O ciclo da auto sabotagem
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O ciclo da auto sabotagem


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a literatura sobre
a ciência da psicoterapia, ela é, afinal, uma arte subjetiva e criativa.
E, da mesma forma que é improvável que cheguemos a unanimidade sobre o que constitui a boa arte, também é improvável
que tenhamos unanimidade sobre o que constitui uma boa terapia. Para cada pessoa, é uma viagem diferente. Para cada pessoa,
eu sou diferente. Como um dos meus orientadores disse certa vez, estamos os dois, paciente e terapeuta, embarcando numa
viagem por uma selva desconhecida. Nenhum de nós jamais esteve nessa selva. A única diferença entre mim e o paciente é que eu
já estive em outras selvas - não nesta, mas em outras. Tenho uma vaga noção dé como transpor os vários caminhos e armadilhas
da selva.
Não apenas o paciente é diferente a cada vez, como até eu sou uma pessoa diferente toda vez que um paciente se encontra
comigo. Eu sou mãe. Eu sou pai. Eu sou um irmão invejoso ou invejado. Eu sou professor. Eu sou o molestador ou mesmo o
agressor. Eu sou qualquer um, menos eu. Devo permitir que os pacientes me tomem por quem eles desejam, mas, ao mesmo
tempo, continuar sendo eu mesmo para cada um deles. Devo estar em total sintonia com meus sentimentos, memórias e
pensamentos. Devo confiar em meus sentimentos e pensamentos, porque são indícios importantes do que está acontecendo em
nosso intercâmbio. É uma viagem apavorante. Não é destinada a pessoas covardes, paciente ou terapeuta. Mas é, talvez, o tipo de
viagem mais gratificante. Pode até ser música.
Ela é para todos? Não. Mas acredito que é a única maneira de interromper o ciclo de repetições. E - isso leva tempo. Nesses
dias de assistência médica administrada, na nossa pressa de querer ver todas as coisas resolvidas, há pouca paciência com esse
tipo de terapia pela fala, que consome aquela coisa que temos tão pouco - tempo. Quem quer passar meses, até anos, esperando a
oportunidade de uma mudança surgir? E com a proliferação de drogas para amenizar e levantar qualquer estado de ânimo,
depressões e transtornos, por que falar? Aproximadamente um em cada dez norte-americanos toma ou já tomou um dos
medicamentos atualmente disponíveis no mercado para melhorar o humor. Os medicamentos podem oferecer o alívio da
ansiedade, mas não fazem nada para ajudar a lidar com a compulsão à repetição.
Acredito que há outra razão mais insidiosa, que trabalha contra a cura pela fala: embora muitas pessoas, especialmente das
artes e do teatro, tenham falado abertamente que fazem terapia, ela ainda é um tabu em nossa sociedade. Mesmo com a
proliferação de filmes, programas de tevê e livros sobre terapia, o senso comum apregoa que terapia é para neuróticos ricos ou
para aqueles que são verdadeiramente instáveis. Além disso, os filmes e programas de tevê que apresentam terapeutas como
incompetentes ou perversos não fazem nada para encorajar a confiança pública. Por que, perguntaria qualquer pessoa normal, eu
iria me submeter a esse auxílio tão perigoso? E pagar por isso, ainda por cima? Além disso, e, talvez, surpreendentemente, os
programas que apresentam o terapeuta como um herói também podem ser igualmente prejudiciais, fazendo com que o paciente
aspire por uma relação terapêutica que foi concebida no mundo da fantasia, construindo expectativas que estão condenadas desde
o início.
Uma outra razão de a \u201ccura pela fala\u201d não ser usada com frequência é: o que acontecerá se todo o mundo souber que alguém
esteve ou está fazendo terapia? No campo político, isto pode significar um sopro de morte. Um político, hoje, pode ter um caso
extra-conjugal revelado, pode admitir que é usuário de drogas, pode ser até declarado culpado por dirigir bêbado, e sobreviver a
tudo isto. Muitos sobreviveram. Mas é raro um político conseguir sobreviver à revelação de que se submete a sessões de
psicoterapia. Tal confissão já derrubou mais de um político na história recente.
