O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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aspectos, uma criança
que mantém em segredo o fato de sofrer abusos sexuais do pai. Ela sabe que fora isso, a única alternativa é o abandono total, ou,
mesmo, o aniquilamento.
Então, se há tantas repetições, e nós lutamos para entendê-las e vencê-las, é razoável perguntar-por quê? Existe uma
compulsão à repetição, um instinto que nos faz repetir um comportamento, tal como sugeriu Freud?1 E, se é assim, por que existem
as repetições autodestrutivas? Como explicar, além da repetição de atos autodestrutivos, a repetição de experiências dolorosas em
sonhos e memórias? Seria isso uma tentativa de alcançar algum domínio de mudar as consequências pelo menos uma vez7. Ou a
repetição em si, ainda que dolorosa, oferece algum ganho particular? Freud pensou ter equacionado essa questão em seu trabalho
com os veteranos da Primeira Guerra Mundial. Ele descobriu que aqueles homens reeditavam e sonhavam com suas terríveis
experiências de guerra, o que o levou à noção de tânatos, a pulsão de morte - uma ideia controvertida tanto naquela época quanto
hoje. Ainda que eu acredite que a ideia da pulsão de morte é questionável, a compulsão para repetir atos e pensamentos
autodestrutivos não é, de modo algum, contestada.
Mas, mesmo tendo de aceitar as coisas dessa maneira, retorno à questão principal: Esse comportamento pode ser mudado?
Existe esperança para aqueles que sofrem profundamente, talvez inconscientemente, com esses comportamentos repetitivos?
Existe esperança para Betty, Cory, Louis e todos os que vieram me procurar ao longo dos anos, atormentados por comportamentos
repetitivos inconscientes? A mudança ocorre? É realmente possível? Penso que sim. Esse é o meu trabalho e o tema deste livro.
Uma tentativa de mostrar como esses comportamentos repetitivos podem ser revelados, apreendidos e até modificados.
Sim? Mas como?
Anna O., uma paciente de Freud, cunhou a expressão \u201ccura pela fala\u201d. A \u201ccura pela fala\u201d de Freud, se podemos chamar assim,
influiu inegavelmente na nossa cultura, nas nossas crenças, e até no nosso vocabulário. Todas, ou quase todas as psicoterapias
modernas devem muito aos princípios freudianos.
Quando conheço um novo paciente, sempre fico um pouco ansioso. Será que conseguirei ajudá-lo a alcançar algum tipo de
cura? Estabeleceremos uma relação de confiança, um bom nível de comunicação? Ou esse encontro estará destinado ao fracasso?
No início, não dá para saber. E, embora haja quem, ocasionalmente, afirme que o objetivo é este ou aquele, mesmo isso não está
claro no começo. Algumas pessoas têm ideias preconcebidas do que é a terapia. Elas querem respostas. Elas querem conselhos.
Às vezes querem, como Cory, agir como se tivessem nascido ontem - como se os sentimentos e traumas do passado não tivessem
nenhuma relação com os problemas atuais.
Há técnicas de terapia que não investigam o passado. Indicações, baseadas em evidências empíricas, sugerem que algumas
dessas técnicas são bem eficazes. Elas lidam somente com o aqui e o agora, e têm por objetivo dar aos pacientes oportunidade de
expressar seus sentimentos. Os pacientes conseguem efetivar mudanças porque percebem as consequências de seu
comportamento autodestrutivo. Essas técnicas podem ajudar a aplacar medos, a resolver problemas de relacionamento, e atenuar
ansiedade e depressão. Podem, até, ter um efeito propagador, quando as mudanças em comportamentos aparentes atingem o
inconsciente, fazendo com que alguns problemas mais profundos sejam resolvidos. Entretanto, é bastante improvável que alguma
dessas técnicas funcione com os comportamentos repetitivos de autodestruição mencionados.
