O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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com que é vivenciado pelo indivíduo. Assim, o que é ameaçador e traumático para uma pessoa pode não ser
para outra. Para aqueles que vivenciam esses eventos traumáticos, há uma necessidade profunda, compulsiva e inconsciente de
dominar aquilo que foi experimentado como algo fora de controle. Quando não podemos obter o controle, às vezes reprimimos ou
enterramos nossos sentimentos e memórias. Tal repressão é uma forma de nos proteger de experiências que perturbam nosso
equilíbrio emocional, experiências tão terríveis que não conseguimos mantê-las na consciência. Mas a repressão, como vimos
claramente até agora, não enterra só o evento - nem os sentimentos e lembranças a ele associados - mas também os elementos
que o acompanham. O resultado é que tais memórias e sentimentos reprimidos estão sujeitos a muitas distorções.
Há uma vasta literatura recente1 que lida com as reações de resiliência e resistência ao trauma. A maior parte desses estudos
fala apenas em considerações a curto prazo e em comportamentos manifestos. O que está faltando na maioria desses estudos,
entretanto, é a consideração de efeitos a longo prazo dos traumas nos indivíduos, tomando por base a história do indivíduo na
vivência do trauma. Em vez de se falar sobre \u201cresistência\u201d ou \u201cresiliência\u201d como entidades em si mesmas, é necessário considerar a
configuração da vida do indivíduo como um todo. Na verdade, existem diferenças individuais, mas as sensibilidades são reduzidas
ou exacerbadas pelas experiências de vida. Também é provável que fatores biológicos ou hereditários desempenhem um papel
importante quando se fala em \u201cresiliência\u201d e \u201cresistência\u201d como respostas a um trauma. Entretanto, um indivíduo que vivenciou um
trauma na infância reagirá a traumas posteriores de maneira bastante diferente da pessoa que não vivenciou nenhum trauma
anteriormente. Essie provavelmente não teria reagido como reagiu à devastação de 11 de setembro se não tivesse vivenciado
experiências anteriores.
Para todas as vítimas do trauma, entretanto, uma característica peculiar é a sensação da perda de controle. Todos nós, desde
os primeiros anos da infância, precisamos sentir que temos domínio sobre nós mesmos e nossa vida. Uma criança constrói uma
torre com blocos. Ela cai. Ela reconstrói a torre. As crianças brincam de esconde-esconde e de pega-pega. Isto lhes garante que o
que se escondeu voltará a aparecer. E quando essas coisas funcionam, a criança sente prazer, não apenas fisicamente, mas,
também, fisiologicamente. Tudo isto estimula o desenvolvimento da sensação de estabilidade.
Às vezes, no entanto, o trauma e a repressão que o acompanha interferem no crescimento normal, e é aqui que os
desesperançados e autodestrutivos ciclos repetitivos podem ter início. Quando há repressão, castigo, rejeição, manipulação e
censura constantes, o crescimento de uma criança pode ser prejudicado. Se a criança expressa sentimentos ou crenças de que
está em desacordo com as interdições parentais, e o preço a ser pago é a desaprovação, a rejeição, a culpa e a ameaça de
abandono, ela pode ficar traumatizada, A culpa é elemento integrante da imagem que fazemos de nós próprios. Isso pode se tornar
um padrão repetitivo de supressão e inibição da assertividade do indivíduo por toda a vida, com o intuito de agradar os outros.
Outro extremo também é possível. Em vez de suprimir e inibir a própria assertividade, a criança pode reagir de maneiras
completamente diferentes. A rebeldia teimosa e a resistência a pais severos e punitivos podem resultar numa intensa batalha de
vontades, destinada a provar que o indivíduo não vai ser morto por aqueles pais. A autoridade deve ser desafiada a toda hora, não
importando as consequências, \u201cBata em mim se quiser, mas não vou lhe dar o prazer de me ver chorar.\u201d Ou a criança pode desafiar
outras pessoas fora de casa, enquanto se comporta bem em casa; um anjo em casa e um demônio com as professoras na escola,
uma tirana no playground com outras crianças. De todas as formas, ela se sente inadequada e perseguida pela culpa e
recriminação. Finalmente, a criança se transforma no adulto que desafia o cônjuge ou o chefe. Ele transfere a raiva para outros, que
são percebidos como aqueles que o tratam injustamente.