Então, sim, há muitas razões para os indivíduos não se engajarem nessa difícil tarefa. E, além disso, há sempre a questão no
fundo da mente: A fala pode realmente curar, especialmente o tipo de fala praticada no método psicoanalítico? Qual a importância
disso na minha vida?
É uma pergunta que sempre me fazem. De fato, é uma pergunta que eu mesmo me fiz quando comecei o treinamento como
terapeuta psicanalítico. Para receber a habilitação, tive de fazer psicanálise. Lembro-me de ter perguntado ao meu orientador por
que precisava daquilo. Já tinha feito terapia anteriormente, e achava que não precisava de mais.
\u201cO quê?\u201d, ele disse. \u201cEntão você quer analisar, mas não quer ser analisado?\u201d
Bem, não. É desconfortável. É perturbador. É... assustador!
E é mesmo. Para todos nós. Geralmente revela coisas que gostaríamos de manter ocultas, inclusive de nós mesmos. Pode,
talvez, nos mostrar um mero ser humano, quando gostaríamos de pensar em nós como nobres ou santos, ou, pelo menos, livre de
problemas e idiossincrasias. Pode mostrar que temos fraquezas e defeitos, e que não estamos imunes às imperfeições que vemos
nos outros. Para mim, foi desconfortável, sim. Muito. Mas também me propiciou lições valiosas de humildade, admiração e respeito,
lições que eu precisaria no meu trabalho com pacientes - a humildade de saber que, de fato, é impossível conhecer alguém
totalmente; a admiração e o respeito por perceber que um ser humano abriria generosamente sua alma para mim. E a
compreensão de que eu deveria ser bastante cuidadoso.
Então, sim, eu acredito no poder da fala. Acredito na construção de uma relação terapêutica para que as mudanças possam
ocorrer. Há muitas teorias sobre como e por que isso acontece. Mas isto fica para depois. Por enquanto, acredito que com o
exemplo de alguns casos poderei mostrar melhor o que acontece na cura pela fala, mostrar como a mudança pode se efetivar, à
medida que dois seres humanos bastante falíveis atravessam alguns caminhos de difícil acesso. Com o trabalho árduo, tanto da
parte do paciente quanto do terapeuta. Com dedicação. Com tempo. E com apenas um pouco de sorte.
Capítulo 1
Repetição de comportamentos de identificação primária: conformidade versus autonomia
Muitos de nós gostam de criar, experimentar, viajar, aprender, crescer - tornar-se alguém. Mas existem pessoas que além de
não conseguir enfrentar esses desafios e aventuras, são incapazes até de imaginar tal coisa. Esses indivíduos agarram-se à crença
de que a única maneira realmente boa e correta de levar a vida é seguir precisamente os passos de outrem - frequentemente dos
pais. Essa imitação dos pais é conhecida como \u201cidentificação arcaica\u201d. A menininha que se equilibrava nos sapatos de salto da
mãe cresce para se tornar uma adulta que forçosamente usará o mesmo tipo de sapato. O garoto cuja família sempre passava as
férias numa choupana em Rainbow Lake, cresce e insiste em levar a família para a mesma choupana em Rainbow Lake - às vezes,
para a tristeza de sua atual família. Outros cozinham da mesma maneira que a mãe cozinhava (mesmo que os resultados possam
ser aprimorados), vão para a mesma igreja, sinagoga ou mesquita, frequentam o mesmo teatro, e, às vezes, até moram na mesma
casa. Para esses indivíduos, tanto na vida real quanto na íntima, não há espaço para a mudança, para a inovação, não há espaço
sequer para a imaginação.
Mas o que será que faz os indivíduos engajarem-se nesse comportamento repetitivo, nessa identificação arcaica, mesmo à
custa do próprio eu? Se alguém lhes perguntasse, a resposta mais frequente seria: \u201cBem, é a maneira correta,\u201d Também é
confortável e familiar, e mudar não é fácil. Crianças pequenas querem e precisam adquirir estrutura. Elas precisam de exemplos de
comportamento. Elas buscam liderança nos pais. Então, o que há de errado nisso?
Nada, claro. O que está errado, no entanto, é que alguns pais comunicam aos filhos que só a sua maneira de ser é a superior. A
criança cresce acreditando que todos são inferiores a seus pais. Ninguém é tão bom ou tão correto quanto os pais. Para apoiar