O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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que tinha o direito de ter aquilo que conseguisse pegar.
Como Helen, Sarah estava sentindo uma falta ardente de algo, estava sedenta num mar de abundância. Helen tinha de comprar
amigos, tinha de fazer com que as pessoas gostassem dela, mesmo que isto significasse impor-se a eles. Sarah tinha de conseguir
roupas de graça, mesmo que isto significasse ter de roubá-las.
As duas mulheres vivenciavam profundos sentimentos de privação, que não aceitavam. Eram exasperadas e deprimidas, ao
mesmo tempo em que demonstravam uma felicidade de fachada. Reprimiam a raiva e a tristeza enquanto buscavam repetidamente
a \u201ccura\u201d para seus apetites íntimos. Insistiam em tentar ganhar o amor - para abastecer-se - por meios autodestrutivos.
O efeito do relacionamento entre irmãos na imagem de uma pessoa e em repetições duradouras é importante, porque a
maneira de se relacionar na vida adulta é, em muitos casos, determinada pela interação com os irmãos. Insultos e provocações,
comparações desfavoráveis entre irmãos, maneiras diferentes com que os irmãos são tratados na família, tudo isto desempenha
um papel importante no modo de cada um se ver. Embora a rivalidade entre irmãos seja, em geral, considerada normal e parte do
processo de crescimento familiar, há excessos que são mais frequentemente identificáveis no modo dos pais se relacionarem entre
si e com os filhos, do que no relacionamento entre irmãos.
Lutas competitivas, ou, alternativamente, abster-se de competir, podem ser atribuídas ao relacionamento entre irmãos. Uma
criança cujo irmão mais velho é rebelde e castigado pelos pais pode vivenciar isto como um sinal claro de que não deve se revoltar,
de que deve se conformar, mesmo que isto signifique inibir seus sentimentos. A criança mais nova torna-se o \u201cbom filho\u201d, que nunca
se envolve em problemas, resignando-se, com medo de que os castigos destinados ao irmão voltem-se para ela. Os irmãos podem
despertar sentimentos de raiva e culpa, provocando um intenso ressentimento, que pode se tornar parte da imagem que fazem de
si, da maneira pela qual um indivíduo se vê e vê os outros, mais tarde, na vida.
Mas os irmãos também podem ser modelos positivos e fontes de encorajamento, especialmente naqueles casos em que os
pais trabalham por longas horas, ou em famílias de pai ou mãe solteiros. Depende muito dos pais.
Bertha, uma mulher deprimida de 40 anos, procurou tratamento por conta do estado crônico de infelicidade, da inabilidade de
estabelecer relações duradouras, da dificuldade em demonstrar afeto pelos filhos e indiferença no casamento.
Depois de longas manifestações de raiva direcionadas aos pais, por não terem conseguido oferecer-lhe um ambiente mais
amoroso e aconchegante, Bertha se lembrou de um incidente de quando tinha apenas 4 anos. A mãe pediu-lhe que desse uma
olhada na irmã menor que dormia no carrinho, na parte de fora da casa. Enquanto Bertha estava executando sua tarefa (que não lhe
agradava), o carrinho moveu-se da calçada para o asfalto. A mãe, que observava a cena da janela, saiu correndo para pegar o
carrinho e repreendeu severamente a menina Bertha. Este incidente tornou-se uma pedra de toque, em torno da qual grande parte
da vida de Bertha foi organizada. A partir de então, em parte por conta do episódio em que lhe foi incumbida uma responsabilidade
muito grande para uma criança de 4 anos, ela passou a odiar a irmã. A irmã tornou-se o símbolo do castigo e do afastamento da
mãe. Bertha estava decidida a não se parecer com a irmã. Ela era uma lembrança constante da inaptidão de Bertha e a causa da
sua dificuldade com a mãe.
