O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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são resolvidos? A resposta é com dificuldade. Está claro, a essa altura, que sintonizar com memórias e
sentimentos dolorosos, reprimidos há muito tempo, gera medo e ansiedade do que virá à tona e do efeito disso. Depois de muitos
anos protegendo-nos de nossos sentimentos, é assustador vivenciá-los; é como se o indivíduo ficasse desamparado pelo mundo.
\u201cO que será de mim se eu deixar meus sentimentos aflorarem?
Sei que tenho me sentido deprimido, mas não ficarei ainda mais deprimido se tiver acesso a esses sentimentos?\u201d
Aí está o obstáculo. Vivemos com nossa capa de proteção e nos deixamos levar pelos movimentos da vida. Conseguimos
empregos, fazemos nosso trabalho, nos casamos e temos filhos. Por que incitar a fera que está escondida? Por que não evitá-la e
abandonar tudo? Divorciar-se, largar o emprego, abandonar as crianças, e justificar tudo isto como má oportunidade, um chefe
estúpido, uma esposa traiçoeira, crianças ingratas. É mais fácil seguir em frente, apesar das consequências reais, do que
mergulhar na causa das tensões, frustrações e decepções.
Quanto mais o indivíduo representa, menos provável que ele se observe. Então, nos defendemos reprimindo as memórias e os
sentimentos que as acompanham. Desse modo, acreditamos que os esquecemos. Mas não conseguimos, pois tais sentimentos
deflagram a raiva e desejos de vingança, ou depressão e pensamentos distorcidos. Será que esses sentimentos vão-se com tanta
facilidade? É claro que não. Eles são visitados sem que percebamos em nossas relações com o chefe, o cônjuge e os filhos.
Tornamo-nos o agressor, o brigão. Encontramos uma forma de nos vingar, vitimizando os outros, ou provando que quem nos
atormentava é que estava certo.
\u201cVocê nunca vai chegar a lugar nenhum\u201d significa \u201cNão poderei chegar a lugar nenhum, e ser um fracassado é a minha sina.\u201d
É mais fácil agir, perpetuar o comportamento de autossabotagem do que enfrentar as decepções do passado. É mais fácil
viver a vida como um robô do que como um ser humano sensível, e, possivelmente, deprimido. É mais fácil fracassar ou retrair-se do
que sentir dor.
Há aqueles que evitam esse tipo de dor e de discernimento, apressando-se em culpar-se. Sei que é tudo culpa minha, , sei
que sou o responsável agora me deixem sozinho. Sob o pretexto da aceitação da culpa, eles se libertam da necessidade de
enfrentar aquilo que os atormenta.
O resultado é que o indivíduo desenvolve uma personalidade SE EU.
Se eu for bem-sucedido, será um equívoco.
Se eu for promovido, será porque enganei meu chefe.
Se meu casamento estiver bem agora, não será por muito tempo. Estou esperando pelo fatídico fim, esperando que eles,
enfim, percebam o que se passa comigo. Sou um embuste, um impostor, um vira-casaca.
O dilema é que, se eu for bem-sucedido, meus pais ficarão orgulhosos de mim, e não quero que eles tenham essa satisfação.
Mas, se eu fracassar, provará que eles estavam certos. Então, fico numa situação difícil. Perco das duas formas - isto é, se meu
objetivo é vingar-me de meus pais, eu não existo mais. Sou apenas um robô reagindo aos comandos programados de meus pais
frustradores, para provar que estão certos ou errados, para agradá-los ou desapontá-los. Esta situação de desmembramento torna-
se internalizada de tal forma que a pessoa passa a ser inautêntica. O indivíduo desenvolve uma fachada, um \u201cfalso self2 \u201cuma
máscara para apresentar o próprio eu como se fosse unia outra pessoa, diferente do que realmente é. Não sou aceitável do jeito
que sou, então tenho de agir como se fosse alguém que acho que deveria ser.
