O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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os filhos. Era uma senhora de classe. E
precisava de mim. Eu era, sabe, quase que o homem da casa, depois que papai nos deixou.
- Sua mãe apreciava todo esse seu esforço?
- Acho que sim. Sabe, ela tinha suas próprias preocupações. Me dizia que os problemas eram muitos e que eu devia ser um
bom menino para não fazê-la perder a paciência, e que eu não ia gostar se aquilo acontecesse. Mas não importava quanto eu fosse
bom ou tentasse agradá-la, ela sempre protegia meu irmão. Ele sempre escapava impune.
- Isso deve tê-lo magoado.
- Não, não exatamente. Ela era uma excelente mãe. Tinha seus próprios problemas. Me sinto péssimo por tê-la magoado. Mas
Judy insiste que devemos vê-la com menos frequência.
Durante nossas sessões, e em algumas sessões em conjunto com a esposa, ficou claro que o comportamento aquiescente de
Cy em relação à mãe era reeditado com a esposa, e que havia uma tendência oculta de ressentimento em ambos os
relacionamentos. Cy era um homem bem-sucedido no mundo corporativo, mas em casa, em suas relações íntimas, faltava-lhe,
estranhamente, assertividade. Quando Judy o criticava ou reclamava dele, ele se tornava extremamente defensivo, e negava
reflexivamente que pudesse fazer qualquer coisa que a ferisse. Embora estivesse claro que sentia raiva da esposa, ele não
conseguia, até nos parâmetros relativamente seguros da terapia, expressar essa raiva.
A extensão do comportamento passivo-agressivo de Cy no casamento logo se revelou. Depois de alguns meses de terapia,
chegou a uma sessão dizendo que Judy estava tão farta dele que estava prestes a se divorciar. Ele não parecia perturbado com
isso; na verdade, parecia aliviado. O que aconteceu foi o seguinte:
Por vários meses, Cy ficou até tarde no trabalho, em parte, como já havia admitido, para evitar voltar para casa, esquivando-se
da língua afiada de Judy. Às vezes, tarde da noite no escritório, ele entrava em contato com mulheres na internet apenas para
conversar, somente para ter alguma interação com o sexo oposto que não estivesse permeada de hostilidade, que ele via
associada ao seu casamento. Uma ou duas vezes ele teria até se encontrado com tais mulheres para almoçar. \u201cNunca aconteceu
nada de sexual\u201d, insistia, e eu não tinha nenhuma razão para não acreditar nele. \u201cNão sinto desejo sexual por nenhuma outra mulher.
De qualquer modo, sou impotente, então não poderia trair Judy, mesmo que quisesse,\u201d
É claro, Judy descobrira esses contatos; Cy não havia feito muita coisa para escondê-los. Ela se recusava a acreditar que eram
inocentes, e tinha certeza de que Cy a estava traindo. Ela o esculhambou por não ser homem o suficiente para contar-lhe, e por agir
sorrateiramente. Foi uma cena terrível, que terminou com arremesso de pratos e ameaças. Cy tinha certeza de que, desta vez, Judy
estava falando sério sobre querer divorciar-se, e estava quase que totalmente convencido de que a culpa era sua,
Era óbvio que Cy achava que ao revelar finalmente suas \u201cmás ações\u201d para mim, estaria fazendo exatamente o que a relação
terapêutica exigia, sendo totalmente honesto e admitindo a própria \u201cculpa\u201d, na esperança de receber algum tipo de absolvição. Mas
a terapia não é um confessionário, um lugar onde alguém vem para ser absolvido dos próprios pecados, e, em todo o caso, não
existe essa noção de pecador na psicoterapia. Mas a tendência de Cy de culpar-se, de culpar os outros e de buscar absolvição,
sublinhava a natureza intolerante de seu histórico familiar e de sua orientação. Alguém tinha de ter falhado; alguém tinha de ser
culpado e de pagar por aquilo.
Embora gostasse dele e o achasse agradável, Cy havia se transformado num paciente extremamente frustrante. Acreditava que
não conseguira atingi-lo, e que seu padrão era recorrer a sentimentos de culpa como defesa, como se ele estivesse me passando
uma batata quente, esperando que eu a deixasse cair. Mas ele, simplesmente» não ia se aprofundar nos próprios sentimentos.