Como consequência, Bertha passou a reagir com hostilidade e negativismo às demandas que lhe eram feitas, porque não
confiava em si. Tinha medo de que seus impulsos destrutivos se traduzissem em ação - como acontecera quando tinha 4 anos. Não
se permitia envolver-se demais nos cuidados com os próprios filhos e nas responsabilidades que estavam associadas ao seu papel
de mãe e provedora,
O marido de Bertha era um profissional bem-sucedido, e conseguia pagar o tratamento para aliviar o fardo que Bertha
carregava. As babás nunca eram cuidadosas ou atenciosas o suficiente com as crianças. Na verdade, Bertha não conseguia se
permitir ser feliz por quase nada. Estava sempre vigilante, com medo de que as coisas fugissem ao seu controle. Muito do seu
modo de proceder na vida adulta foi influenciado pela relação que desenvolveu na infância com a irmã, com quem, agora, tinha
pouco contato. Entretanto, a irmã representava a pessoa que tornara sua vida uma completa desgraça.
Em contraste com Bertha, Florence não lutava. Ela se retraía, sacrificando a própria assertividade. Florence era a filha mais
velha de uma família de seis irmãos, cuja mãe havia sacrificado os próprios planos educacionais e profissionais para constituir uma
família. A mãe tinha muito pouca paciência com crianças, especialmente com a primogênita, Florence. A mãe não sabia o que fazer
com a filha mais velha e não lidava bem com o fato de ter abandonado seus planos. Sob muitos aspectos, Florence cresceu
sozinha, pois logo depois de seu nascimento, a mãe ficou grávida novamente, e de novo e de novo. A princípio, ainda uma criança
pequena, Florence tentou ganhar a afeição da mãe ajudando-a, sendo uma \u201cmãe substituta\u201d para os bebês. Tentou tomar conta
deles, mas era muito jovem, e não foi bem-sucedida. A mãe ficava extremamente impaciente com a pequena ajudante. E as
crianças menores queriam a atenção da mãe, não da irmã. Florence desistiu de lutar por seu lugar na família, retraindo-se e
evitando confrontos. Tornou-se uma excelente aluna - o que serviu para causar inveja nas crianças menores.
Florence veio procurar terapia logo depois de dar início a uma nova profissão, na qual as mulheres eram brilhantes, talentosas e
muito competitivas. Florence era tão brilhante e talentosa quanto elas, mas muito pouco competitiva. Estava bem-preparada em
termos de conhecimento, inteligência e habilidade, mas apresentava problemas para ser assertiva. Onde as outras avançavam para
conquistar reconhecimento em suas áreas, Florence ficava na retaguarda. Via as colegas indo em frente, construindo uma
reputação cada vez mais sólida. Ela estava ciente das limitações das colegas, e mais do que isso, sabia, acertadamente, que
poderia ter feito um trabalho muito melhor que o delas. Mas tudo isto se passava em seu íntimo. Ela não conseguia reunir forças
para se colocar em evidência. Lia, estudava e trabalhava para aprimorar seus conhecimentos e sua experiência. Nas reuniões,
entretanto, embora tivesse coisas a dizer, mostrava-se condescendente com as outras. Não conseguia falar.
Florence estava reeditando o lugar que ocupava na família. Em vez de lutar, retraía-se e dirigia a atenção para o
autoaprimoramento. Na terapia, ela percebeu o que estava fazendo. Estava se sentindo deslocada por seus irmãos, que recebiam a
maior parte da atenção da mãe. Ela se deu conta disso, recolheu-se e ficou em silêncio. Também percebeu que, agora, tinha uma
escolha - ela não precisava competir pelo reconhecimento na área profissional, mas poderia se quisesse. Poderia competir
livremente. Não precisava reeditar o que havia sofrido no passado.
Capítulo 8
Como reconhecer e solucionar as repetições de comportamentos de autossabotagem
Um ponto crucial para nosso entendimento da compulsão à repetição é o conceito de trauma e de repressão dos sentimentos
associados ao trauma. Na linguagem comum, usamos o termo \u201ctrauma\u201d para fazer referência a acontecimentos extrínsecos, como
eventos apavorantes que afetam todos os que são expostos a eles - como tornados, guerras, tsunamis ou furacões. Entretanto, do
modo que está sendo empregado aqui, o trauma se refere a experiências seletivas, pessoais, que chocam e horrorizam, que
arruínam gradativamente a suposição de que existe alguma estabilidade em nosso mundo. Em outras palavras, o trauma, aqui, é
definido pela maneira