A solução para esse padrão de repetição mais profundo e inconsciente está no passado. É preciso descobrir a origem dos
conflitos inconscientes, entender as razões subjacentes àquele comportamento, tornar consciente o que está inconsciente, auxiliar o
indivíduo a perceber a si mesmo e o mundo à sua volta de maneira diferente. Esse é o objetivo supremo e a solução - dar aos
indivíduos a liberdade de escolher o que querem. Um pressuposto básico é que o comportamento é motivado por fatores dinâmicos
que geralmente fogem à consciência. Nosso objetivo é trazer esses fatores à consciência, a fim de facilitar a mudança de
personalidade. A mudança de comportamento acompanha a mudança de personalidade. Somente assim os ciclos repetitivos de
autossabotagem poderão ser decifrados.
A prática da psicoterapia dinâmica é empolgante e espantosa. Independentemente do número de pacientes atendidos e das
centenas de horas de dedicação, fico assombrado com a capacidade da humanidade de procurar maneiras de proteger e defender
sua integridade. A necessidade de sobrevivência, de testar limites, de encontrar desculpas e racionalizações para ter controle são
tão variadas quanto são as pessoas. Não há dois seres iguais, no tocante a constituição psicológica. Cada um traz uma história
singular. Cada um tem uma história para contar. Cada um tem suas próprias defesas. Os pacientes podem ser muito ricos ou muito
pobres, fisicamente fortes ou fracos, brilhantes ou medíocres. Podem ter formação cultural e étnica distintas e temperamentos
profundamente diferentes. Fatores hereditários podem estabelecer limites importantes no modo de ver e lidar com as adversidades
e sofrimentos. O temperamento pode determinar o modo de reagir, mas a biologia não deve ser desconsiderada. Até alguns
distúrbios psíquicos podem ser determinados pela genética. Mas, além das limitações impostas por um desses fatores, somos
afetados significativamente por nossa criação, história e meio. Duas pessoas não experimentam a mesma ambiência, pois o
mundo está em constante mudança. Heráclito disse que é impossível um homem se banhar duas vezes no mesmo rio.
Embora tenhamos inúmeros rótulos, diagnósticos e categorias, não há uma única pessoa que se encaixe em um deles. Mas, no
fim, as pessoas são semelhantes, pois nós somos humanos e únicos. Cada problema é único. Cada modo de lidar com o passado
é único. É desconcertante apreciar a ampla variedade de maneiras que os indivíduos encontram para lidar com sucessos e
fracassos, com vitórias e decepções, com ameaças e medos. As diferenças ultrapassam em muito as semelhanças, e cada
paciente novo representa um desafio único.
O caminho é árduo. Na maioria das vezes, fico pensando se não há um meio de separar os sofrimentos humanos comuns, os
que atormentam a todos nós, dos sofrimentos perversos, nocivos, que habitam as almas sofredoras. Geralmente, digo aos
pacientes que só posso lhes oferecer a mudança. Mas isto não é verdadeiro. O que tenho a oferecer é a oportunidade de
efetivarem a mudança.
De vez em quando acontece de, durante a terapia, a oportunidade não surgir. Às vezes, é porque o paciente é incapaz ou reluta
em mudar ou então não quer se lembrar ou acessar sentimentos que poderiam auxiliar na mudança. Outras vezes é porque têm
medo. Eles vêm ao meu encontro porque superficialmente querem mudar, mas há outra parte deles que teme a mudança. E é esta
outra parte que vence a batalha.
Mas sempre acabo me perguntando: Onde estou falhando com esse paciente? O que estou deixando de levar em
consideração? Estou demasiadamente silencioso? Ou, ao contrário, estou falando demais? Com certeza, em todas as sessões,
pistas estão sendo oferecidas, mensagens são enviadas, às vezes pela própria aparência do paciente. Ele está com uma
aparência desleixada hoje? Os ombros estão curvados? Está incomumente animado? Ele está pronto - pronto para dar aquele
salto? Porque, certamente, é um salto de fé que leva alguém a verdadeiramente dar início a essa viagem muito, muito assustadora.
Sim, ir ao consultório de um terapeuta é um começo, mas é apenas o começo. Pode levar muitos, muitos meses - até anos -, para
que uma relação verdadeira se estabeleça. E é na relação que a mudança ocorre.
Acredito que minha psicoterapia tem de ser quase que constantemente reinventada. Porque, apesar de toda