Este indivíduo pode apresentar-se como forte ou fraco, glorioso ou ordinário, sofisticado ou simples, inteligente ou idiota, a fim
de desempenhar um papel, uma imagem do que julga ser aceitável. O indivíduo é educado e solícito - ou o contrário. Trata-se de um
comportamento autodestrutivo, porque a pessoa tem de viver como uma persona, em que o eu não está integrado e é real. A
sensação de aceitar-se está faltando, e isto aparece na maneira de a pessoa se relacionar com os outros. Ninguém realmente sabe
quem a pessoa é, inclusive ela própria. Tal indivíduo fica dividido, não podendo se arriscar e permitir que defesas esmoreçam.
Acessar sentimentos significa admitir pessoas, confiar - e assumir o risco de ser magoado novamente. Em tais casos, a compulsão
é evitar, esquivar-se e abandonar as relações que exigem proximidade. Pode significar divorciar-se de uma esposa que necessita
de mais intimidade; pode significar perder amigos; pode significar perder a amizade de um filho. Para esses indivíduos, é preferível
ficar sozinho, ou mesmo solitário, a ter de baixar a guarda, Mas isso não é algo consciente. É uma compulsão à repetição, é repetir
uma fuga de mágoas ou prejuízos potenciais.
Então, voltemos - a consciência e o insight do próprio comportamento de autossabotagem e a origem de tal comportamento
são os primeiros passos. Mas encarar os resultados desse comportamento de autossabotagem também é essencial, assim como
a compreensão de si como um ser condenado à repetição. O insight não é apenas o reconhecimento de que sintomas incômodos
estão causando problemas, mas que tais sintomas têm uma causa. Nada acontece por acaso e há significado para os sintomas.
Os sintomas não podem mais ser desprezados como uma aberração acidental ou uma idiossincrasia temporária. Há razões para
esses sintomas e suas ocorrências. Eles não acontecem repetidamente, sem alguma razão. E apenas um homem ou uma mulher
corajosos ousam encarar isso tudo.
Vivemos numa sociedade que tende a julgar e a criticar. Definimos pensamentos e comportamentos segundo o que os
especialistas em lógica chamam de \u201ca lei do meio excluído\u201d. O pensamento e o comportamento são taxados de bons ou maus,
certos ou errados, pretos ou brancos. Este tipo de raciocínio é a antítese da procura do significado. Despreza o fato de que pode
haver uma explicação para pensamentos e comportamentos que não seja provida de julgamento nem de críticas.
Não há pecadores na terapia. Ela pode ser uma experiência bastante tranquila e libertadora.
Depois do reconhecimento e da conscientização, vem o trabalho de consternação3 - consternação porque injustiças foram
cometidas, consternação porque não havia ninguém para ouvir quando o indivíduo precisava ser ouvido, consternação pela perda
de oportunidades de crescimento e de mudanças que já se foram. A consternação e o despojamento são difíceis. São realmente
difíceis. Contudo, a consternação é essencial para solucionar padrões de autossabotagem. E muitos indivíduos presos em uma
compulsão à repetição são incapazes de se consternar. Mas para seguir adiante, o indivíduo tem de se consternar, porque a
consternação significa reconhecimento - a admissão - dos relacionamentos perdidos e sabotados. Significa admitir o próprio
comportamento autodestrutivo. Significa admitir o que poderia ter sido, mas nunca foi. Significa vivenciar a mágoa e a dor da
decepção, da desconsideração, e o medo da perda à custa da própria felicidade. Significa aceitar as injustiças do passado, as
privações, os desapontamentos e as omissões. Significa desistir de lutar por vingança, de lutar por justiça. Significa enxergar o
crescimento como libertação da dor - encarando isso não como um fracasso, mas como um movimento em direção ao futuro.
Significa deixar para trás a bagagem do passado.
No entanto, o passado não deve ser negado. Deve ser encarado como parte da experiência de vida do indivíduo. O domínio do
passado permite que o indivíduo se mova em direção ao futuro. Significa perceber que não podemos esperar que o cônjuge, o
chefe, o filho compense-nos na vida adulta por aquilo que não recebemos na infância.
Não significa lastimar-se ou desanimar-se. Não significa se martirizar. Significa compreender e admitir o fato de que nossa
maneira de viver a vida não se deve a um acidente ou a uma casualidade. Talvez tenhamos de conviver com arrependimentos.