritá-la, como acumular
dívidas nos cartões de crédito em conjunto, sem que ela soubesse, somente para provocar um acesso de raiva quando a fatura
vencesse.
Confesso que às vezes eu não sabia de qual casamento Cy estava falando, já que a dinâmica de deslindamento era
extremamente similar. A única diferença era que Judy, a esposa atual, ao contrário de Celeste, a primeira esposa, parecia
determinada a não deixá-lo tão facilmente nesta difícil situação. Ela queria que ele se desse conta de seu comportamento e
enfrentasse o problema. E, embora ele tivesse concordado em fazer terapia e afirmado da boca para fora que estava disposto a
salvar seu casamento, parecia quase que igualmente determinado a evitar se confrontar com a questão. Quando nos concentramos
no fato de que a gravidez havia sido o precipitador do problema em ambos os casamentos, ele rechaçou essa linha de investigação
abruptamente.
- Vou lhe dizer uma coisa, eu amo meu filho, mas às vezes acho que seria melhor para todo mundo se Judy e eu vivêssemos
cada qual seu próprio caminho. - Era sua forma de demonstrar que já havia ido longe demais. \u201cSó gostaria que nós não tivéssemos
esses problemas\u201d - murmurou. Cy geralmente fazia uso de generalizações e de consideração de si como defesas, quando as
coisas ficavam um pouco mais áridas.
Eu queria terminar a sessão com uma nota ressonante, para dar a Cy algo em que meditar na semana seguinte, e para que,
assim, pudéssemos partir do ponto em que paramos, e que estava, obviamente, começando a se tornar um terreno fértil,
- O que ouvi você dizer, Cy, é que seus casamentos, ambos os casamentos, foram muito bons até suas esposas ficarem
grávidas, antes de se tornarem mães. Talvez fosse interessante explorar alguns de seus sentimentos sobre sua mãe.
Ele pôs-se de pé imediatamente.
- Minha mãe é uma mulher maravilhosa - disparou de volta.
Cy faltou à sessão seguinte. E eu logo descobriria que essa forma de resistência passivo-agressiva era, também, um padrão
na sua vida. Na semana seguinte, ele praticamente se desdobrou em desculpas. Disse que tinha agendado inadvertidamente uma
reunião importante com um cliente na mesma hora da sessão.
- Marquei dois compromissos no mesmo horário - disse ele. - Só percebi em cima da hora. Desculpe-me. De fato, minha
secretária deveria ter percebido o engano. É tão difícil encontrar uma boa assistente hoje.
Nunca lhe ocorreu, ou se ocorreu, ele se recusou a aceitar, que assim que a terapia ameaçou se mover para um campo que lhe
era profundamente desconfortável, ele começou a sabotá-la, inconscientemente. Ele se mantinha firme à crença de que estava no
comando de suas ações, e que, se as coisas dessem errado, seria culpa de alguém ou fruto de um engano completamente
inocente.
- Puxa, faz tanto tempo que não consigo nem me lembrar sobre o que conversamos - disse Cy. - Minhas deficiências como
marido, provavelmente. Tenho ouvido bastante sobre isso ultimamente.
- Lembro-me que iríamos explorar alguns sentimentos sobre sua mãe.
- Ah, ótimo - disse ele. -Você deveria conversar com minha esposa. Ela acha que tenho alguma espécie de fixação em minha
mãe, ou algo assim. Ela continua insistindo que há algo de, errado comigo.
Decidi não morder a isca.
- Realmente, impus alguma distância entre mim e minha mãe. Ligo para ela cada vez menos. Eu a magoei profundamente. Judy
gosta disso? Não.
- Não estou entendendo o que você está querendo dizer.
- Bem, é o seguinte: acho que Judy está certa. Talvez eu estivesse muito próximo de minha mãe. Nunca me revoltei quanto a
isso. Ela estava sozinha, sabe, depois que meu pai a deixou. E ele ficava prolongando as coisas também. Vivia nos deixando e
voltando para casa, aumentando nossa esperança, até que foi embora de vez. Foi duro para todos nós. Nunca quis que minha mãe
se sentisse abandonada novamente, e, então, senti que era isso que Judy estava me pedindo para fazer. Abandonar minha mãe
novamente.
- Como ficaram as coisas depois que seu pai foi embora?
- Tornei-me bastante cuidadoso e ansioso. Comecei a gaguejar, achava que todo mundo estava olhando paLa mim o tempo
todo. Também não conseguia parar de me preocupar com minha mãe, então nunca me metia em confusão. Quando eu saía, o que
era raro, sempre lhe dizia aonde estava indo e com quem. Nunca ficava fora de casa até tarde. Eu era realmente um bom menino, o
tipo de filho que toda mãe quer ter. Quando os outros garotos começavam a fumar e a beber, ou fumar maconha, eu ia embora. Não
queria desapontar minha mãe novamente. E eu tinha certeza de que, se fizesse isso, alguma coisa terrível iria me acontecer. Nas
poucas vezes em que fiquei um pouco alto ou bêbado, mais tarde, na faculdade, nem valeu a pena, porque me senti muito culpado
com o que aconteceria se minha mãe descobrisse. Ela mantinha um padrão elevado para