O conflito básico tem por fundamento o medo da rejeição, a perda de amor e, por fim, o medo da aniquilação. No final, é
vivenciado como uma questão de vida ou morte, para sobreviver ou ser destruído.
A resposta para esses indivíduos traumatizados, até aqueles autodestrutivos, está na necessidade perpétua de dominar o
trauma, de recuperar o controle. Serei capaz de fazer com que meu pai agressivo me ame e seja bom comigo. Serei capaz de fazer
com que meu pai alcoólatra pare de consumir álcool. Eu posso, e devo, salvá-los e me salvar. Posso fazer com que me amem,
quando nunca me amaram. Não posso falhar - ou serei um fracassado.
Há, no entanto, uma variação desse tema. Quando a raiva de um pai decepcionante é intensa, quando alguém sente que não
há meios de mudar o pai agressor, o objetivo pode se tornar o da rebeldia-procrastinação, abstenção, desordem, incapacidade de
cumprir promessas, abuso de substâncias. Tudo isto representa modalidades passivo-agressivas. A independência torna-se
equivalente ao negativismo inflexível e à rebeldia.
Há indivíduos traumatizados que para ter a sensação do controle, buscam a fuga para um mundo de fantasias que satisfaça
seus desejos. O dependente de sexo passa horas vendo pornografia, fantasiando uma parceira como aquelas do filme, uma
parceira que fará tudo para satisfazê-lo. Outros usam a fantasia para se vingar, obtendo prazer e deliciando-se com fantasias
sadomasoquistas repetitivas. Ali, sentem que podem dar vazão à raiva contra aqueles que o insultaram ou o trataram injustamente -
coisa que não podem fazer no mundo real.
Outros evitam a fantasia, mas tentam, obstinadamente, corrigir os erros, apesar de não terem consciência desses erros.
Tentam, como fez Helen, ganhar amigos de modo inadequado e autodestrutivo. Ou tentam, como fez Sarah, obter as coisas de
graça - roubando em lojas -, para compensar o sentimento de terem sido enganados. Eles podem buscar situações de conflito e de
enfrentamento, como fez Jack, que acabou perdendo tudo, ou podem evitar tais situações, como foi o caso de Max, na campanha
para salvar o planeta.
O medo supremo da perda de controle é o aniquilamento ou a morte. De um modo ou de outro, muito do que fazemos está
voltado para provar que somos capazes de levar a melhor sobre o inevitável, uma tarefa que está além do controle e da razão. O
homem não aceita facilmente sua própria mortalidade, e muitas de suas compulsões e sublimes esforços têm por objetivo driblar a
morte.
E, aqui, a esperança de ser capaz de impor-se e superar as adversidades - até desafiando a morte - é admirável, desde que
exista uma base realista. O desafio de escalar o monte Everest é aceitável, se o indivíduo estiver em boas condições físicas e se
escalar acompanhado de um guia experiente. A necessidade de se tornar um especialista em um determinado campo é admirável,
se a pessoa ajustá-la a objetivos realistas. Mas esses não são os indivíduos que menciono aqui. Aqueles que chegam ao limite sem
considerar os perigos terminam como exemplos de autossabotagem. A sensação de onipotência e de grandiosidade, por si só»
não sustenta o indivíduo. E, assim, essas pessoas tentam, repetidamente, provar que podem vencer as dificuldades.
Porque o espectro da morte é imutável, a maneira de lidar com isto é significativa. A maneira de encarar nossa mortalidade é
um fator determinante no nosso modo de viver a vida. Já foi mencionado que um homem não consegue conceber a própria morte.
Esta é nossa maneira de nos defender contra o que sabemos que está lá nos esperando, nossa mortalidade, nosso derradeiro fim.
Então, para provar nossa imortalidade, lutamos, nos defendemos, repetimos nossas fraquezas.
Como esses conflitos