Continuava na defensiva, mesmo quando sabia que estava sendo totalmente honesto. Por exemplo, embora fosse óbvio em tudo o
que dizia, Cy levou bastante tempo para admitir que sentia raiva da esposa. Ainda mais remota era a possibilidade de assumir
qualquer sentimento de raiva pela mãe, sem falar em perceber a conexão que essa relação constitutiva poderia ter com suas
circunstâncias atuais.
Cy nunca conseguiu desenvolver a habilidade de expressar sua raiva diretamente às pessoas que a despertavam - a mãe
carente, de quem nunca conseguiu obter o status de criança favorecida, e o pai desertor, severamente crítico e irresponsável. Em
vez disso, sua raiva era camuflada e expressa tortuosamente, de tal modo que se vingava e, simultaneamente, se machucava. Cy
queria evitar se transformar no pai - um homem que abandonou a família. Cy teve de não se tornar \u201co pai\u201d, agradando sua mãe. Ele
estava falhando miseravelmente nas duas questões. Estava prestes a abandonar de vez sua segunda mulher e o filho, e, embora
elaborasse várias racionalizações, isto o estava consumindo claramente. Nunca se separou efetivamente da mãe e tinha, de fato, se
tornado o homem de sua vida quando o pai a deixou, uma situação patológica carregada de perigos edípicos para todos os
envolvidos.
O ponto nevrálgico de seus casamentos, conforme tentei lhe explicar, foi quando suas mulheres ficaram grávidas: a gravidez é
igual à maternidade, que é igual à sua esposa, que é igual à sua mãe. O sexo, portanto, está proibido. A gravidez de suas esposas
também significava uma transformação em seu status, para a posição de pai, outro estado problemático para ele. Os pais, de
acordo com sua experiência profundamente arraigada, abandonam os filhos, uma coisa terrível em sua mente. Ainda que ser um pai
desse tipo fosse algo que o amedrontava enormemente, ele estava impelido a repetir a experiência traumática pela qual passara. A
paternidade era um risco terrível, se observado à luz da deserção de seu próprio pai. Afinal, quando era criança, ele idolatrava o pai,
mas viu-se, em seguida, desapontado e aviltado por ele. Cy tentou agradá-lo, mas seus esforços sempre deram errado. Cy
desiludiu-se com o pai, mas, o mais importante, desiludiu-se consigo mesmo. Ele se sentia um fracassado, que foi a mensagem
que recebeu do pai.
E, então, havia o problema de sua impotência, um sintoma aparentemente físico, que era para onde todos os problemas de Cy
convergiam. Se ele é impotente, não pode ter sexo com sua esposa/mãe. Também não pode ser um pai para um filho que, no futuro,
abandonará. (Como ele pôde fecundar a esposa se é impotente?) A impotência também tinha o efeito de fazer com que a esposa
se sentisse indesejável, criando uma alienação do casamento, e uma eventual fuga para Cy. Enquanto isso, ele podia brincar de
encontrar outras mulheres, irritando a esposa, ao mesmo tempo em que assegurava a si que não faria sexo com elas. Afinal, ele era
impotente. Observada objetivamente, e sem considerar qualquer um dos sentimentos de mágoa provocados por ela, sua
impotência, como uma estratégia de seu inconsciente, era perversamente engenhosa. No fim, presumivelmente, se o roteiro
continuasse a ser seguido, ele poderia se ver livre desse embaraço e começar todo o ciclo novamente.
Gostaria de poder dizer que minhas delicadas sugestões sobre algumas dessas profundas conexões e das causas do
comportamento de Cy tiveram um efeito apaziguador. Mas não foi assim. Ao contrário, as coisas pareciam se mover rapidamente
em direção ao divórcio. Tentei dizer a Cy que ele deveria considerar com muito cuidado o fato de estar se colocando em um lugar
bastante familiar. Lembrei-lhe que o divórcio não era algo com que ele deveria chegar a um acordo. Ao contrário, era a dinâmica
que sustentava os motivos pelos quais ele se mantinha na mesma situação. Além disso, deixei clara minha sensação de que seu
ímpeto de acabar com o casamento era muito intenso, muito compulsivo. Disse a ele que até poderia entender seu impulso